Política do amor

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Por muitos anos carreguei, junto à minha irmã, o desafio de tentar manter o equilíbrio em casa e mediar os conflitos da relação de meus pais como marido e mulher; e entre eles e seus filhos. Essa inversão de papéis me desgastava e não foi à toa que na primeira oportunidade que tive, fui embora de casa. Pelo bem da minha saúde mental, precisei me afastar. 

Não há empatia entre nós. Há amor – um amor bem estranho, às vezes tóxico –, mas raramente me sentia conectada a eles. Essa empatia, que encontrei pouquíssimas vezes naqueles que deveriam ser meu porto seguro, foi suprida na vida: seja com os atos de ternura que recebia das famílias de minhas amigas e de meus tios; em minha forte relação com o trabalho e a necessidade de me sentir próxima de meus líderes; e, agora, com a família do meu marido, que abriu as portas e o coração desde o primeiro dia em que a conheci.

Por isso, sempre foi mais fácil ser carinhosa com pessoas sem graus de parentesco.

Quando tentava algum tipo de proximidade com meus pais, seja contando um segredo, ou pedindo um conselho, dificilmente vinham ensinamentos ou palavras de afeto; primeiro a lição de moral, depois, quem sabe, uma dica amiga. Tudo tinha de ser milimetricamente pensado antes de falar, caso contrário, a guerra se iniciaria, e eu seria afastada do Partido da Família. Eu tinha de ser política no próprio “lar”.

Não entendia como, principalmente meu pai, um cara tão ligado à ordem e à hierarquia, isentava-se de sua responsabilidade paternal. Dizia que essa psicologia de que os filhos agem de acordo com que aprendem com seus patriarcas é besteira, que cada um é do jeito que é simplesmente por assim ser. De fato, chega uma fase da vida em que você tem de assumir seus erros, mas negar que os pais têm influência na educação dos filhos? Agora hierarquia não existe?

Eu já deveria estar acostumada com isto tudo, pois minha relação familiar foi baseada em agressão na maioria dos anos – principalmente a verbal, a mais dolorida; sempre guiada em desestimular o outro, com um simples: “pra que pagar este curso se você nunca termina o que começa?”.

Cresci ouvindo que as ofensas ditas em casa não vinham do coração, e que eu deveria relevar por ser mais nova, por conseguinte, mais maleável ao perdão. Perdoei inúmeras vezes. Perdoei quando disseram que se arrependiam de ter filhos; quando minha mãe estimulava competição entre mim e a minha irmã, para ver nossa amizade acabar, assim como foi a dela com a irmã. Perdoei quando, ao invés de receber amor, ganhava presentes. 

Minha vida inteira tive este tipo de comportamento como parâmetro para minhas relações, e eu não me acostumo. Eu me machuco, eu choro, eu tenho raiva, eu perdoo, e fico sempre me questionando: por que minha família é assim? Por que meus pais preferem afastar os filhos? Por que é difícil ter uma conversa serena e respeitosa dentro da própria casa? Por que meu pai sempre desvirtua o que era para ser uma discussão sobre laços familiares em alianças políticas? Por que minha mãe está fazendo o mesmo? 

Depois que eu saí de casa, há quase sete anos, muita coisa melhorou; aprendi a respeitar mais meus pais, e eles a mim, e a compreendê-los fora de seus personagens de pai e mãe, e passei a enxergá-los como humanos. Poderia até dizer que me sentia finalmente mais próxima a eles. Estava tão feliz.

De repente, tudo veio à tona: ouvi de meu pai que ele agradece por eu não querer ter filhos, pois tem vergonha de mim. O motivo? Eleições 2018 e eu não vou votar no Bolsonaro. 

Isto é visto como uma afronta a ele, e agora à minha mãe, que sempre foi a omissa e repreendida da relação, mas já que eles pararam de viver em meio a brigas, e entenderam a simbologia da aliança, assumiu o “Deus no céu, marido na terra”.

Mas que tipo de aliança é esta? Eles enxergam os filhos como inimigos que sentem essa necessidade de unir forças do “casal de bem” para derrotar o oponente. E que mal é esse que eles veem? Só porque as pessoas têm diferentes opiniões é preciso sofrer um impeachment familiar? Enquanto eles insistem em dizer que a questão é política, na verdade, o debate é sobre amor.

“A gente não dá aquilo que nunca recebeu.”

Esta frase tem me acompanhado há algum tempo, na tentativa de entender essa loucura que se chama instituição familiar. Como cobrar amor de quem, em algum momento, não teve amor? Como cobrar amor de pessoas que, como um mecanismo de defesa, repelem esse sentimento? E, entendendo isso, entendendo eles, por que ainda me machuca tanto vivenciar esses comportamentos? 

Eu achava que não havia superado os problemas, que os machucados do passado não estavam cicatrizados, mas toda vez que esse pensamento vem à mente, tento me lembrar da vez em que minha psicóloga falou: “Percebeu que você vem quebrando todos os paradigmas da sua família?”. Estou aprendendo a amar sem ofender, a dar e receber carinho. 

Fico imaginando como seria se eu um dia eu me tornasse mãe. Mesmo não tendo esse instinto materno aflorado, e que talvez nunca venha a ter, eu jamais sentiria vergonha pelo meu filho ou filha ter opiniões divergentes a mim. Eu respeitaria e amaria da mesma forma. 

Eu teria é orgulho de ser mãe de alguém que busca a sua verdade, que respeita as pessoas como seres únicos, singulares, independentemente de raça, credo, orientação sexual. Eu sentiria orgulho em ver esse ser, criado para o mundo, desenvolvendo suas asas, expandindo sua consciência, errando e aprendendo com os erros. Sinto orgulho de mim.

Quero acreditar que estas últimas palavras ardidas que recebi foram da boca pra fora; que essa é a maneira de meus pais se preservarem da dor que é se relacionar; da dor que é nem sempre acertar. Machuca demais, mas tudo bem, eu os entendo. Por querer compreendê-los, estou quebrando um ciclo. 

Crescer dói, e nem sempre as pessoas estão dispostas a isso. Preferem repetir comportamentos, pois é mais fácil viver na zona de conforto. É mais fácil afastar o outro. Mesmo que seja família. Mesmo que seja um filho. E, apesar de não querer entender como alguém não quer se transformar, como alguém não quer mudar a dinâmica de suas relações, eu acabo entendendo. 

Gostaria que meus pais também quisessem quebrar um ciclo. 

Frida anônina é uma mulher comum como eu e você que decidiu abrir seu coração e contar alguma coisa importante que viveu.



1 Comment

  1. Gabriela
    Gabriela
    09/10/2018 / 09:50

    Deixa eu te dar um abraço!! Não porque a minha vida tenha sido muito diferente, mas porque abraço e afeto nunca são demais!! Adorei o texto, deve ter doído escrever! Tamo junto!

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