O mito do tubarão azul

Foto | Noah Buscher

Um tubarão azul descansa ao fundo da maior piscina dentre as três oferecidas pelo cruzeiro. Era a sua piscina favorita porque usavam sal em vez de cloro e, por isso, ela não ficava tão incomodada ao nadar nela.

Com o intuito juvenil de maximizar o proveito das férias familiares, resolveu ir à piscina com o seu irmão mais velho. Se era divertido ir lá sozinha, seria ainda mais na companhia dele. O irmão é sete anos mais velho. Na época ela devia ter uns cinco anos e ele era o seu super-herói particular.

Ela acreditava piamente em tudo o que ele dizia.

Nessa ida à piscina ele disse que o tubarão azul que jazia ao fundo da piscina era de verdade. Ela rebateu “claro que não! É óbvio que é um desenho!”.

Mas a semente foi jogada.

Nasceu assim a primeira dúvida sobre a realidade.

“E se o tubarão for de verdade? É o meu irmão, ele não mentiria pra mim.”

Na dúvida ela não entrou na piscina até o fim da viagem, e se resignou a utilizar as outras duas piscinas cheias de cloro e vazias de sal.

Até então, no auge de sua infância, ela não possuía noção do que significava ser gorda. A primeira ideia de que ser gorda era algo ruim foi na escola, também aos cinco anos.  

Era mais um dia comum, quando viu a turma inteira ridicularizando uma menina chamada Megan. Não era preciso uma linguagem rebuscada para entender o contexto. Como mímica, só era necessário o essencial: Megan chorava no centro de um círculo e envolta dela vários colegas a xingavam e riam sem parar de sua aparência.

Ser gorda não era mais o simples oposto de magro. Ser gorda agora era um defeito de caráter. Era algo horrível e que devia ser evitado se não quisesse ser desprezada pelos seus colegas.

Então um dia, em uma briga familiar seu irmão a chamou de gorda. Era a primeira vez que aquele adjetivo aparecia, para depois se tornar um eterno alarme de carro em sua mente.

Ela rebateu “claro que eu não sou gorda!”.

Mas a semente foi jogada.

A gordura plantou na cabeça.

“E se eu realmente for gorda? É o meu irmão, ele não mentiria pra mim”.

Na dúvida, era melhor acreditar nele e comer menos. Era o nascimento de uma futura mulher esfomeada da vida. Era a morte de uma menina completamente despreocupada com o seu corpo.

Ao saber de seu ponto fraco, o amor fraterno atirava sempre no mesmo alvo. Dessa vez a frase foi que ela tinha “braços de polaca batedora de queijo” e pronto. Mais uma precoce morte da inocente aparência dos braços.

Antes braços desproblematizados, agora braços gordos, feios.

Deformados.

Mas essa ferida não seria pontual do super-herói particular.

Sua mãe estava brava em um jantar de família. Alguma coisa relacionada à alguma malcriação cometida no início do dia. O que melhor do que ofender a sua bela prole, um exemplo de amor maternal, do que chamar sua filha de gorda?

Ela foi proibida de jantar. “Estava gorda demais para jantar conosco”. Lhe foi permitido comer uma banana em seu quarto. Ela chorou até dormir, a banana esquecida no canto do quarto. Chorava porque estava com fome e queria jantar. Chorava porque não queria ser gorda de jeito nenhum.

Chorava porque tinha apenas 10 anos.

Anos depois, em um momento de nostalgia, ela resolveu folhear um álbum de fotos da família. Após uma vida inteira se vendo como uma criança gorda, esperava ver imagens de uma garotinha roliça, sorriso abafado pelas bochechas, coxas que se abraçavam e se assavam involuntariamente.

E ela não podia ter sentido maior espanto ao ver as fotos.

Cada foto causava um embrulho no estômago. Como se pudesse vomitar todas as vezes em que foi chamada de gorda. Uma raiva tomava conta dela. Uma vontade de chorar por ter sido enganada pelos outros e por ela mesma. Chorava porque estava com raiva e não queria estar. Chorava porque ela não tinha sido gorda de jeito nenhum. Mas achava desde antes dos 10 anos. Chorava porque aquilo não deveria incomodar tanto, mas incomodava.

Alguém lhe chamou de gorda quando era nova demais para poder saber quem ela era. Como não se conhecia, acreditou nos outros. Mas não a ensinaram a não acreditar em palavras que eram feitas só para arrancar pedaços.

Olhou para a menina daquelas fotos. Pensou em quantos dias da sua vida foram gastos se sentindo mal consigo mesma. Quantos dias deixou de comer porque “estava gorda”.

E se ela tivesse sido gorda? Por que isso deveria ser um problema?

Depois disso trilhou o seu próprio e tortuoso caminho de autoconhecimento. Mas mesmo assim há aqueles dias. Dias em que se sente feia nas fotos. Dias em que se sente inútil. Difícil. Substituível. Dias em que acredita nas palavras daquele falido super-herói que conseguiu ser menos super do que era herói.

A diferença é que hoje quando se vê infestada de defeitos, quando se debate, à procura desesperada de ar enquanto se afoga em autocrítica, ela para.

Simplesmente para.

E em um respiro consegue ver que talvez tudo isso seja só o tubarão azul no fundo da piscina.

Ele pode ser real e te devorar ou ele pode ser só um decalque lá no fundo. Um simulacro de perigo iminente. Uma mentira mixuruca e mal elaborada.

No fundo no fundo o tubarão está lá para todas nós.

Cabe você escolher acreditar que ele é real ou não. 

Giovanna Ghersel

Nasceu com o sexo feminino, mas demorou 24 anos para se tornar mulher. Tem um relacionamento estável com o direito, mas já pulou a cerca com o jornalismo por um tempo. Aprendeu que prefere escrever sem pressão e que o feminismo é uma prática diária. Descobriu que as mulheres têm direito a sentir mais sono que os homens, porque lutar contra o patriarcado todos os dias é, no mínimo, exaustivo.



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