Patriarcado às avessas

Foto | Rawpixel

Imagine um mundo em que as mulheres ocupam as principais posições de poder e abrem a porta do carro para os homens. Um mundo em que os homens cuidam das crianças e realizam o trabalho doméstico. As mulheres assediam os homens a todo instante: falam de sua aparência e elogiam sua roupa, deixando-os desconfortáveis. Existem calças “push-up” para levantar as partes íntimas masculinas e torná-los mais “sexy” aos olhos femininos. Os outdoors e anúncios espalhados pela cidade mostram, invariavelmente, corpos masculinos quase nus em posições convidativas. 

Ainda nesse mundo, os homens que não depilam peito e virilha são considerados sujos e pouco atraentes. São as mulheres que fazem xixi de pé e que trocam o pneu furado do carro. As pessoas pressionam os homens o tempo todo para casar e formar uma família. Já as mulheres, por serem consideradas o sexo forte, geram e colocam os bebês no mundo. Mas quem os cuida são os pais. 

E quanto àqueles que ousam questionar a norma vigente? São super malvistos, chamados de “masculistas” e constantemente considerados “porcos” ou “mal comidos”. Quem ousou imaginar este patriarcado às avessas, com as mulheres no poder, foi Eleonore Pourriat, diretora e roteirista do longa francês Eu não sou um homem fácil.

Não espere um roteiro maravilhoso ou sem clichês. Pra mim, o filme merece ser visto pelo pano de fundo que apresenta. São as cenas simples, cotidianas, ou que está lá no fundo da tela, como uma mulher que passa correndo sem camisa pela rua, que mais eu mais curti. Porque estamos tão acostumadas ao patriarcado que ele desaparece das nossas vistas. E esse é precisamente é o perigo, pois paramos de questioná-lo.   

Eu gargalhava assistindo ao filme. Mas era um riso nervoso. Porque é só vendo um homem chorar de dor ao ser depilado com cera quente que entendemos o absurdo que é qualquer ser humano se submeter a uma sessão de tortura como essa. E pra que mesmo?

A grande sacada do filme é trocar os papéis. Porque inverter os termos da conversa é muito poderoso (já falamos sobre isso aqui no Fala Frida) e abre possibilidades para a mudança. 

Assista aqui ao trailer do filme, que está disponível no Netflix.

 

Nicole Spohr

Fundadora e editora do FF, mãe do Guto e pesquisadora. Andou meio mundo pra fazer uma tese de doutorado que valesse a pena, mas foi a maternidade que virou sua vida de cabeça pra baixo. Entendeu que mulheres, juntas, têm muita força. E que podem transformar o mundo. Acredita que vale a pena batalhar por crianças feministas e por direitos humanos.



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