O bebê que nasceu na ilha

 

Foto | Picsea

Moro fora do Brasil há quase 10 anos e tive minha filha em uma ilha, no Caribe, há pouco mais de um ano. Morava antes disso em Atlanta, nos Estados Unidos, onde tive a oportunidade de conhecer mais sobre partos naturais através da mãe do meu afilhado. Ela teve um parto dos sonhos: na água; tranquila; onde tudo ocorreu como previsto. Maravilhoso!

Quando estava grávida, assisti muitos documentários, li muitos livros, contratei uma parteira (ela vinha me dar aulas em casa todos os sábados), meu esposo também se empenhou para conhecer tudo sobre partos, e como ele poderia me apoiar em todos os momentos. Eduquei-me o máximo que pude. E no caminho da minha gravidez, conversei com muitas pessoas que conseguiram fazer o parto natural, parto normal, cesárias, partos em casa, em hospitais, na água e por ai vai… Pessoas que me motivaram, pessoas que me achavam maluca quando falava que sonhava com as dores do parto e que estava me preparando mentalmente para elas. Estava focada, queria aprender, aprender e aprender.

Fazia listas e mais listas no computador, com resumos de tudo que havia aprendido. Fiz um resumo para o meu esposo de como poderia me dar o suporte. Fiz o birth plan, onde dizia com todas as letras, o mais claro possível, todas as minhas decisões pelo parto natural, sem nenhuma droga, sem nenhuma intervenção. Deixei tudo organizado (como uma boa virginiana um “pouco” ansiosa para conhecer o amor da minha vida!).

Porém, o final da gravidez chegou e ela não havia se encaixado… E não tinha nenhum sinal de parto… Nada… Dia após dia, exercício após exercício, todas as formas de estimular naturalmente e nada… A pergunta é se eu poderia esperar. A resposta é sim. Poderia esperar até às 42 semanas? Não necessariamente, porque aqui nas Bahamas seria somente até as 41. Porém, eu e meu esposo fizemos uma escolha, baseada no local onde estamos, na logística se caso ocorresse alguma emergência, na experiência da minha parteira (uma pessoa com mais de 30 anos de experiência e com casos dela brigar com médicos advogando por partos naturais, ou seja, ela defende a natureza com todas as forças), com a médica que sempre, desde o primeiro dia, sabia do meu objetivo pelo parto normal, e por fim com os nossos corações e assim decidimos pela cesária.

Pedi mais alguns dias para a médica (dando mais algum tempo para algo acontecer…) e com isso tivemos a oportunidade de conhecer toda a equipe (vantagens de viver em uma ilha), conversei sobre minha luta pelo parto natural, pedi para o anestesista me deixar sentir o máximo que pudesse, conversei com a minha médica sobre o skin to skin, para que a Sophia viesse logo para os meus braços, pedi para o meu esposo acompanhar a Sophia em todos os procedimentos (outra vantagem da ilha, onde só tinha eu como paciente na maternidade cheia de parteiras – as quais também lutam pelo parto natural e pela amamentação). Enfim, conversamos cara a cara com todos e deixamos nossos corações nas mãos deles.

Foi lindo, foi maravilhoso, foi mágico, foi um ato de Deus na minha vida. Sendo filha adotiva, ao ver a minha filha, eu pude entender o tamanho do amor e da coragem da minha mãe biológica por ter me doado com menos de 24 horas para uma família para que assim eu pudesse ter a vida maravilhosa e cheia de amor que tive. Nunca a conheci, mas ela sempre terá meu amor, respeito e agradecimento por tamanho ato.

Enfim, a Sophia veio direto aos meus braços, a equipe trabalhou rapidamente para que eu pudesse dar de mamá o mais rápido possível. Ela nem havia tomado banho quando veio aos meus braços, completando tantos dos meus desejos e pedidos… E por um ato de Deus, consegui entender quando um dia minha parteira me disse: “Meu objetivo com você é simplesmente te educar, o máximo que puder, para que assim você compreenda seu corpo, que já não é mais seu, e sim da sua filha. Confie na natureza.”

Eu me eduquei, eu me esforcei, tive o suporte do meu esposo que também se dedicou muito, tive exemplos tão próximos de mim… Mas não foi da maneira que eu esperava.

Se fiquei triste? Sim, por algumas horas, porém confiei em Deus e me agarrei nas mãos da Nossa Senhora do Bom Parto e segui em frente. Estava para conhecer o amor da minha vida. E foi assim que nosso encontro aconteceu. Foi mais que amor a primeira vista, foi um reencontro de almas.

Se Deus me ajudar em ter outro filho, adoraria tentar mais uma vez o parto natural, continuo com todos os meus resumos, todos os meus livros, vídeos e por ai vai!

Hoje em dia sei, mais do que nunca, que meu parto, mesmo sendo cesárea, foi muito especial, muito lindo, cheio de emoções, com profissionais que me respeitaram, que me ajudaram a ter o mais “natural” possível. Tive sorte de ter pessoas tão abençoadas. Talvez se ainda estivesse nos Estados Unidos, com todo suporte tecnológico e logístico, esperaria mais. Porém, estava aqui, no meio do mar do caribe, onde a minha filha nasceu sorridente, com os olhos querendo ver tudo e todos ao seu redor, onde o mar me acalma e me faz meditar… Onde eu concluí que o parto foi uma parte da minha experiência maravilhosa de ser mãe – que acontece todos os dias. Assim como a gravidez, a amamentação, e todas as outras milestones, fazem parte do todo. E eu não poderia deixar uma parte super importante (não me entenda mal), como é o parto, deixar com que eu desfocasse das outras partes. Como foi a amamentação, que com a graça de Deus, foi tudo bem, amamentei muito, na frente de tudo e de todos e lutei por esse nosso momento diariamente e foi lindo!

Camila Paiva

Camila, Mãe da Sophia e da Ana Beatriz. Virginiana fora do Brasil desde 2005. Foi adotada dentre as primeiras 24 horas de vida e sabe do valor do amor desde pequena. Com fé em Deus, segue a vida dia após dia…Crendo que tudo acaba bem no final e se não esta bem no momento, é um sinal que ainda tem algo para aprender.



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