Das mulheres que o seu namorado gosta

Foto | Jennifer Burk

Poucas coisas são tão opressoras e te fazem reavaliar a sua vida como fotos perfeitas de mulheres gostosas. Sinceramente, pouca coisa. É aí que você consegue perceber tudo que tem de errado com você.

E eu não estou falando dos nossos defeitos físicos.

Um exemplo clássico é quando você descobre o tipo de mulher que o seu namorado gosta. Quando você clica, sem querer, em um link de fotos de mulheres gostosas no computador dele. Sem querer. Logo depois de ver as fotos você sente vontade de ir consolar sua barriga mais proeminente, e bunda mais caída do que as das mulheres que o seu namorado gosta, com barras de chocolate.

Você se incomoda. Ele acha que é ciúmes. Mas não é. Você vai explicar a história para uma amiga sua.

– Ele achou que era ciúmes, mas não era isso…

– É porque elas não se pareciam com você não é? – e pronto, sua amiga conseguiu entender em segundos o que o seu namorado não consegue em horas de conversa.

As mulheres que o seu namorado gosta têm bumbum na nuca. Amam malhar. Você vai para a academia por obrigação. Elas malham horrores e nem suam. Você parece a peppa pig fazendo merchan da Nike. Elas consolam as tristezas delas em um dia com as amigas no spa. Você consola suas tristezas com um copo (ou dois, ou três) de vinho e uma barra de chocolate. Você queria gostar de malhar e ter dinheiro pra fazer spa, mas nenhuma dessas coisas se encaixam na sua realidade.

O que mais incomoda mesmo não é nem o fato de que elas parecem ter o corpo perfeito. Até porque você também vê caras gostosos no seu computador, assiste Aquaman com sua melhor amiga no cinema só para ver o Jason Momoa seminu por duas horas seguidas.

O que incomoda é você ter se incomodado.

Porque depois que você come a barra de chocolate você se sente mal, porque sabe que se quer ter um corpo sarado vai ter que controlar suas pequenas compulsões alimentares. Você se questiona porque é tão difícil assim seguir uma dieta, se sente incapacitada. Porque na cultura capitalista, em que só não muda a vida pra melhor e só não fica mais bonito quem não quer, não conseguir algo vira sintoma de uma imensa falha de caráter pessoal e não de fatores externos que, muitas vezes, te impedem de conseguir alcançar um objetivo.

Te incomoda porque você manda todo dia mil currículos e nenhuma empresa te chama nem pra entrevista. Você sente que aqueles anos todos de estudo e esforço não valeram nada.

E tudo que você não precisava era ver fotos de mulheres com bumbum na nuca…

Incomoda principalmente porque você, que se define como altamente feminista, não deveria se incomodar, e você está falhando até nisso.

Você sabe do seu valor; que não deveria querer o corpo perfeito que a sociedade impõe; que é amada; que tem personalidade…

Você deveria saber que, como o Brasil é líder no ranking de país com jovens que se submetem à cirurgia plástica – cerca de 90 mil por ano-, que esses “corpos perfeitos” não têm nada de natural. Você não deveria se incomodar ou se comparar com outras mulheres. Deveria ser mais segura, não usar anticoncepcional (porque é um veneno da indústria e mulheres feministas mesmo não usam anticoncepcional), não descontar suas tristezas em um chocottone, deveria tratar seu corpo como um templo, ser um mulherão da porra, empoderada, trabalhadora…

No fim, você se sente muito mais oprimida por todas essas coisas que você deveria ser, ou não deveria ser, e deveria ou não fazer, do que pelo fato de ter foto de mulher gostosa do computador do seu namorado.

Ser feminista sempre foi o significado de uma luta diária feminina pela igualdade de direitos, oportunidades e por uma menor opressão na vida das mulheres.

Ocorre que o feminismo instragrameável nos impõe novas opressões diárias. Será que ser feminista está se tornando uma tarefa cada vez mais difícil? É preciso mesmo um novo nível de evolução espiritual para ir à luta da igualdade de gênero?

Você pode não ser uma fada sensata, um mulherão da porra, perfeita sem defeitos. Você pode ser uma feminista involuída, com defeitos, com ciúmes de ex, com comparação com mulheres do Instagram, sem conseguir emprego e precisando de uma colher de chá, ou duas barras de chocolate, e tudo ok!

Feminista involuída que conhece seus pequenos erros de caráter, suas falhas não muito adoráveis, mas que em vez de tentar eliminar defeitos, você busca entendê-los. Porque nós só conseguimos mudar quando aceitamos a realidade. Quando reconhecemos que o caminho não vai ser linear e que precisamos ter mais compaixão pelas nossas recaídas.

Feminista sim. Involuída, mas tentando evoluir. Aprendendo pouco a pouco a ser melhor. Entendendo o peso das comparações, analisando o que é real e o que é irreal.

Dá pra ser feminista afogando as mágoas no spa, comendo barras de chocolate, trabalhando 12 horas por dia ou se frustrando no desemprego.

Dá pra ser feminista de tudo quanto é jeito. Só não da pra ser perfeita.

Isso nem as mulheres que seu namorado gosta conseguem ser.

Giovanna Ghersel

Nasceu com o sexo feminino, mas demorou 24 anos para se tornar mulher. Tem um relacionamento estável com o direito, mas já pulou a cerca com o jornalismo por um tempo. Aprendeu que prefere escrever sem pressão e que o feminismo é uma prática diária. Descobriu que as mulheres têm direito a sentir mais sono que os homens, porque lutar contra o patriarcado todos os dias é, no mínimo, exaustivo.



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