Maternidade videogame

Foto | Eye for Ebony

A maternidade às vezes parece um grande videogame da vida real. Quando menos esperamos, a criança que tanto amamos muda – muito – e já nem sabemos que ferramentas e truques usar para nos “defendermos” naquela nova fase. Explico.

Bebês pequenos atravessam constantemente o que chamamos de “picos de crescimento”. São momentos em que ocorrem “estirões” no desenvolvimento, ou seja, eles aprendem novas habilidades e mudam bastante o comportamento. É quando o bebê aprende a engatinhar, andar ou falar, por exemplo. É comum que nessas fases eles fiquem irritados, durmam pior, etc., afinal corpo e cérebro estão se adaptando a essa nova etapa. Para os bebês, a cada poucos meses ocorre um desses picos, então hoje em dia tem até aplicativo que mapeia a fase e “avisa” quando isso deve acontecer. Maravilha.

Só que quando eles crescem mais, esses picos ficam mais espaçados e eu passei a dar menos bola pra eles. Além disso, a gente vai “pegando o jeito” como mãe e fica mais confiante. Mas eis que em alguns momentos, do nada, o Guto simplesmente começa a fazer uma coisa totalmente nova, estruturar frases complexas ou para de obedecer a determinado comando. Incrivelmente essas mudanças costumam ocorrer nas segundas-feiras! rs E como agora ele fala muito, a coisa está entrando num outro nível de argumentação – socorro!

A última dessas aconteceu há algumas semanas. Ele está numa fase de amar azeitonas, mas não dou muitas porque são muito salgadas. Dei um punhadinho em duas rodadas e disse que tinha acabado – desculpa que sempre colou. Eis que o mocinho me olha e diz: “Quero ver o pote, mamãe!” Ou seja, acabou a era desta desculpa. Vou ter que explicar o porquê de não poder comer tanto a partir de agora…

Outra mudança recente é em relação à soneca pós-almoço. Até então, esse soninho era sagrado. Só que de uns tempos pra cá ele tem resistido ao sono. Faz de tudo pra não dormir (parece que não quer perder nada), só que se não dorme, fica chatinho a tarde toda; se dorme, não quer acordar de jeito nenhum, e fica aceso até  às 9 da noite. Ou seja, o que fazer??? É uma dúvida diária aqui em casa, rs. Pesquisando, descobri que esse comportamento é bem típico da idade (ele está perto dos três anos). 

Outra pérola foi dita quando o levei a um espaço de co-working familiar onde haveria uma roda de conversa com mulheres. Cheguei mais cedo e fiquei com ele no espaço de brincar, onde havia outras crianças e uma recreadora, na esperança dele curtir e eu poder ir sozinha à outra sala participar do evento. Quando tive que sair, falei pra ele que iria para a sala ao lado conversar com outras titias – desculpa que até então costumava funcionar – e ele respondeu: “Mamãe, conversa com essa titia” (a recreadora, que estava ao lado dele). Resultado: pegamos um brinquedo e ele ficou comigo durante toda a conversa. 

O que quero dizer é que a maternidade – ou a parentalidade – é um eterno reinventar-se. Os momentos de paz, tranquilidade e “está tudo dominado” são curtos, curtíssimos. Já falei aqui que a maternidade é uma oportunidade de mudar tudo. E hoje vejo que ela é também um motor infinito de criatividade. Se vira nos 30 pra inventar novas brincadeiras e argumentos para que eles façam o que a gente quer. O que mais tem me ajudado nesses momentos de mudança é conversar com outras mães, porque, ufa, isso também acontece com os filhos e filhas delas e, melhor de tudo, passa. O “vai passar, vai passar” continua sendo meu super ultra mega mantra materno.  

Nicole Spohr

Mulher, feminista, cientista social, educadora e escritora. Profundamente transformada pela experiência de gerar, parir e amamentar uma criança, fundou a plataforma online Fala Frida, que encoraja mulheres a se expressarem por meio de histórias. Escreve contos infantis e textos críticos sobre a condição feminina, facilita grupos de leitura sobre sagrado feminino, ministra cursos sobre ciclo menstrual e feminismo. Cientista social por formação, pesquisou direitos humanos na periferia global durante o doutorado e hoje atua como professora universitária, ensinando sobre igualdade de gênero, ética e responsabilidade social. Ao longo de sua jornada, entendeu que seu propósito é trabalhar por, para e com outras mulheres na construção de um mundo melhor para todas nós.



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