Qual é o futuro do trabalho doméstico?

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Como sugerir que todos os adultos capazes realizem tarefas domésticas em um país cuja arquitetura favorece que empregadas domésticas durmam nas casas de seus patrões? Acredite se quiser, mas as “dependências de empregada” – ou as senzalas modernas – têm sido “exportadas” para locais em que brasileiros são parcela importante dos compradores de imóveis, como Miami e Portugal. Se a arquitetura, embora esteja mudando, ainda reflete nossa herança colonial, o que falar das nossas mentes? Sim, vou entrar nesse assunto espinhoso e sei que a imensa maioria das pessoas do meu convívio no Brasil discorda de mim. Chamo pra conversa a filósofa e ativista norte-americana Angela Davis, que no início da década de 1980, especulou sobre o que aconteceria com as tarefas domésticas, que ela classifica como “invisíveis, repetitivas, exaustivas, improdutivas e nada criativas” (Davis, 2017, p. 225). Será que este fardo de cozinhar e limpar sempre foi imposto às mulheres? Antes de pensar no futuro, que tal olharmos  um pouquinho pro passado?

Antigamente ou 70 mil anos atrás, “nas sociedades em que os homens eram responsáveis por caçar animais selvagens e as mulheres, por colher legumes e frutas, os dois sexos tinham incumbências econômicas igualmente essenciais à sobrevivência de sua comunidade” (Davis, 2017, p. 227). De acordo com Yuval Harari, autor do livro Sapiens, havia uma certa divisão de atividades entre os gêneros. Porém, como pontuado por Iole Melho, isso não ocorria devido à força física superior dos homens, mas sim por conta da menor mobilidade que as mulheres tinham devido às sucessivas gestações e períodos de amamentação. Considerando que a caça era eventual, elas acabavam sendo as maiores responsáveis pela coleta de alimentos no entorno do local onde viviam, o que representava a maior parte da alimentação das famílias. Este raciocínio nos permite concluir que as mulheres eram as principais provedoras das famílias, e não os homens, como comumente pensamos. 

Aí, cerca de 12 mil anos atrás, veio a Revolução Agrícola, quando as pessoas passaram a dominar espécies animais e vegetais e a morar em locais fixos. Foi o fim da vida nômade e o início do patriarcado, ainda segundo Harari. Mas durante muito tempo, nessas “casas” que eram praticamente pequenas unidades fabris, as mulheres ainda detinham muito prestígio devido à importância de seu trabalho. No período colonial, “as mulheres […] não eram ‘faxineiras’ ou ‘administradoras’ da casa, e sim trabalhadoras completas e realizadas no interior da economia baseada na casa. Elas não apenas produziam a maioria dos artigos de que sua família precisava, como também eram protetoras da saúde da família e da comunidade” (Davis, 2017, p. 229). 

O problema de as tarefas domésticas recaírem quase que exclusivamente sobre as mulheres começou com a industrialização (alô Revolução Industrial, Inglaterra, século XXVIII), que resultou em um número crescente de fábricas. Com a consolidação do capitalismo como sistema produtivo, as tarefas domésticas, por não gerarem lucro, foram redefinidas como uma forma inferior de trabalho, em comparação às atividades assalariadas. Aliado a isso, a partir da virada para o século XIX, o combo “mãe e dona de casa” foi estabelecido como modelo universal de feminilidade, o que acabou por desincentivar que as mulheres obtivessem independência econômica de seus companheiros. Só que esse modelo era destinado primordialmente às mulheres brancas de classe média, já que as mulheres negras sempre tiveram que trabalhar (primeiro como escravas e depois como domésticas) e as mulheres brancas de classe baixa não podiam se dar ao luxo de não trabalhar porque precisavam sustentar – muitas vezes sozinhas – seus filhos e filhas. 

Então como resolver essa questão pra lá de complexa? Trago quatro ideias para pensarmos sobre o assunto.

Salário para donas de casa A estudiosa italiana Mariarosa Dalla Costa defende que a o caráter privado das tarefas domésticas é uma ilusão, já que, pelo fato de as mulheres cuidarem das necessidades de seus companheiros e de suas crianças, os maiores beneficiários de seus serviços são, na verdade, o atual empregador do marido e os futuros empregadores das crianças. Para ela, as donas de casa deveriam ser pagas porque o trabalho que desenvolvem é tão importante e valioso quando as mercadorias que seu marido produz. Seria essa a melhor solução para o trabalho doméstico? Há muitos debates sobre este assunto. Alguns sugerem que a dona de casa deva receber um salário mínimo por seu trabalho. Mas seria um salário mínimo justo ou suficiente? Em um texto publicado no ano passado, o consultor financeiro Gustavo Cerbasi calculou que “o valor de uma mãe em casa”, no Brasil, gira em torno de R$ 12 mil reais, somando os custos de “babá, cozinheira, lavadeira, passadeira, motorista, faxineira e professora particular”. Apesar de o artigo não ajudar muito a questionar uma série de estereótipos de gênero, foi importante porque acendeu um alerta para a classe média brasileira: donas de casa trabalham muito e não recebem nada por isso!

Trabalho doméstico não é coisa de mulher Outra possível solução seria tirar o sexismo da equação e redividir as tarefas, ou seja, esquecer a ideia de que limpar a casa e cuidar de crianças é trabalho de mulher. É também, mas não é só dela. É de todos os adultos, independente do sexo. No Brasil, as mulheres gastam o dobro de horas por semana com trabalhos domésticos. Tem algo de muito errado nessa prática e nessa mentalidade, não acha? Tem alguém deixando de fazer a sua parcela de atividades… Os homens, talvez? Porque no limite, nós, mulheres de classe média, transferimos para outra mulher em situação socioeconômica pior do que a nossa, tarefas que nós ou nossos companheiros (ou companheiras) deveríamos estar fazendo. Uma amiga que morou um tempo na Alemanha contou que lá a limpeza das áreas comuns do prédio (escadas, hall, etc.) eram divididas igualmente entre os moradores. Cada semana, determinado apartamento era responsável. Fabuloso, não?

Baixar os padrões de limpeza Outra ideia – um tanto ousada, eu sei – seria baixar nossos padrões de limpeza. No Brasil se limpa demais! Fico horrorizada ao ver, no prédio da minha mãe, a pessoa responsável (no caso, uma mulher negra) limpar quase que diariamente todas as áreas comuns do prédio! Não é possível que isso seja realmente necessário… Outra coisa que aprendi é que passar roupa pode ser totalmente opcional. Algumas mulheres mais velhas que eu  quase surtam quando conto que não passo nenhuma peça de roupa do meu filho. Nem minha. Nem nenhuma roupa de cama!!! Quando morei em Londres, percebi que as pessoas simplesmente não dão bola pra isso. E o melhor: nada muda na sua vida se você não passar roupa (a não ser o tempo livre que sobra, claro!). Os padrões de limpeza ingleses, aliás, são beeem mais modestos que os nossos – justamente porque praticamente todo mundo esquenta a barriga no fogão e esfria no tanque (além de trabalhar e cuidar das crianças, obviamente). Então simplesmente não dá tempo e ninguém tá preocupado em ter a casa sempre brilhando e tudo no lugar. Aprender a conviver com um pouco de sujeira e bagunça, para nós brasileiros, é uma arte. Especialmente para nós, mulheres, que fomos criadas para detectar poeira a 20km de distância. Pra que, meu Deus?

Industrialização do trabalho doméstico Uma terceira alternativa, sugerida por Angela Davis, seria industrializar o serviço doméstico de modo a permitir uma maior independência feminina – especialmente de mulheres negras, imigrantes e de classes mais baixas, as principais domésticas mundo afora. Para ela, “as tarefas domésticas não precisam mais ser consideradas necessária e imutavelmente uma questão de caráter privado. Equipes treinadas e bem pagas de trabalhadoras e trabalhadores, indo de casa em casa, operando máquinas de limpeza de alta tecnologia, poderiam realizar de forma rápida e eficiente o que a dona de casa atual faz de modo tão árduo e primitivo” (Davis, 2017, p. 226). Lembro da primeira vez que me deparei com uma empresa de serviços domésticos. Os valores e duração da faxina eram pré-definidos, assim como as atividades incluídas e principalmente as não incluídas. Passar roupa, obviamente, não era uma delas. Me recordo de ter me aborrecido pela suposta “falta de flexibilidade”, mas hoje percebo claramente que esta é uma forma de respeitar as profissionais contratadas. Até porque limpar, fazer faxina, obviamente, não inclui roupa. Porque a questão que se coloca é: quem vai fiscalizar o trabalho doméstico realizado no interior de uma residência em uma relação absolutamente desigual de poder que é a de patroa-empregada? Quando colocamos empresas e regulamentações claras na jogada, fica mais fácil controlar o que está sendo entregue e a dignidade de quem realiza o serviço. 

Quando finalmente foi sancionada a lei que regulamenta e protege o trabalho das domésticas no Brasil, muita gente chiou. “Elas vão ter menos empregos” e “essa lei não vai pegar” foram algumas frases que ouvimos na época. São da mesma estirpe comentários do tipo “esse aeroporto está virando uma rodoviária” ou “esse lugar/praia/clube/hotel tá ficando muito mal frequentado”. São frases desesperadas e preconceituosas daqueles que não conseguem conceber a ideia de pessoas de classes mais baixas ocupando os espaços que elas achavam que eram só delas. Quando pessoas menos privilegiadas conquistam direitos e oportunidades, significa que o mundo está melhorando e não que nós estamos perdendo alguma coisa. 

A questão de quem limpa a nossa sujeira, pra mim, é central para o feminismo. Ela escancara o privilégio. Como podemos aceitar um modelo de educação em que as crianças são ensinadas que outro ser humano vai limpar o que elas sujam ou deixam jogado? De que adianta eu estar aqui toda desconstruída escrevendo esse texto se é uma mulher negra de classe baixa que está limpando minha privada? Estou falando de liberdade pra quem, só pra mim? Não estou dizendo que contratar alguém pra limpar nossa casa é o mal do mundo, porém este ato certamente ajuda a perpetuar muitas desigualdades. Eu entendo que em alguns momentos da vida, como quando temos bebês pequenos, alguma incapacidade física ou idade avançada, etc., contratar alguém para cuidar da nossa casa pode ser uma ótima solução. Mas será que pessoas adultas, plenas fisicamente, não deveriam dar conta da própria casa? Ah, mas eu não tenho tempo – você pode argumentar. Se você mora com mais um adulto, já são quatro braços disponíveis! E na medida em que as crianças crescem (para quem tem), já temos novos bracinhos aprendendo que o pano não é autolimpante e que fazer a janta gera louça pra lavar.

Temos muito trabalho – mental e braçal – pela frente. Mas acredito muito, tal qual Angela Davis, que “o cuidado das crianças deve ser socializado, a preparação das refeições deve ser socializada e as tarefas domésticas devem ser industrializadas” (Davis, 2017, p. 234). É ou não é uma visão revolucionária? 

Nicole Spohr

Fundadora e editora do FF, mãe do Guto e pesquisadora. Andou meio mundo pra fazer uma tese de doutorado que valesse a pena, mas foi a maternidade que virou sua vida de cabeça pra baixo. Entendeu que mulheres, juntas, têm muita força. E que podem transformar o mundo. Acredita que vale a pena batalhar por crianças feministas e por direitos humanos.



1 Comment

  1. Geovana
    Geovana
    29/10/2018 / 11:54

    Ótimo texto, Nic. Inquietante e necessário!

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