Meu puerpério abriu o diálogo com a minha infância

Foto | Alec Douglas

Olhando para trás, não consigo entender como minha mãe conseguia se levantar da cama todos os dias. Tampouco consigo alcançar que força era aquela que lhe permitia sorrir e brincar conosco. Ela seguiu assim por alguns anos. Eu conseguia ver vida nos olhos dela. Ouvia sua gargalhada alta e achava que devia ser muito divertido ser ela. Abria seu guarda-roupa e passava seu perfume para sentir como seria ser tão colorida e vibrante. Observava atentamente as rodas de conversas com suas amigas, o quanto ela falava, sorria e gesticulava.

 Depois de algum tempo, não sei se eu já tinha 13, 14 ou 15 anos, outra Preta passou a conviver comigo. Meus olhos de criança ficaram muito confusos. Eu realmente não conseguia entender como aquela mulher alegre, cheia de vida e de objetivos, brincalhona, bonita, esforçada e trabalhadora, se transformou em uma sombra. Em uma pessoa que não cuidava de si ou de sua casa. Que ignorava os filhos. Que dormia demais. Que parecia não se importar.

Se eu tivesse levado um soco. Se eu tivesse levado um soco e tivesse três filhos pra criar. Se eu tivesse levado um soco, tivesse três filhos pra criar e fosse miserável. Se isso se repetisse todos os dias por 15 anos em minha vida. Talvez eu entendesse. Mas eu era uma criança. E ela tentou tudo pra me proteger de notar o que acontecia. 

Ele batia nela. Precisava que ela trabalhasse fora para colocar comida dentro de casa, mas deixava bem claro que não era para ela ser assim tão independente. Então, vez ou outra, destruía violentamente objetos que ela comprava com o suor de seu trabalho, fazia fogueira com suas roupas ou pegava seu dinheiro e saía para gastar na rua. Um dia ela foi embora.

A única coisa que eu enxerguei, por anos, sobre esse fato, foi uma mãe que abandonou os filhos. Foi no puerpério que passei de ser a filha cheia de mágoas da infância, para ser uma mãe que observou bem de perto outra mãe em uma situação completamente distinta da minha. Eu passava horas olhando meu bebê e pensando que um dia eu já tive aquele tamanho e que minha mãe também tinha sido mãe de um bebê. Que ao contrário dela, eu morava em uma casa onde reinava a paz e não havia nem sombra de dúvida que eu faria três ou quatro boas refeições ao dia. 

O puerpério, por si só, já é bastante difícil. E eu vivi o meu, passando a limpo a minha mãe. Foi doloroso reviver cada capítulo da minha infância. Eu tinha guardado tudo a sete-chaves e, de repente, sem que eu jamais pudesse esperar, veio tudo à tona. Todas as lembranças que eu havia enterrado, nasceram junto com meu filho. 

Eu só fui entender o propósito de toda aquela enxurrada de memórias e sentimentos quando meu filho já estava prestes a completar três anos: enxergar que eu não era mais aquela criança abandonada naquela casa de 30 anos atrás. Que minha mãe foi embora para não morrer, não porque não nos amava. Eu não era ela, eu era livre.

Depois de alguns meses ela voltou pra casa. Ali, nada mudou. E ela só pôde ir embora, definitivamente, muitos anos mais tarde. Quando já era só uma sombra de si mesma e havia perdido boa parte de sua autoestima. Sobre tudo o que aconteceu, comigo e com ela, nunca pudemos conversar pessoalmente. Ela faleceu enquanto eu ainda era uma criança magoada, presa ao corpo de uma adulta. No entanto, outros diálogos foram abertos, principalmente com a criança que um dia eu fui e com a mãe que ela foi um dia. E essas, são minhas melhores conversas, as que me libertam e libertam a minha mãe. 

Danyelly Martins

Jornalista, geóloga e mãe do Fer, que é sua passagem só de ida para uma viagem em busca de si mesma. Devoradora de livros e escritora de diários e outras histórias, seja em prosa ou poesia. Passou a vida se escondendo e, agora que teve um filho, resolveu nascer de novo!



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