Sobre ter privilégios e o que fazer com isso

Foto | Hermes Rivera

Reconhecer privilégios é uma pauta quente da atualidade. Mas o que é isso? Será que temos que nos sentir [email protected] por termos nascido na família em que nascemos e pelas oportunidades que tivemos? Já tem cota disso e daquilo, já tivemos mulher presidente e homossexual na política. Não dá pra deixar tudo do jeito que tá?

Não, não dá. Vamos fazer um teste? Você pode demonstrar afeto por seu/sua [email protected] em público sem medo de ser [email protected]? Você encontra cosméticos apropriados para seu tom de pele com facilidade? Suas celebrações religiosas são feriados nacionais? Você já teve um trabalho oferecido por causa de uma amizade ou membro da família?

Se você respondeu sim a qualquer uma destas perguntas, você é uma pessoa privilegiada. Eu poderia passar o dia fazendo perguntas como estas. O privilégio pode se referir à sua orientação sexual, raça, religião, classe social, peso, capacidade física, entre outros.

Mas ninguém gosta de pensar que tem alguma vantagem especial na vida, certo? Parece tão injusto. É porque é mesmo. Muito injusto. Mas nós [email protected] gostamos de pensar que estamos onde estamos por pura meritocracia. Só que não.

Geralmente as pessoas que exercem algum tipo de poder sobre outras – sejam elas chefes, [email protected], especialistas em algum assunto, etc. – costumam nutrir a chamada “cegueira da vantagem”. É quando a pessoa não se sente privilegiada. Ela acha que tudo o que conquistou – uma carreira de sucesso, um salário bacana, um título de doutor – foi por causa de seu esforço pessoal, o que não tem nada a ver com sua cor de pele, gênero ou classe social. Bad news pra você: esses recortes têm tudo a ver.

Vou usar o meu exemplo pra ilustrar: sou uma mulher branca, magra, alta, meus cabelos são lisos e meus olhos são claros – em outras palavras, estou totalmente dentro do padrão de beleza atual e tenho ainda traços considerados “europeus”.  Como se isso já não trouxesse vantagens suficientes no Brasil, quando morei na Inglaterra, circulei tranquilamente por todos os lugares que quis – universidades, museus, restaurantes, parques, lojas. Não era incomum ver pessoas parecidas comigo nesses lugares. As pessoas inclusive duvidavam do fato de eu ser brasileira – achavam que eu era alemã, suíça, francesa, polonesa, mas nunca brasileira. Se minha aparência contribuiu para o fato de eu ter concluído o doutorado aos 29 anos? Provavelmente sim. Raras foram às vezes que eu ou outras pessoas duvidaram que aquele lugar – o do conhecimento, da pesquisa, da academia – poderia ou deveria ser meu.

Mas e se eu fosse uma mulher negra, o que teria sido diferente? Será que eu teria conseguido estudar nos colégios privados que estudei? Será que teria frequentado uma universidade pública de excelente qualidade? Será que teria sido incentivada – como fui – a seguir a carreira de pesquisa?

Será que se eu nunca tivesse visto outra mulher negra na ciência, eu consideraria que aquele lugar poderia ser meu? Será que eu teria conseguido todas as bolsas necessárias para fazer mestrado e doutorado em São Paulo em uma das melhores fundações do país? Jamais terei a resposta exata para todas essas perguntas, mas é provável que para muitas delas, esta seja um não. Pra continuarmos essa reflexão,  trago o caso de uma mulher negra na academia. Grada Kilomba é uma mulher incrível: escritora, artista, pesquisadora, etc. etc. Ela é portuguesa e tem pele negra. E isso muda tudo. No livro Plantation memories (sem tradução para o Brasil), ela conta a saga para conseguir acessar a Free University of Berlin para fazer doutorado (tradução livre):

“Eu lembro do processo de matrícula na universidade para meu projeto de doutorado como um momento de dor. Lembro como a lista de documentos requeridos para a matrícula mudava cada vez que o processo parecia concluído. Me pediam novos certificados que nem haviam sido mencionados anteriormente. A coleta de tais documentos consumiu bastante tempo e dinheiro, ir e vir constantes, o envio de faxes, requerimento de documentos, tradução, autenticação, etc. Ao final, me foi dito que nenhum deles era verdadeiramente necessário, apenas um exame da língua alemã. Este aconteceria dois dias depois. Era a primeira vez que alguém mencionava esta necessidade para a matrícula no doutorado. No dia da prova, a tensão era grotesca. O exame determinaria quem se tornaria um estudante e permaneceria na universidade, e quem não poderia. Quando eu finalmente consegui a última reunião com a diretora do departamento de matrícula, ela sentou na minha frente, com meus documentos em mãos, e perguntou se eu realmente tinha certeza de que gostaria de me matricular como aluna de PhD. Ela explicou que eu não precisava, que poderia considerar a possibilidade de pesquisar e escrever a tese “em casa”. Ela estava me pedindo para permanecer “fora das estruturas da universidade”. Eu estava furiosa e exausta. Quantos obstáculos eu teria que enfrentar? Quem tem a permissão para produzir conhecimento? Como minha matrícula levou tanto tempo e eu ainda não possuía o cartão da universidade, meu mentor escreveu uma carta dizendo que eu era uma aluna de doutorado. Na primeira vez que fui à biblioteca, fui chamada por uma mulher branca, que falou em voz alta: ‘Você não é daqui, né? A biblioteca é apenas para estudantes da universidade’. Perplexa, eu parei. Entre dezenas de outros estudantes brancos circulando no recinto, eu fui a única a ser parada na entrada. Meu corpo não foi lido como um corpo acadêmico. Os alunos da universidade a que ela estava se referindo era os corpos brancos. Em seus olhos, aqueles eram corpos acadêmicos, corpos no lugar, corpos em casa”.

Deu pra ter uma ideia do que estou falando?

E se, depois de negar por um tempo, alguém enfim reconhecer que tem privilégios, o que fazer? Cortar os pulsos e se jogar da ponte de vergonha e culpa? Não precisa ir tão longe. Em primeiro lugar, é preciso falar sobre o assunto. Em casa, no trabalho, na escola. Ser humilde. Entender suas vantagens. Estudar, pesquisar, trazer referências produzidas por pessoas com perfis diferentes do seu. Se você é homem, leia mulheres; se é uma mulher branca, compre produtos feitos por mulheres negras. Se é heterossexual, dê oportunidade para uma pessoa homossexual; convide uma mulher indígena para palestrar no seu evento. Apoie as cotas. O objetivo final é fazer com que as pessoas menos privilegiadas tenham as mesmas oportunidades que você teve. E isso envolver mudar tudo!

Kilomba, Grada. Plantation memories: episodes of everyday racism. Münster: Unrast-Verlag, 2016.

Nicole Spohr

Nicole Spohr é consultora, escritora, professora universitária e fundadora do Fala Frida. Tem mestrado e doutorado em Administração de Empresas pela Fundação Getulio Vargas de São Paulo. No doutorado, investigou a violação de direitos humanos por uma multinacional brasileira em Moçambique. Foi pesquisadora visitante na Queen Mary University of London. Atualmente reside em Florianópolis e atua como consultora e educadora em diversidade e igualdade de gênero.



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