Como seu jantar chega até você ou uma visão feminista da economia

Foto | Alexander Mils

A questão de como nosso jantar é servido todas as noites é fundamental para a economia, pois descortina uma série de relações e interesses que mantêm o mercado funcionando. Adam Smith, considerado o pai da economia política, escreveu em 1776 que “não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro, ou do padeiro que esperamos nosso jantar, mas da consideração que eles têm pelos próprios interesses” (p. 18)1

Tais palavras transformaram radicalmente o que hoje entendemos como economia. A ideia de que cada agente só é acionado pelo interesse pessoal foi repetida por inúmeros economistas e é a base da economia moderna. Só que tem um pequeno detalhe que Adam Smith esqueceu de colocar nessa lógica e que somente em 2017 uma mulher, a jornalista sueca Katrine Marçal, ousou perguntar: quem cozinha o bife? (Também podemos questionar que o jantar a ser servido seja um bife, mas isso é papo pra outro texto).

O pai da economia nunca se casou e viveu com sua mãe pela maior parte da vida. Além disso, era uma prima cuidava de suas finanças! Ou seja, enquanto ele se concentrava para escrever “A riqueza das nações”, sua mãe passava pano no chão enquanto cozinhava batatas e deixava suas roupas de molho. Do mesmo modo, Marçal nos lembra que “para que o açougueiro, o padeiro e o cervejeiro pudessem ir trabalhar, na época em que Adam Smith estava escrevendo, suas esposas, mães ou irmãs tinham de passar horas e horas, dia após dia cuidando das crianças, limpando a casa, cozinhando, lavando roupa, enxugando lágrimas e brigando com os vizinhos. Não importa como encaramos o mercado, ele sempre é construído sobre outra economia. Uma economia que raramente debatemos” (p. 25). 

Mas qual é a história que gostamos de contar pra nós [email protected] sobre as mulheres e o mercado de trabalho? Que elas entraram no mercado de trabalho durante a Segunda Guerra Mundial, enquanto os homens estavam no front de batalha, ou então que elas fizeram isso em massa nos anos 1960 com a onda de liberação feminina. Será mesmo que a história foi essa?

A grande verdade, conforme aponta Katrine, é que as mulheres sempre trabalharam. E esse trabalho, pela maior parte do tempo, não foi remunerado, muito menos reconhecido. Afinal, “atividades como criar filhos, limpar, lavar e passar roupas para a família não criam bens tangíveis que possam ser comprados, trocados ou vendidos. Portanto, também não contribuem para a prosperidade, pensavam os economistas do século XIX” (p. 38).

Por outro lado, “os frutos do trabalho masculino podiam ser armazenados em pilhas e medidos em dinheiro. Os resultados do trabalho feminino eram intangíveis. Poeira varrida que é varrida se acumula de novo. Bocas que foram alimentadas ficam bom fome. Crianças que dormem acordam. […] O trabalho doméstico é cíclico por natureza. Portanto, o trabalho da mulher não era uma “atividade econômica” (p. 38). 

Queria poder dizer que em 2019 essa discussão está superada, que as mulheres têm suas atividades reconhecidas e remuneradas de forma justa. Só que não. A desigualdade ainda é gigante e estamos muito longe de mudar essa realidade. No Brasil, as mulheres gastam, em média, 18 horas semanais em trabalhos domésticos, enquanto que os homens dedicam apenas 10h2. A diferença salarial entre homens e mulheres permanece significativa, com as mulheres, na média para todos os tipos de trabalho, ganhando R$1764 e os homens, R$2306.

E o que podemos fazer pra diminuir essas desigualdades? Que tal se os homens, mais e mais, preparassem o jantar deles e de suas famílias? Lembrando que para isso, é preciso planejar o que comer, ir à feira, pagar, levar pra casa, lavar, picar, cozinhar, servir, para depois lavar a louça e começar tudo de novo.

Lembrando que o 5o objetivo de desenvolvimento sustentável da ONU trata da igualdade de gênero e envolve, entre outras coisas, “reconhecer e valorizar o trabalho de assistência e doméstico não remunerado, por meio da disponibilização de serviços públicos, infraestrutura e políticas de proteção social, bem como a promoção da responsabilidade compartilhada dentro do lar e da família, conforme os contextos nacionais”3

Referências

1 MARÇAL, Katrine. O lado invisível da economia: uma visão feminista. São Paulo: Alaúde Editorial, 2017. 

2 INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Estatísticas de gênero: indicadores sociais das mulheres no Brasil. Disponível em: <https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv101551_informativo.pdf>. Acesso em: 25 mar. 2019. 2018.

3 ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS BRASIL. Objetivo 5: Alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas. Disponível em:<https://nacoesunidas.org/pos2015/ods5/>. Acesso em: 16 abr. 2019.

Nicole Spohr

Nicole Spohr é consultora, escritora, professora universitária e fundadora do Fala Frida. Tem mestrado e doutorado em Administração de Empresas pela Fundação Getulio Vargas de São Paulo. No doutorado, investigou a violação de direitos humanos por uma multinacional brasileira em Moçambique. Foi pesquisadora visitante na Queen Mary University of London. Atualmente reside em Florianópolis e atua como consultora e educadora em diversidade e igualdade de gênero.



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