Como se diz eu te amo?

Foto | Marina Papaspirou

Minha sogra diz que ama quando cozinha. Quando eu tive meu filho, o primeiro neto dela, ela me visitava, todas as semanas, e trazia alguma maravilha: um bolo, um pão, um doce, uma torta salgada. Abria a porta e lá estava ela com um pratinho coberto por um guardanapo no qual eu podia ler  “eu te amo, obrigada pelo meu neto”. Não tinha nada escrito, mas eu sabia.

O amor aparecia no que não era dito.

Uma amiga nunca perde a oportunidade de dizer que me ama e me enche de abraços e beijos. Minha cunhada escreve lindos textos ou pequenas poesias pra registrar seu amor.

O amor está claro no que é dito e escrito.

Sempre soube que o amor podia ser expressado através de palavras ou gestos e que bastava a gente abrir os olhos, os ouvidos e o coração pra poder sentir. Pra que falar então?

Por que, às vezes, sentir não é fácil. A gente fantasia, se engana, nega e fica confuso.

Se não foi dito, parece que não existe. Se foi dito e não foi vivido, parece que não é verdade. De um lado alguém querendo dizer que ama, sem saber como e, de outro alguém que quer se saber amado, e que tem dúvidas. O resultado dessa equação é frustração.

Todo mundo sabe como é bom se sentir amado, como é estimulante e que energia poderosa alimenta. Então o certo não seria expressar o amor de forma clara? Se a gente ama de verdade tem vontade de fazer a pessoa amada feliz, por que não faz?

Sei bem que as razões são muitas.

Na minha casa o amor não era coisa pra ser dita, então não aprendi a dizê-lo assim à luz do dia e à queima roupa. Acho que sei manifestá-lo, quero crer que as pessoas que me são caras sabem do meu afeto, mas reconheço a minha limitação verbal.

Assim como eu, muita gente não sabe dizer que ama, ou não quer. Ou se sabe dizer, não sabe ou não quer fazer, não quer se dar. Amar não é pros fracos e preguiçosos.

Dizer que ama e viver o amor na prática é uma capacidade rara. Não sei bem se isso é  uma questão de aprendizado, se é treino, estímulo, ou uma habilidade que nasce com a gente.

Sei de uma pessoa que sabe como fazer. Tem uma capacidade rara para externar o amor, conhece a linguagem, domina a prática.

E é tudo junto ao mesmo tempo agora: uma comida especial, um presente que sem nenhuma dúvida foi escolhido pra você, um abraço apertado, um “eu te amo, amo tua família e estou feliz por te ter por perto”, um almoço de domingo acompanhado por  “que alegria ter vocês aqui comigo”, um telefonema só pra dizer que eu posso contar com ela.

E o mais importante, sempre tenho a impressão de que ela tem um prazer legítimo de demonstrar com gestos e palavras o que vai dentro do peito.

Não sei se vocês já tiveram a oportunidade de viver isso, é arrebatador! Não é sufocante, nem meloso, é reconfortante, seguro e poderoso.

Tão arrebatador que eu quero ser assim. Quero imitar esse jeito incrível de ser humana. Quero ser generosa, ser melhor, externar o meu amor de todas as formas pra que ninguém tenha dúvidas quanto a ele.

Se amar é bom, se sentir amado é extraordinário. E tenho quase certeza de que essa energia vai e volta.

Não lembro de nenhuma descrição mais exata e mais bonita da sensação de se sentir amado do que aquela que Eça de Queiroz faz em “O Primo Basílio”. Mesmo quem não leu o livro, como eu, deve lembrar  desse trecho lido por Arnaldo Antunes, na música dele e da Marisa Monte, Amor, I love you. Pra quem não lembra, vale repetir:

“… tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente! Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades, e o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saía delas, como um corpo ressequido que se estira num banho tépido; sentia um acréscimo de estima por si mesma, e parecia-lhe que entrava enfim numa existência superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto diferente, cada passo condizia a um êxtase, e a alma se cobria de um luxo radioso de sensações!”

Se eu posso fazer alguém sentir um acréscimo de estima por si mesmo, tornar a existência  mais interessante e cobrir sua alma de um luxo radioso, porque não fazê-lo?

É de graça e opera milagres. Simples assim!

Beijo pra vocês e um mais que especial pra Maria Helena.

Gabriela Sperb

Mãe e filha, mente inquieta. Mestre em direito do trabalho, já foi professora e advogada. Desde 2013, é a feliz proprietária do Um Blog Sobre o Tempo e atualmente trabalha como empresária.



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