O médico e a verdade

Foto | Andras Kovacs

Depois de uma temporada afastada, voltei a lecionar. Por conta disso, tive que fazer um exame admissional. Em uma tarde qualquer, entro no consultório de medicina do trabalho. O médico, um homem branco de meia idade. Penso em como serão os minutos seguintes em sua companhia. Sua postura é daquele que tudo viu, tudo sabe. Ai…

“Professora?” ele pergunta. Respondo que sim. Sem pedir licença, ele levanta o lenço que cobre meu pescoço e examina meu peito com o estetoscópio. Depois de verificar minha pressão, é hora de medir minha altura. Ao parar na minha frente, ele pergunta minha idade. “Por que isso é importante?”, penso. “Como você tem cabelo branco!”, diz ele. Eu, quieta. “Deve ser de família”, ele conclui. 

Alguns minutos depois, ele quer saber se eu tenho filhos. Novamente me questiono sobre o porquê da pergunta. “Parto a-normal ou cesárea?” emenda. “Ai meu Deus, não creio que vou entrar nessa conversa com esse cara”. “Natural”, respondo. “Ah, muito bem” diz ele. “Mas você não inventou essa baboseira de parto em casa né?”. Sem me dar tempo de responder, ele conta que “quase perdeu a nora num parto desses”. 

No fim da consulta, mais um clássico: “Você faz outra coisa além de ser professora?”, pergunta comumente substituída mundo afora por “você trabalha além de dar aulas?”, como se a docência não fosse um trabalho. 

Seria cômico se não fosse trágico. Agora vamos olhar por outro ângulo o que presenciei naquele consultório médico: um homem que nunca me viu na vida se sente no direito de fazer perguntas absolutamente desnecessárias, invasivas e se acha no direito de dizer como eu devo me comportar. Em outras palavras, machismo em sua forma mais pura.

Em primeiro lugar, seu doutor, a gente não toca no corpo das pessoas sem pedir licença. Especialmente quando se trata de um homem examinando uma mulher em uma consulta médica, quando existe uma relação de poder envolvida. 

Em segundo lugar, não cabe a você julgar a quantidade de cabelos brancos que eu tenho. Talvez você não esteja acostumado a ver mulheres na faixa dos 30 anos com cabelos brancos não porque nós não temos, mas porque estamos ocupadas em escondê-los para cumprir com o padrão de juventude que nos é imposto desde pequenas (nada contra quem pinta, eu apenas optei por não fazê-lo). 

Quanto ao parto, obrigada, mas eu rejeito qualquer “elogio” por ter parido naturalmente. Isso não faz de mim uma mãe melhor. E sobre “essa baboseira de parto em casa”, bem, talvez por ser homem você não saiba o que é violência obstétrica, que é quando mulheres em trabalho de parto têm seus direitos violados e são desrespeitadas. Essa é uma das principais razões para este movimento de voltar a parir em casa como nossas avós. Meu parto ocorreu em um hospital, mas seu eu tivesse outro filho, ele certamente nasceria no conforto da minha casa. 

Ah, e sobre minha ocupação ser um não trabalho pra você, eu gostaria de te lembrar que são nos bancos das escolas e faculdades que normalmente a gente aprende a respeitar o espaço do outro, a não dar opiniões não solicitadas e, se você fosse meu aluno, eu te ensinaria o que é síndrome dos “homens que explicam tudo pra mim”. 

Não falei nada disso pra ele, embora tenha tido muita vontade. O que fiz foi sair correndo daquela sala e tocar minha vida, na esperança de nunca mais cruzar com aquele cidadão.

Nicole Spohr

Fundadora e editora do FF, mãe do Guto e pesquisadora. Andou meio mundo pra fazer uma tese de doutorado que valesse a pena, mas foi a maternidade que virou sua vida de cabeça pra baixo. Entendeu que mulheres, juntas, têm muita força. E que podem transformar o mundo. Acredita que vale a pena batalhar por crianças feministas e por direitos humanos.



Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.