Heranças da fogueira

Foto | Larm Rmah

Hão de dizer que este século foi de trevas – e de fato o foi. O que vão esquecer de dizer é que nós tínhamos olhos capazes de enxergar no escuro. Era sob a proteção do manto da noite que éramos livres. Fugíamos das tochas da aldeia, do jugo dos pais e dos maridos, dos olhares e das intrigas e nos entranhávamos nos bosques guiadas pelos vagalumes. O que vão esquecer de dizer é que nós falávamos com os bichos, especialmente os que acordam depois do pôr do sol. Algumas de nós tinham tido a sorte ou a sabedoria necessária para terem ao lado homens que compreendiam que elas precisavam correr selvagens de vez em quando; outras, que conheceram a bruxaria e o poder mais tarde (mas nunca tarde demais), as que se viram por anos diante da praga de se submeter a homens pútridos, corruptos e violentos, se iniciavam conosco e descobriam maneiras de fugir. A essas nós ensinávamos as ervas que traziam o sono mais profundo, os chás que derrubavam as bestas, os cogumelos que adoeciam – os ogros num instante se transformavam em belas adormecidas. Podíamos fazê-los dormir por dias, se quiséssemos. Podíamos fazê-los doentes, minar sua força. Podíamos matá-los, quando em casos extremos.

O que vão esquecer de dizer é que fazíamos tudo por amor. Amor umas às outras. Era um mundo cruel para mulheres, um tempo demente, em que devíamos preservar a decência, abrir as pernas só para parir filhos e nunca dançar com os seios nus. Mas tudo isso, vocês bem sabem, não é da nossa natureza, não, não nascemos para nos conter, somos rio sem represa e sabemos disso desde o princípio em que deus nos pôs uma fenda no meio das pernas.

Aprendemos a namorar a Natureza para que ela nos desse suas bênçãos – é claro que deu. A Natureza é puta generosa, dá tudo que pedimos, por isso tanto a exploram, mas quando ela se revolta – é guerra sem vitória. A ela nos curvávamos e na lua cheia plantávamos nosso sangue na terra, para lhe devolver um pouco do tanto que nos dava, por isso era nos bosques que tínhamos predileção para realizar os rituais, para estar mais perto Dela, a grande mãe, a grande prostituta.

Adormecíamos os pais, os maridos, os filhos e nos embrenhávamos na floresta negra, os lobos uivavam sentindo nosso cheiro de fêmea no cio, as serpentes rastejavam ao nosso lado e por pura diversão se intrometiam debaixo das pesadas saias, se enroscavam pelas panturrilhas e subiam pelas coxas – picavam o nosso sexo e não morríamos. Pelo contrário, a picada acendia a vida, fazia arder tudo, incandescia um fogo bravo pelo ventre – era o início do transe.

Quando alcançávamos a clareira, a mais velha, a dos cabelos mais brancos, já tinha acendido a fogueira, a poção passava de mão em mão, era uma mistura torpe de vinho, sangue, ervas e veneno de cobra, era amargo e grosso, mas bebíamos sem reclamar. Os morcegos voavam enlouquecidos, as corujas piavam alegres e nós, em prece para a lua, começávamos a dançar. As botinas, os espartilhos, as camisas de algodão cru, as enfadonhas saias de lã, as cobranças, os papéis, íamos tirando tudo o que nos limitava, não sentíamos frio mesmo quando caía a neve, mesmo quando o inverno baixava cruel. Nossa pele era quente e nossos braços pródigos: caímos nos abraços umas das outras porque sabíamos que juntas éramos mais poderosas. A carne contra carne produz magia; vocês, nossas filhas, netas, bisnetas, tataranetas, vocês no fundo ainda sabem disso, é conhecimento ancestral.

Às vezes os rituais tinham ordem, às vezes eram pura anarquia, as más línguas diziam que honrávamos Satã, sim, honrávamos, honrávamos Lilith, Deus, Vênus, Íris, Caronte, Freya, oficiais ou pagãos, cada uma honrava o deus que mais forte lhe revirasse o estômago, porque foda-se, o divino está em tudo e nós sabíamos disso.  

Sob à luz da fogueira nós brilhávamos, deitávamos sobre o tapete das folhas secas e com a boca ainda amarga nos beijávamos beijos longos, demorados; a Natureza nos ensina sobre a arte da paciência, é preciso regar, e nós regávamos as bucetas umas das outras com saliva quente, era um festival de bucetas das mais saborosas, umas eram frescas e sedosas, com bucetas rosadas que mal tinham acabado de florescer, de pelos loiros cheirando a lírios e jasmins, outras eram corpulentas e lascivas, com bucetas de negros e fartos pelos encaracolados, cheiro de terra molhada, dessas que te sugam pra dentro, outras eram ruivas e fogosas, com bucetas como labaredas, dessas tão quentes que a língua se queima no toque, outras eram etéreas e melosas, com bucetinhas que choravam de emoção quando acariciadas, pingando uma água doce. Éramos muitas e éramos vastas, universos em constante expansão.

Eram horas e horas noite adentro, num carnaval profano de gemidos e invocações, umas arfavam como corujas, baixinho e delicadas, outras miavam como gatas selvagens, outras gritavam ensandecidas invocando seus deuses e demônios; era uma confusão de pernas e braços e seios que eu chupava com ardor. Das grávidas vinha leite, que elas nos davam generosamente, nós sabíamos que tudo que vem do corpo da mulher é sagrado, então mamávamos agradecidas e nos embriagávamos.

Era tão palpável a energia densa que pairava entre nós que logo o ar ficava turvo e embaçado, uma névoa cálida, os vapores dos nossos hálitos, a pura força do nosso gozo, quando uma gozava logo as outras começavam a gozar também, o fogo queimando as entranhas; homens não era convidados, mas algumas vezes fomos pegas. Gostavam de se embrenhar no mato os maridos desconfiados, os lenhadores perdidos, os poetas insones (esses particularmente meus favoritos), os que vagavam pela noite em busca de algo que não sabiam. Mas estávamos preparadas para isso, aliciávamos o perdido à orgia, o entorpecíamos de tal maneira que logo ele estava alucinado e apaixonado por nós, disposto a tudo, querendo de bom grado ser nosso sacrifício, e nós nos servíamos dele. Conhecíamos também as ervas que mantinham o pau duro por horas, mais duro que a madeira das árvores ao redor, assim todas que quisessem podiam usufruir. Depois devolvíamos o pobre esgotado à aldeia, dormindo o sono dos pacificados, sim, nós o poupávamos, ele quando acordava não podia crer em tal absurdo e logo dava tudo por sonho. Nós ríamos.

Não vão contar isso, da nossa generosidade, vão nos tomar como putas, adúlteras, maléficas, mas não sabem de nada. Ainda hoje, século que insistem em chamar de luminoso, não sabem de nada.

Perdemos muitas de nós, mortas na fogueira, torturadas com a criatividade mais vil. Ainda hoje continuamos perdendo. Por isso aqui volto para lhes dizer, filhas, netas, bisnetas, tataranetas, que vocês carregam o nosso sangue, o mesmo sangue, o sangue da Natureza, que corre como rio por dentro dos veios da carne, amparem suas irmãs na queda, usem todas as armas, defendam-se.

E se eu lhes posso aconselhar algo é: não deixem o corpo morrer antes do tempo, antes da Morte que é tão poderosa quanto a Natureza, este é o maior sacrilégio, deixar a vida apodrecer enrustida por debaixo das vestes e da casca; todo mês há lua para a qual dançar, a magia para se apelar, há vida para a qual viver.

 

Lua Menezes

Lua Menezes é escritora e terapeuta especializada em sexualidade feminina. Formada em Teatro, com mestrado em Artes Cênicas, Lua sempre se interessou pelos estudos do corpo, da sexualidade e do erotismo nas artes. Até que depois de uma crise existencial resolveu mudar tudo: foi morar numa comunidade tântrica e se capacitou como terapeuta. A partir daí foi se especializando e dedicando cada vez mais seu trabalho para o público feminino. Hoje mora em Auckland, Nova Zelândia, alimenta o projeto de literatura erótica Lasciva Lua e continua sonhando em transformador o mundo através da arte, do conhecimento e do amor.



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