Autogestação

Foto | Janko Ferlic

Minha filha completa 1 ano e 5 meses e me sinto grávida de mim mesma.

Os meses de espera pelo parto dela, para ver como ela viria ao mundo, como seríamos como pais, tudo isso passou. Mas fecundei uma espera pelo nascimento de algo que é meu. 

A autogestação é esperar o dia do seu (re)nascimento como dona de seu próprio tempo. Enquanto se espera pelo próprio parto, compro livros que ficam ali na estante, como se fossem os marcadores de tempo de que a gravidez avança.

Toda semana passo a limpo minha lista de desejos, de atividades que um dia quero voltar a fazer, aula de cerâmica, aula de alemão, voltar à natação, correr, pedalar, tantas coisas anotadas, mas que apenas servem para que eu possa me lembrar que eu ainda as quero. E passam os dias, esqueço da lista, encontro a lista no fundo da bolsa que troquei na semana retrasada! Na correria, esqueci que tinha desejos. Eis que me lembro da minha gravidez. Autogestação faz isso, deixa a gente esquecida mesmo. Como é viver sem tempo e energia para fazer o que se quer? Eu te conto. 

Uma colega do trabalho outro dia me vendo cheia de expectativas de grávida de mim mesma, me disse: você ainda espera ser como antes? Eu respondi quase envergonhada pelo fato de ter tantos desejos: como antes não, mas um pouco parecida sim. Ela balançou a cabeça como uma mãe que já se pariu e disse: “melhor desapegar disso, o tempo que te sobra agora é outro”.  

Até quando será que o desejo de fazer as coisas resiste ali insistentemente no caderninho amassado no fundo da bolsa? Será que até eu parir de mim eu vou querer fazer as coisas que quero? Ou quando eu (re)nascer já serei sem vontades, resignada de mim mesma? 

Outro dia fiz uma nova lista. Nela coloquei que precisava ler a lista de desejos e me lembrar que meu parto de mim chegará. Até lá, espero com a mesma tranquilidade de uma grávida, meu dia chegará.

Jana Petaccia

Reino: Mulher sapiens sapiens. Filo: Bisneta, neta, filha e irmã de mulheres valentes. Classe: Servidora pública. Ordem: Italobaiana. Família: Companheiro e filha incríveis. Gênero: Incompreendido. Espécie: Curiosa.



2 Comentários

  1. Cristiana Trindade Ituassu
    Cristiana Trindade Ituassu
    10/06/2019 / 10:07

    Jana, não desista. Essa gestação dura mais de 9 meses e parece que o parto não chega nunca, mas ele chega. Desde que a gente não se esqueça da listinha. Ela se perde na bolsa mas continua na cabeça e no coração. Tenho um filho de 7 e outro de 4… muito recentemente, renasci pra mim. E posso te dizer: vale a espera! Na medida das suas possibilidades, organize a logística aí pra voltar a ser você. Filhos são o que há de mais importante na vida da gente, mas ela não se resume a eles. Pondo isso em prática, a gente se torna uma pessoa e uma mãe melhor. Beijo e força!

  2. Avatar
    Débora de Souza
    15/06/2019 / 20:59

    Jana, estou no mesmo barco me autogestando. Mas não é só “culpa” do filho, tenho que dar conta de ser mãe, esposa, professora, filha, irmã, sobrinha e amiga, então além dele todo o resto me ocupa devorando as horas do meu dia, não tive tempo para fazer a lista ainda. Um dia, um dia irei terminar aquele curso de xilogravura. Você de cerâmica e eu de xilo, daí a gente abre um ateliê.

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