Retrato dos meus 41

Foto | Franciele Cunha

Pois então… Numa conta grosseira, foram 15 mil dias de vida até agora. Uns muito alegres, inesquecíveis. Outros, difíceis de sair da memória pelo motivo contrário. Mas quer saber? Todos valeram a pena. 

Meu rosto reflete essa caminhada: minhas preocupações, os muitos sorrisos que já dei, meu jeito chorona. Os mais atentos podem reparar um cabelo branco aqui, outro tímido ali. As rugas eu sei direitinho onde estão começando a aparecer. Tudo isso é sinal da minha história, da trajetória que fui construindo e da qual me orgulho, hoje. É claro que há decisões das quais a gente se arrepende. Mas até estas foram importantes para o que, depois, eu vim a ser. Se tem coisas em mim de que eu não gosto? Sim, várias… Ainda há muito o que melhorar, sempre haverá. Mas o conjunto da obra me agrada, e eu prefiro focar nisso.

Quanto ao meu corpo, ah, esse já não é o mesmo de algum tempo atrás. Canso mais fácil e não consigo virar a noite como antes, nem na gandaia, nem trabalhando. Preciso dormir bem, me exercitar, comer melhor… coisas que todo mundo devia fazer sempre, mas que a gente, às vezes, só começa a pensar mais velho. Porque o corpo reclama. 

Reclama, mas ainda funciona. E bem, viu? Como dizer que não tenho, mesmo depois desses 15 mil dias vividos, um corpo fantástico? Se ele me deu dois filhos sensacionais, se é com ele que eu sinto o sol batendo no rosto, o vento bagunçando o cabelo e o abraço de quem eu amo?

Se me deixa sentir o cheiro de jasmim que lembra a casa da minha avó e comer chocolate até dar dor de barriga? Se posso ouvir minhas músicas preferidas e, mesmo precisando de óculos, consigo ler coisas divinas e escrever outras, pra dividir o que sinto? Se com ele vejo o pôr do sol da minha janela e, ainda que de joelhos meio estragados, sou capaz de dançar quando estou contente e carregar meus pequenos no colo?

Se ele me leva onde eu preciso ir, me deixa cantar, falar coisa séria, falar abobrinha e dar as aulas que eu adoro? Se funciona pra aprender, me mostrando que há muito que pensar e crescer ainda? Se me coloca em contato com o mundo, sentindo tudo o que me é permitido pelo simples fato de estar viva? 

Depois de 15 mil dias dentro dele, alguns dos quais brigando com o pobre coitado, só posso ser grata. Grata pela saúde que me deixa usufruir de tudo o que a vida oferece.

Grata por ter percebido isso a tempo de cuidar dele como merece. Grata por ter aceitado que eu também sou ele e ter descoberto que, com todos os defeitos que tem, ele é lindo, é perfeito e me trouxe até aqui.

Só espero que me leve bem mais longe ainda porque, se por um lado 15 mil dias parecem muita coisa, sinto como se fossem só o começo.

Cris Ituassu

Casada com o Adriano, com que teve o Theo e o Dan. Maravilhada com muita coisa, inconformada com tantas outras. Adora gente e todas as complicações daí decorrentes. Acredita que qualquer mudança só pode acontecer pelo afeto, e nada como a arte pra tocar os corações. Então escreve de vez em quando, na expectativa de por pra fora angústias ou esperanças e, quem sabe, tocar alguém.



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