As crianças e a cidade

Foto | Anna Kolosyuk

Quem tem crianças, sabe: resolver as coisas do dia a dia ou passear em lugares públicos com elas pode ser muito desafiador. Quem tem um filho pimentinha como o meu que adora explorar tudo e correr pra longe da mamãe, passa alguns sufocos. Mas não é só isso: a “rua” ainda é um lugar inóspito para as crianças.

Não estou dizendo que todos os restaurantes do mundo deveriam ter um espaço kids (embora que mundo maravilhoso e acolhedor seria esse, não?). Tolerar crianças, hoje em dia, já é algo digno de nota. Estou falando de não olhar com cara feia quando a criança derruba alguma coisa (é, crianças fazem isso). É trazer uma folha de papel e giz de cera na mesa enquanto a comida não vem. É ter um trocador à disposição. É olhar com simpatia quando se chega com um bebê no colo. É oferecer ajuda. Qual é o custo desse tipo de coisa?

Dia desses fui com meu filho de quase 3 anos, num chaveiro. Ele ficava em uma rua super movimentada e não tínhamos muito o que fazer enquanto o homem programava os controles de portão que eu havia solicitado. Inventei tudo o que pude com o balão que Guto havia ganhado do vendedor de uma loja minutos antes (viva a decoração da Copa!). Quando não aguentei mais correr atrás dele, o coloquei sentado sobre o balcão. Ao brincar com um dos controles, esse caiu no chão. O chaveiro ficou irado. Esbravejou e me falou um monte de coisas pouco amigáveis. Vai ver foi por isso que me cobrou mais do que havíamos combinado previamente.

Colocar filhos e filhas no mundo muda as pessoas. Inclusive a carreira delas. Quantas histórias bacanas a gente vê por aí de homens e mulheres que perceberam demandas que antes nem existiam e passaram a vender fraldas ecológicas ou abriram espaços de lazer/cultura/trabalho que acomodam crianças? É um movimento lindo de se ver.

Mas será que é só virando pai ou mãe é que as pessoas passam a ter essa consciência? Não tem outro jeito de termos empatia com o outro a não ser passando pela situação? 

Em Londres, onde morei por algum tempo, lembro de pirar com o acolhimento que certos lugares ofereciam aos pequenos. A maioria dos museus tinha uma seção para as crianças interagirem, muitas lojas acomodavam um espaço kids em algum canto e conheci até os “family pubs”, bares que recebem pais e mães com suas crianças em determinados dias ou horários. Lá, pouquíssima gente tem babá ou alguém com quem deixar as crianças, fora a escola. Então pra onde se vá, elas vão junto. E os lugares públicos simplesmente precisam responder a essa demanda.  

Crianças são pequenos cidadãos em formação e não “projetos de gente” ou “meias” pessoas. Ao nos referirmos a eles desta maneira, lhes roubamos a humanidade. Sim, porque crianças são seres humanos inteiros.

E meu filho não é só responsabilidade minha e do meu marido. De um certo modo, ele é de todos nós, de toda a sociedade. Porque se você aí que decidiu não ter filhos ou já criou os seus acha que não tem obrigação de aceitar e respeitar outras crianças, não esqueça que talvez o meu filho pague a sua aposentadoria e cuide de você quando você envelhecer. 

Respeito tem a ver com poder circular pela cidade. E quando as crianças não são bem vindas em certo hotel ou restaurante, elas estão sendo cerceadas. E, consequentemente, seus pais e mães, especialmente suas mães, geralmente as principais cuidadoras. Ah, mas elas fazem muito barulho e incomodam – alguém pode argumentar. Pode até ser. Mas adultos também fazem barulho e incomodam – e isso é lá razão suficiente pra proibir sua entrada em algum lugar? Troque o “proibido crianças” por “proibido idosos” (ambos envolvem discriminação por idade) ou “proibido negros”. Como isso soa agora? Inaceitável, certo? Então bora construir uma sociedade mais inclusiva!

Nicole Spohr

Mulher, feminista, cientista social, educadora, escritora e podcaster. Profundamente transformada pela experiência da maternidade e igualmente inconformada com o papel destinado às mulheres na sociedade, fundou a plataforma online Fala Frida, que encoraja mulheres a se expressarem por meio da escrita. Escreve contos infantis e ensaios críticos sobre a condição feminina, facilita grupos de leitura sobre sagrado feminino e ministra cursos e palestras sobre feminismo. Cientista social de formação, pesquisou direitos humanos na periferia global durante o doutorado e hoje atua como professora universitária, ensinando sobre igualdade de gênero, ética e responsabilidade social. Ao longo de sua jornada, entendeu que seu propósito é trabalhar por, para e com outras mulheres na construção de um mundo melhor para todos.



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