“Pinta esse cabelo!” ou porque cabelo branco incomoda tanta gente

Sarah Harris, editora da Vogue inglesa | foto Steal the Look

Nós mulheres aprendemos desde pequenas que tipo de beleza é adequada e que tipo de cabelo é considerado “bom”. Qualquer coisa que fuja do liso, longo e claro precisa ser “corrigida”. Muitas de nós passamos a vida escravas de tinturas, alisamentos, luzes e tantos outros tratamentos capilares. O quanto gastamos nessa busca eterna pelo cabelo perfeito? Uma pequena fortuna, certamente. 

Por que é tão difícil gostarmos do que cresce na nossa cabeça? A natureza é tão perfeita que em 99% dos casos nosso tom de cabelo faz um match perfeito com nosso tom de pele. É só a gente não inventar muita moda que dá certo. Mas as revistas femininas estão aí na nossa porta (e em nossos computadores, tablets, celulares, TVs, outdoors, etc., etc., etc.) para nos mostrar que não é bem assim, que esse ano a tendência é outra.

E o cabelo branco? Esse só é permitido para os homens. Neles, é até sexy, símbolo de sabedoria. Nas mulheres? Relaxada, desleixada! Pra que envelhecer antes do tempo?

É que na nossa cultura, aprendemos logo que envelhecer é terrível, decadente, que devemos fazer o possível e o impossível para nos mantermos sempre jovens. E isso inclui ter cabelos não brancos, é claro. 

Eu, durante muito tempo, fiz luzes no cabelo para, como tantas mulheres, ficar mais loira. Quando engravidei, parei de fazer. Além de evitar a química forte, me bateu uma saudade da cor natural do meu cabelo, que eu não via há anos. Junto com as tantas transformações da maternidade, veio uma vontade muito grande de ser exatamente quem eu sou, sem tentativas de adequação a um ideal externo. Resultado: nunca mais pintei meu cabelo.

Mas eis que bem no topo da minha cabeça, onde o cabelo se divide, vêm crescendo vários cabelos brancos nos últimos tempos. E como eles têm uma textura diferente, ficam bem evidentes e arrepiados. Dia após dia, estou aprendendo a conviver com eles.

Já recebi vários “conselhos” não solicitados sugerindo (ou impondo) que eu deveria esconder tais fios. Contei aqui que até um homem se sentiu no direito de comentar o assunto. E assim segue a humanidade: todos se sentem no direito de controlar o corpo (e o cabelo) das mulheres. 

Já escutei de algumas amigas o quanto é cansativa essa história de esconder os brancos, já que a cada duas semanas as raízes estão despontando. Outras se queixam da reação da família e amigos se param de pintar. Não é fácil mesmo. Não estou sugerindo aqui que todo mundo tem-que-parar-de-cobrir-os-cabelos-brancos. Estou dizendo que está tudo bem não pintar – só isso.

Minha mãe é mais uma mulher incrível que aderiu aos brancos. Brigava há anos com tintas e tonalizantes que nunca davam certo, até que decidiu não pintar mais. Ganhou o bolso e ganhou mais ainda esta sessentona, agora mais charmosa do que nunca!

Nicole Spohr

Mulher, feminista, cientista social, educadora e escritora. Profundamente transformada pela experiência de gerar, parir e amamentar uma criança, fundou a plataforma online Fala Frida, que encoraja mulheres a se expressarem por meio de histórias. Escreve contos infantis e textos críticos sobre a condição feminina, facilita grupos de leitura sobre sagrado feminino, ministra cursos sobre ciclo menstrual e feminismo. Cientista social por formação, pesquisou direitos humanos na periferia global durante o doutorado e hoje atua como professora universitária, ensinando sobre igualdade de gênero, ética e responsabilidade social. Ao longo de sua jornada, entendeu que seu propósito é trabalhar por, para e com outras mulheres na construção de um mundo melhor para todas nós.



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