A Chorona insensível

Foto | Spencer Dahl

Era uma vez, na semana passada, uma donzela em perigo. A pobre mocinha não tinha ninguém para amar, coitadinha. E toda a gente sabe que donzelas que não tem ninguém para amar estão em um tremendo perigo. O perigo é iminente pois quando todo o amor que uma donzela tem para dar não encontra vazão, esse caldo alquímico de ocitocina e pirilimpimpim vai se adensando no peito. Vai ficando cada vez mais espesso, até que começa a grudar no fundo da panela, ou seja, nas costelas, paredes dos pulmões e coração. E essa dureza vai dando forma a uma grossa parede de pedra de amor.

Lembrou da Elsa? Bem diva construindo o castelo de gelo ao seu redor em Frozen? Sim, exatamente isso. E essa donzela estava em grande perigo: o perigo de ficar presa entre as paredes que ela mesma criou, por não ter ninguém para amar por tanto tempo. E assim, vinha gente e ia gente e ela não conseguia mais acessar aquele amor – antes tão forte e que agora estava petrificado em um grande luto no seu peito. A donzela em perigo, sem ter o que fazer, fingia que estava tudo bem, que aquela tristeza e frustração dava a ela uma vibe cool, estilo protagonista de clipe de música indie. Ou grunge, ou renascentista (afinal essa história é atemporal, não é mesmo, meninas?). E seguia a vida, dizendo para si mesma que esse não era um problema tão grande assim. Pelo menos ela não era preconceituosa ou achava que direitos humanos é coisa de vagabundo – isso sim seria uma catástrofe. “Essa gente tem muito mais problemas que eu”, pensava (mal se dava conta que a incapacidade de deixar fluir o amor era a origem do problema de ambos, esse era o tamanho do perigo em que se encontrava nossa donzela.)

Um belo dia a mocinha teimosa – porque gente que trava o amor em si acaba travando tudo em sua vida… Mas eu ia dizendo que um belo dia a nossa heroína, digo, nossa donzela em perigo, vixi, droga, já tô contando o final da história…

Fato é que um belo dia essa mulher resolveu que precisava dar um jeito em sua vida e foi visitar um mago que atendia em um consultório no centro da cidade e cobrava barato porque ela também não tinha dinheiro para esbanjar com frivolidades. O mago disse a ela que aquela sensação de cansaço, falta de vontade de viver, explosões de raiva, vontade de parar de existir e incapacidade de ter amigos eram apenas sintomas da falta de amor.

E começou a perguntar se ela lembrava de ter amado um dia. Ela não lembrava, mas magicamente começou a falar sobre sua família e as lágrimas começaram a brotar. Fazia anos que não chorava. Aquele mago era melhor do que ela tinha pensado.

O problema é que ela não conseguia mais parar de chorar. Chorava na charrete, na fila do apotecário e até nas reuniões sociais. Pobrezinha da nossa donzela indefesa que chorava em todo lugar. Ninguém nunca a tinha visto chorar antes, isso era o fim do mundo. Ela estava igual às menininhas irritantes de sua escola que choravam por serem frágeis ou só para chamar atenção mesmo. E ela chorava ainda mais, de raiva de parecer vulnerável e… fraca! E pensava que se não conseguisse se controlar iria chorar para sempre e seria conhecida como A Mulher Chorona, e chorava ainda mais, agora de desespero da ideia de que jamais conseguiria parar de chorar. Uma tragédia havia tomado conta de sua vida! Entre lágrimas e urros de raiva recorreu a uma fada em um bosque no interior do interior da vila em que morava – para ter uma ideia, ela precisou pegar quatro conduções para chegar em casa depois da consulta. A fada era um ser cheio de luz e aceitou ajudar a mocinha, mas com uma condição:

— Eu tenho sim uma poção mágica feita de flores, que vai te ajudar com o choro e com todo o resto. Porém, essa poção tem um efeito colateral fortíssimo, que você deve prometer que vai deixar acontecer. É que essa poção faz abrir o coração. Ela tira toda essa craca que você acumulou todos esses anos. Você vai se sentir mais feliz, mais focada, mais bonita e quem sabe até querer arranjar alguém para amar – ofereceu a doce fada.

— Você está louca, fada desgraçada! Esse coração é meu, sempre foi assim, sempre me serviu muito bem. Não me venha com histórias pois eu não vou deixar você fazer freela de casamenteira comigo, não! – respondeu a nossa protagonista, obviamente um anjo de pessoa.

— Minha querida, se você não tomar essa poção você nunca vai conseguir conquistar os seus sonhos, ficará para sempre em depressão no fundo da cama, cheia de dores e doenças – apelou a fada, que sabia ser manipuladora para o bem das mocinhas insensíveis que apareciam por ali.

Com medo de parecer para sempre uma fraca chorona e ainda por cima não conseguir ser uma profissional bem-sucedida, nossa mocinha toma a poção mágica da fada. Tchan, tchan, tchan! A princípio, nada acontece… De repente, o choro já não existe mais. A mocinha respira aliviada. De resto, tudo normal, tudo certo. Ufa! Nada de efeito colateral.

Porém, a poção deveria ser tomada em doses homeopáticas e uma vez por semana a mocinha deveria voltar na casa da fada para que ela pudesse continuar o tratamento. A mocinha aceitou, afinal, ela se sentia muito bem depois daquela poção. E assim, aos poucos, bem aos poucos, aos poucos mesmo… a mocinha foi deixando a fadinha encher seu coração de luz e desfazer aqueles blocos de pedra de amor preso por tantos anos. Para a mocinha, parecia que nada estava acontecendo. Era gostoso receber aquele calorzinho no peito todas as semanas, então ela voltava.

E toda vez que a fada citava seu coração abrindo, a mocinha voltava a fazer cara de mal-humorada e xingava um pouco essa gente apaixonada ridícula que fala com voz de bebê. Foi do nada, um belo dia, descendo uma das montanhas na volta para casa, que a donzela percebeu o quanto aquele lugar em que ela morava era bonito. Que luz! Que pôr-do-sol. Que benção! Que tudo! E sentiu uma energia percorrer pelo seu corpo todo como se estivesse sendo eletrocutada, e de novo lágrimas brotando nos olhos.

Ela ficou desesperada. Aquele episódio das lágrimas eternas tinham deixado uma sensação ruim… porém, aos poucos, ela foi percebendo que essas lágrimas eram diferentes. Que essas lágrimas não faziam o peito doer. Ao contrário, parecia que a deixavam mais leve. Nas semanas seguintes, a donzela percebeu que era mais fácil se olhar no espelho, fazer planos de longo prazo, falar com as pessoas ao seu redor sem ficar com raiva. E os dias seguiram assim, com novas descobertas sobre si, sentimentos que ela nunca tinha se permitido sentir. Alguns eram ruins, alguns eram engraçados.

Um belo dia a donzela indefesa ( e indefensável) decidiu que essa história de abrir o coração estava muito boa. Que ela gostava. Que fazia bem. E decidiu deixar seu coração abrir por completo. Era chegada a hora de entregar aquele amor para alguém especial. Que medo! Como fazer isso? Como seria possível? Para quem ela daria tanto amor? Esse seria o seu maior desafio: mais que sobreviver àquela sociedade bizarra, mais que passar no vestibular, mais que não agredir gente machista. E veio em sua mente a melhor pessoa do mundo para entregar seu coração. Era uma pessoa que ela havia conhecido há muitos anos, mas, que por força do destino, havia deixado no caminho.

Passou no mercado e comprou vinho e comidinhas orgânicas. Tomou banho, se arrumou, cozinhou com todo o amor que agora brotava em seu peito. Preparou a mesa com flores, louça especial e frufru. Colocou música agradável para dar um clima. Logo chegaria o convidado especial, aquela pessoa escolhida para receber todo o fluxo de energia que passava em seu
peito. Na hora marcada, já ansiosa com toda a preparação ela mal podia conter a emoção. Chegou! A espera foi grande. Tão longa a espera. Tantos anos vivendo em seu castelo de gelo…

E finalmente o convidado foi aconchegado à mesa: era um retrato dela mesma, aos 4 anos de idade. Sentou-se. Conversaram – a donzela grande e a donzela criança – por longas horas, se refastelando em um grande banquete em que o amor-próprio foi servido com primazia.

Ao final daquele primeiro encontro dos sonhos, elas decidiram que iriam se casar e morar juntas e que nunca mais se separariam e que fariam uma à outra felizes para sempre. E assim foi, com altos e baixos, recaídas e dificuldades, conquistas e felicidades de todos os tipos, amores e traições de outras pessoas – essas coisas da vida. O amor continuou fluindo em seu coração pois agora ela tinha alguém para amar, não importava o que acontecesse. E foi assim que nossa donzela em perigo salvou a si mesma – com uma pequena ajuda da magia de gente amorosa – e viveu se amando para todo sempre.

FIM.

Luna Andressa Dreher

Terapeuta Holística | Sábia Corajosa | A busca pela Verdade já rendeu jornadas intensas, seja em viagens ao redor do mundo, surfando as ondas mentais ou nadando nas profundezas da Alma. Acredita que é possível curar o mundo com abraços.



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