RELATO

A maravilha de ter um filho

Foto | Fabíola Rocha

Hoje ele acordou e disse, pela primeira vez, “é meu”. Anda numa fase possessiva, mas nunca tinha dito isso. A pancinha é tão redonda que tem calças que já não cabem na cintura. As coxinhas, que carinhosamente chamamos de coxelícias, são tão gordinhas que dá vontade de morder.

Já sabe falar sapato e está ensaiando dizer “chinelo”. Ama brincar com água e quer fazer transferência de líquidos em todos os cômodos da casa. Não quer ajuda pra comer nem pra beber. Ama cachorros e sai correndo pra fazer carinho até nos bem grandões. Vive de chamego com a nossa e essa amizade enche nossos olhos de amor.

Não sabe o que é dinheiro, nem prestígio, nem raça, nem vergonha, ele é puro corpo. Adora estar na rua. Sábado e domingo, quando não sai cedo pra ir pra escola, corre pra porta e pede pra sair. Corre quilômetros e nos deixa quase loucos na pracinha. Tira um fino dos brinquedos perigosos e desce sem medo até do escorregador mais alto. Poderia ficar duas horas seguidas no balanço sentido o ventinho balançar seu cabelo.

Não cabe em si de felicidade quando vê vovô e vovó no Facetime. Já reconhece e tem saudades dos primos. Manda beijos e dá tchau pra pessoas na rua. Não encosta no assento do carrinho, fica sempre inclinado pra frente olhando o movimento. Quer a gente, quer colo, quer presença, quer atenção – sempre um pouco mais.

Adora encher a barriguinha com arroz e feijão. Quase sempre pede “maix” e “maix”. Tá numa fase de pedir pão e suco a todo instante. Geralmente acorda com o cabelo todo emaranhado e temos que molhar pra baixar. Ainda acorda uma vez no meio da noite e nem pensa duas vezes: vai direto pro nosso quarto, onde é acolhido no meio do papai e da mamãe. Eu me aperto do meu lado da cama e fico feliz em ter meu braço coladinho naquele corpo cheiroso. Na manhã seguinte, quando ele acorda na horizontal e nós espremidos nos cantos, lembro que a nossa próxima compra será uma cama king size.

Quando eu penso que não posso amar ainda mais uma pessoinha tão pequena que está na minha vida há tão pouco tempo, me surpreendo com um sentimento que cresce a cada dia e que às vezes dói.

Em breve fará 2 anos e cada dia nos presenteia com uma nova descoberta.  Ele é a maior maravilha que eu já fiz na minha vida, é a criatura mais doce e amorosa que conheço e a criança mais engraçada e cheia de vitalidade que já tive contato. Ai, que sorte a minha!

E sobre ser mãe? Ah, a conversa não é sobre isso, a conversa é sobre ter filho.

*Esse texto foi publicado originalmente no Fala Frida no dia 20 de outubro de 2017.

Nicole Spohr Nicole Spohr

Mulher, feminista, cientista social, educadora, escritora e podcaster. Profundamente transformada pela experiência da maternidade e igualmente inconformada com o papel destinado às mulheres na sociedade, fundou a plataforma online Fala Frida, que encoraja mulheres a se expressarem por meio da escrita. Escreve contos infantis e ensaios críticos sobre a condição feminina, facilita grupos de leitura sobre sagrado feminino e ministra cursos e palestras sobre feminismo. Cientista social de formação, pesquisou direitos humanos na periferia global durante o doutorado e hoje atua como professora universitária, ensinando sobre igualdade de gênero, ética e responsabilidade social. Ao longo de sua jornada, entendeu que seu propósito é trabalhar por, para e com outras mulheres na construção de um mundo melhor para todos.

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