OPINIÃO

Feminismo e Crise Climática

Foto | Lewis Parsons

O Planeta Terra nunca foi estático. A maneira como você o conhece hoje, a localização dos continentes e dos oceanos, a altura das montanhas, os desertos e as florestas, tudo se transforma ao longo do tempo. O clima na Terra também oscila e essas mudanças podem acontecer gradualmente ou de maneira abrupta.

Mas, se o clima do planeta sempre variou, qual seria a preocupação agora? O fato de que somos nós, os seres humanos e nosso modo de vida, que estamos provocando o aumento da temperatura.

A economia global se baseia em crescimento constante e a principal fonte de energia utilizada para isso provém da queima de combustíveis fósseis. Estamos produzindo emissões de gases que geram efeito estufa a uma velocidade sem precedentes. Se a mudança climática acontecer num breve espaço de tempo, muitas espécies não terão tempo de se adaptar a ela. Nós também seremos afetados. E muito. Cada pequeno acréscimo na temperatura faz com que a frequência e a força de eventos climáticos extremos aumente. E são as pessoas mais pobres, principalmente as mulheres e as crianças, que estão na linha de frente dessa batalha.

O Relatório da Comissão Global sobre Economia e Clima da ONU é rotundo em afirmar que as pessoas pobres são as mais expostas aos impactos das mudanças climáticas e que, basta apenas uma estação com mau tempo, para que famílias de baixa renda sejam empurradas para abaixo da linha da pobreza. O número de mulheres que vivem em extrema pobreza hoje é de 4,4 milhões a mais que o número de homens. Essa desigualdade é atribuída, em grande parte, à carga de trabalho doméstico não remunerado que as mulheres enfrentam com brutal desproporção frente ao trabalho doméstico pelo qual os homens se responsabilizam.

A vulnerabilidade das mulheres frente a desastres precisa ser enfrentada.

Um estudo feito em 141 países evidenciou que as catástrofes produzem mais vítimas mortais entre as mulheres que entre os homens (das 140 mil pessoas que morreram em decorrência do ciclone que assolou Bangladesh em 1991, 90% eram mulheres, por exemplo ). Os efeitos são mais graves nos países onde a situação social, econômica e política da mulher é pior. Somado a isso, após um desastre ambiental, a esperança de vida delas é menor que a dos homens (Relatório da ONU sobre Gênero, Saúde e Mudança Climática). 

Somos as mais afetadas pelas mudanças climáticas, mas estamos nos alçando à luta ambiental.

Talvez o atual protagonismo das mulheres na luta contra as mudanças climáticas seja justamente porque estamos cansadas de não termos voz sobre os assuntos que mais nos afetam. Precisamos ocupar os espaços de poder. Em países nos quais há mais mulheres envolvidas na política, a tendência é a criação de mais áreas de preservação e a ratificação de tratados ambientais internacionais. Mas ainda temos uma média baixíssima de participação das mulheres ao redor do mundo: apenas 24% estão nos parlamentos e só 11 mulheres são chefes de Estado (ONU Mujeres).

As consequências das mudanças climáticas são uma questão de gênero. E o protagonismo das mulheres na luta ambiental também é. No mundo inteiro o que se está vendo é uma grande onda de mulheres líderes dentro de movimentos ambientais.  Nessa luta, elas sempre estiveram presentes e através dos tempos deram importantes contribuições para proteger a natureza, lutaram contra políticos, instituições, foram perseguidas e presas e continuam a ser assassinadas.

Para nos aproximarmos dessa luta e conhecermos as ações dessas mulheres, o Fala Frida inicia em 2020 uma série de perfis de ativistas ambientais que lutaram e que seguem lutando para que o nosso planeta continue sendo um lugar habitável para todas as espécies que aqui vivem, inclusive a nossa. Por aqui passarão nomes como o de Rachel Carlson, Wangari Maathai, Berta Cáceres, Greta Thunberg, Sônia Guajajara, Isatou Ceesay e o de muitas outras mulheres inspiradoras.

Como disse a prêmio Nobel Wangari Maathai, “são as pequenas coisas que as pessoas realizam que farão a diferença”. Qual é a sua pequena contribuição? A da Wangari era plantar árvores!

Dany Caetano Dany Caetano

Feminista, nascida e criada na periferia de Campo Grande-MS, descendente de retirantes da seca e dos povos Kadiwéu-Terena. Sempre adorou escrever e escolheu o Jornalismo como profissão. Apaixonada por ciência, não se deteve e foi estudar Geologia para entender como funciona o Planeta Terra. Encontrou em Madri, enquanto cursava Geologia Ambiental, a conexão entre feminismo e ciência. Se envolveu em um projeto sobre mulheres e meio ambiente e nunca mais se esqueceu do gostinho de contar a história de pessoas inspiradoras. Na Espanha atuou como pesquisadora no Instituto Geológico y Minero na área de riscos geológicos e no Brasil como geóloga voluntária na Defesa Civil de Florianópolis e Palhoça. Atualmente mora em Sevilha e trabalha com divulgação científica sobre Crise Climática e Ciências da Terra. Acredita que a educação transforma e é um direito de tod@s.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.

%d blogueiros gostam disto: