É de irmandade que precisamos

Hoje é mais um Dia Internacional da Mulher! Nos últimos anos, escrevi sobre a origem da data (aqui) e sobre as razões pelas quais (ainda) precisamos de um dia como esse (aqui e aqui). Mas em 2020 sinto que precisamos conversar sobre outro assunto: a união entre mulheres. 

Essa irmandade – ou sororidade – pode e deve se fazer presente em vários círculos da nossa vida: as mulheres da nossa família, as que trabalham com a gente, as vizinhas, as mães dos amigos e amigas das nossas crianças, as mulheres famosas que a gente acompanha. 

Como tratamos as mulheres da nossa família, especialmente as que vieram antes de nós? Escutamos genuinamente nossas irmãs, primas e tias? Honramos a mãe que nos deu a vida? E quanto às meninas e mulheres que vieram depois de nós, mostramos carinhosamente a potência e a beleza que existe em ser uma mulher?

Como nos relacionamentos com as mulheres no trabalho? Continuamos achando que fulana só subiu na empresa porque jogou charme pro chefe e que bom mesmo é ter chefe homem? Se ascendemos na carreira, abrimos espaço para outras mulheres ou continuamos liderando a partir de princípios masculinos e muitas vezes machistas?

Wangari Maathai, ativista e ganhadora do Prêmio Nobel da Paz em 2004, diz que sempre sentiu “que as mulheres talvez tenham, em alguns momentos, quase adotado os mesmos valores que os homens, porque vivem em um mundo que pertence aos homens e estão tentando encaixar-se em um sistema que foi criado por homens. Na verdade, talvez quando houver uma massa crítica de mulheres ocupando esses papeis nos governos, aí poderemos saber se as mulheres são capazes de administrar o poder de uma forma menos destrutiva que a forma como os homens têm usado o poder”.

Sabemos quem são as mulheres que moram perto da gente e como está a vida delas? Se elas estão em um relacionamento abusivo, se precisam de ajuda? Oferecemos um lanche ou uma carona para as crianças que estudam com as nossas? Quando vemos mulheres nas redes sociais, instantaneamente as julgamos pela roupa, comportamento, cor da pele, tipo de cabelo, atitude, estado civil?

Quão solidárias somos com mulheres de raças, identidades e orientações sexuais diferentes da nossa? Exercitamos uma escuta verdadeiramente empática ou não abrimos mão das nossas verdades? Será que inveja, competição, julgamento e indiferença não fazem parte justamente do patriarcado que prejudica todas nós?

Já dizia bell hooks que a “irmandade feminista tem raízes no comprometimento compartilhado em lutar contra as injustiças patriarcais, independente de como estas tomam forma. A solidariedade política entre mulheres sempre enfraquece o machismo e faz a base para superarmos patriarcado”. 

O livro Feminismo é para todo mundo – de onde tirei este trecho – é o tema do primeiro episódio do Fala Frida Podcast! Essa é mais uma forma que eu encontrei para ampliar e valorizar vozes femininas e um presente que ofereço para todas as mulheres nesse dia tão importante. Clique aqui para ouvir os dois primeiros episódios da temporada.

Para mim, o 8 de março é um dia de darmos as mãos. De nós mulheres, no mundo todo, fazermos uma grande roda – que seja imaginária – e celebrarmos a nossa irmandade e força. De honrarmos tudo que já superamos juntas e nos fortalecermos para tudo que ainda precisamos combater. Para Mirella Faur, “a reunião em círculo de pessoas que compartilham os mesmos objetivos e interesses é uma maneira ancestral e sagrada de provocar transformações pessoais e coletivas”. Pode parecer um ato pequeno, mas estender os braços com amor para outra mulher muda o mundo. E é dessa mudança que o mundo precisa. 

Nicole Spohr

Mulher, feminista, cientista social, educadora, escritora e podcaster. Profundamente transformada pela experiência da maternidade e igualmente inconformada com o papel destinado às mulheres na sociedade, fundou a plataforma online Fala Frida, que encoraja mulheres a se expressarem por meio da escrita. Escreve contos infantis e ensaios críticos sobre a condição feminina, facilita grupos de leitura sobre sagrado feminino e ministra cursos e palestras sobre feminismo. Cientista social de formação, pesquisou direitos humanos na periferia global durante o doutorado e hoje atua como professora universitária, ensinando sobre igualdade de gênero, ética e responsabilidade social. Ao longo de sua jornada, entendeu que seu propósito é trabalhar por, para e com outras mulheres na construção de um mundo melhor para todos.



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