O machismo sutil 

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Volta e meia me pego pensando em como criar um filho que respeite as mulheres. Essa questão me assombra nas muitas vezes em que me dou conta do quão machista a nossa sociedade ainda é. Mas também me preocupa muito o fato de o ambiente familiar, a nossa intimidade, ainda ser muito machista também. E esse machismo do dia-a-dia é, muitas vezes, mais difícil ainda de enxergar do que aquele da rua, dos salários desiguais, da violência física, aquele machismo que mata todo dia. 

Nos almoços de domingo da minha família, geralmente as mulheres é que acabavam lavando a louça e arrumando a cozinha. Outro clássico é que “quando tem churrasco é o homem que cozinha”. Aham. Só que muitas vezes vi acontecer o seguinte: o homem compra a cerveja e a carne e assa o tal do churrasco. E a mulher é que arruma a mesa, faz a salada e os acompanhamentos, a sobremesa, depois tira a mesa e lava a louça. Bela divisão de tarefas essa. 

O fato de os pais “ajudarem” na criação dos filhos também não ajuda a criar um filho longe dos estereótipos de gênero. Pai cria o filho com a mãe e não é apenas um ajudante. Porque se formos pensar bem, as únicas coisas que realmente só a mulher pode fazer são gerar, parir e amamentar a criança. O resto, o pai pode e deve fazer. Então trocar, dar banho, ninar, fazer dormir, ensinar, educar, ter paciência, levar ao médio e à natação, nada disso é necessariamente trabalho para a mãe. Só que na nossa sociedade, como a mulher acaba tendo uma licença ou tirando um tempo da vida pra se dedicar à amamentação, acaba ganhando essa lista imensa de atividades com os filhos. Soma-se a isso o fato de que os pais geralmente trabalham fora de casa para garantir a renda da família, e está armado o cenário em que uma mãe cuida e o pai ajuda. 

Todas estas situações são corriqueiras na sociedade brasileira, são sutis e muitas vezes fica difícil enxergal algum mal aí. Só que não podemos esquecer que as mulheres dedicam 10 horas a mais por semana ao trabalho doméstico em comparação aos homens. E isso tem consequências. Em primeiro lugar, ficamos mais cansadas, o que em si, é injusto, pois a casa e os filhos são do casal e não da mulher. Em segundo lugar, essa dedicação e esse cansaço contribuem para que as mulheres se dediquem menos ao seu trabalho formal quando o têm, o que prejudica suas carreiras a contribui para que as mulheres ganhem menos do que os homenos mesmo desempenhando as mesmas funções. Ou seja, mesmo sendo sutil, esse tipo de machismo também precisa ser desconstruído e combatido.

Então cada dia eu tento mudar um pouquinho essa realidade. Hoje em dia os homens lá de casa já têm muito mais afinidade com o detergente e as panelas, não existe a palavra “ajuda” quando se trata de cuidar do nosso filho e a gente procura, cada dia, dividir as responsabilidades de forma justa. E eu procuro sempre incluir o Guto em todas as atividades da casa, mostrar como é legal cozinhar, lavar a roupa, organizar – não há nenhum demérito nisso! E mesmo ele sendo pequeno, eu sempre converso com ele sobre essas coisas, de forma que ele aos poucos vá absorvendo que papai e mamãe têm direitos e oportunidades iguais dentro e fora de casa. 

 

Nicole Spohr

Fundadora e editora do FF, mãe do Guto e pesquisadora. Andou meio mundo pra fazer uma tese de doutorado que valesse a pena, mas foi a maternidade que virou sua vida de cabeça pra baixo. Entendeu que mulheres, juntas, têm muita força. E que podem transformar o mundo. Acredita que vale a pena batalhar por crianças feministas e por direitos humanos.



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