Pequena palavra, grande violência

Foto | Fredo Figaredo

“Que vontade de chupar essa buceta!”
“Ô, gostosa! Vem cá com o papai!”
“Olha aquela loirinha, que delícia!”
“Ei! Psiu! Gatinha! Tá sozinha?”
“Gostosa! Safada! Rebola mais!”

Durante toda a minha vida ouvi coisas desse nível nas ruas. Seja à noite, indo pra festa, ou de manhã, ao trabalho. Nessa semana mesmo, um carro, cheio de homens, ficou trancando o trânsito, dirigindo na mesma velocidade em que eu caminhava, pra me seguir, mandando beijos e otras cositas más.

Há umas semanas um carro, novamente, só de homens, parou no sinaleiro – aberto – para que eu “desfilasse” na frente deles (e ouvindo coisas tipo aquelas ali de cima). Lembro-me também de uma cena, quando eu tinha uns 10 anos (!!!), da minha mãe correndo atrás de um homem por ele ter falado obscenidades pra mim. Esses foram alguns, pouquíssimos, nem 1%, dos episódios que já passei, e tenho certeza que todas as mulheres já passaram também, e até pior.

Homens, amigos, colegas, vocês não entendem o quanto isso é desconfortável. Vocês não sabem o quão sufocante é sentir-se presa, perseguida nas ruas. Vocês não entendem que isso é o início da cultura do estupro. Temos o costume de apequenar o problema, enxergando somente a ponta dele, e nos esquecemos de perguntar o porquê disso acontecer.

A mulher foi estuprada e não querem nem entender o motivo. E o motivo disso estar acontecendo com frequência. Tenho certeza de que vários colegas meus estão achando um exagero tanta gente falando sobre isso. Que essa corrente feminista já tá enchendo o saco.

Digo por mim, às vezes fico irritada também com alguns excessos sociais. Me vejo machista em algumas situações, mas 30 homens estuprando uma mulher, é sério mesmo? Observem, estes humanos antes da tragédia eram homens, amigos, colegas de trabalho. Não estupradores, até onde sabemos. Estes homens, agora estupradores, foram educados por outros homens a replicarem aquelas frases lá do início do texto. Algo que começou na inocência, e que perdeu o limite e o senso de moral.

MULHER É OBJETO.

Infelizmente, é isso que somos. Vocês, homens, não percebem que fazem isso com a gente quando falam das novinhas nas festas. Quando falam aos amigos que essa ou aquela é moleza de “ir pro fight”. Quando compartilham fotos, vídeos.

Mas engraçado que essas não prestam, né? Pra namorar tem que ser aquelas meninas bem certinhas. Só não percebem que elas também são alvo dessa imundície toda. Nós, mulheres, não percebemos que permitimos essas barbaridades por conta da cultura já inserida há muito também em nós.

Por isso, meus amigos homens, vocês podem não ser estupradores, mas contribuem para tal. Não ignorem esse movimento das mulheres. Não é sobre feminismo, que já se tornou uma palavra pejorativa, infelizmente. É sobre direito, ética e respeito.

*Este texto escrevi em 2016, quando uma menina foi violentada por 30 homens.

Bruna Paul

Aquariana com ascendente em sagitário e lua em escorpião. Gosta de acreditar naquilo que não é tangível pra dar mais graça à vida. Bipolar que enxerga a tristeza como aliada à busca e evolução espirituais. Paixão por viagens, gatos, tattoos. Ama a humanidade – embora nem sempre as pessoas



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