Quem pode falar sobre opressão e preconceito?

Foto | Samantha Sophia

Muito vem se debatendo ultimamente sobre lugar de fala. Mas o que é isso? Quem tem o direito de falar sobre o que? Só posso reclamar de machismo se for mulher? Só posso combater o racismo se for negra? Primeiramente, acredito que todo mundo pode e deve falar sobre tudo. Não há assunto tabu. Vivemos (teoricamente) em uma democracia e, assim sendo, o debate sobre tudo é necessário. Só que alguns debates são mais vitais para determinados grupos de pessoas. Então nada mais certo do que eles terem, digamos, uma participação especial nessa conversa, não acha?

Que lugar eu ocupo no mundo? Pergunta difícil e que pode ser respondida de muitas formas. Porém, quando se trata de um debate socioeconômico, podemos lançar mão de alguns parâmetros para nos classificar. Vou escolher quatro: gênero, orientação sexual, raça e classe.

Eu, Nicole, sou uma mulher (isso informa meu gênero), heterossexual (isso informa minha orientação sexual), branca (isso informa minha raça) e de classe média (isso informa minha classe). Sendo assim, lugar de fala tem a ver com o tipo de experiência que tenho por habitar este mundo com estas características.

Entender o lugar de fala, de acordo com Djamila Ribeiro, que escreveu um livro* sobre o assunto, é “entender como o lugar social que certos grupos ocupam restringem oportunidades” (Ribeiro, 2017, p. 61). E dentro da sociedade atual, que tipo de experiências eu provavelmente vou ter  por apresentar essas características que citei?

Como mulher, provavelmente serei ensinada a brincar de casinha, a aspirar o casamento, a ser boazinha, sofrerei assédio nas ruas desde a infância até a idade adulta. Como mulher heterossexual, provavelmente nunca terei minha orientação sexual questionada, já que sinto atração por homens e esta é a norma social. Como mulher heterossexual branca, provavelmente terei comida em casa desde meu primeiro dia de vida, não serei xingada por ser branca e minha aparência física não só não será questionada como tenderá a ser elogiada. Como mulher heterossexual branca de classe média, há grandes chances de eu estudar em colégio particular e entrar tranquilamente na faculdade, após a qual arranjarei um bom emprego. Sobre esses fatos que formam a minha experiência, eu tenho muita propriedade para falar, concorda? Esse é o meu lugar de fala. 

Agora vamos trocar alguns termos dessa conversa? Que experiências eu provavelmente teria se fosse uma mulher homossexual? Se fosse mulher mulher homossexual negra? E se fosse uma mulher homossexual negra de classe baixa? Será que eu teria conseguido fazer doutorado?

Existem vários tipos de opressão no mundo em que vivemos, mas algumas opressões se somam para alguns grupos de pessoas. Então ser uma mulher negra homossexual de classe baixa significa estar no mundo de forma significativamente mais vulnerável física, social e financeiramente do que estar no mundo como uma mulher branca heterossexual de classe média, como eu.

E o que isso quer dizer? Que se deixarmos tudo como está, esta mulher terá muitas dificuldades de melhorar as condições em que vive. Ou seja, essa mulher precisa de mais assistência social, mais políticas a seu favor, mais oportunidades – do que eu preciso. 

Que essa mulher tenha seu lugar de fala respeitado é muito importante na discussão sobre melhorar sua condição de vida. Mas justamente por conta da precariedade da sua situação é que ela tem pouquíssimas chances de falar, seja em uma reportagem de televisão, num artigo científico ou no parlamento. Por isso, o que acontece com frequência é que outros falam por ela – e nem sempre o que ela gostaria que fosse ouvido. Djamila explica que “não poder acessar certos espaços acarreta em não se ter produções e epistemologias desses grupos nesses espaços; não poder estar de forma justa nas universidades, meios de comunicação, política institucional, por exemplo, impossibilita que as vozes dos indivíduos desses grupos sejam catalogadas, ouvidas ” (Ribeiro, 2017, p. 64).

Mas o que fazer então? Em primeiro lugar: ouvir. Em segundo, ouvir. E em terceiro, ouvir. Ampliar o nosso lugar de escuta. Quem tem privilégios (seja de gênero, raça, classe, orientação sexual – alô homem branco heterossexual de classe média!) deveria procurar referências, artigos, livros, filmes, documentários de pessoas de perfis diferentes do seu.

Porque ouvindo a experiência daquela pessoa fica fácil ter empatia e se aproximar um pouquinho do que ela vive e sente todos os dias. E quem tem privilégios, deveria, por uma questão moral, ajudar a distribuí-los (ou no mínimo não atrapalhar quem luta por isso). Pois é só assim que poderemos começar a transformar o mundo em um lugar mais justo e igualitário.

Então se todo mundo pode e deve falar sobre machismo, racismo, homofobia e desigualdade social, tem grupos que podem falar com mais propriedade sobre como é experimentar essas opressões no dia a dia. Se, como diz Grada Kilomba, o racismo é um problema branco (no sentido de que é inventado pelo branco, não pelo negro), então o machismo é um problema dos homens e a homofobia é um problema dos heterossexuais. Defender as pessoas da violência e permitir que tenham as mesmas oportunidades  é um problema de todos.

*Ribeiro, D. (2017). O que é lugar de fala? Rio de Janeiro: Editora Letramento.

Nicole Spohr

Fundadora e editora do FF, mãe do Guto e pesquisadora. Andou meio mundo pra fazer uma tese de doutorado que valesse a pena, mas foi a maternidade que virou sua vida de cabeça pra baixo. Entendeu que mulheres, juntas, têm muita força. E que podem transformar o mundo. Acredita que vale a pena batalhar por crianças feministas e por direitos humanos.



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