Mal estar e mansplaining em sala de aula

Foto | Rodrigo Concha

Não é fácil, não é “simplinho” o que escreverei aqui e sei que muitas de nós, mulheres, recorrentemente vivenciamos em nosso cotidiano tais situações. Vamos lá!

O caso

Sou professora, estou em sala com outro professor e explico conteúdo ‘x’ aos alunos. O professor me contraria na frente deles, sigo falando. O professor sai da sala e começa a bufar no corredor, todos percebem o desconforto. Sou novata, estou insegura, nunca lecionei o conteúdo e o professor em questão tem décadas de casa.

Me calo, deixo que ele retome a aula e siga explicando do jeito dele, me sinto constrangida, “será que fiz algo errado”? Durante o semestre me silencio cada vez mais, minhas ideias – quando as consigo falar – são excluídas ou então repetidas como se fossem dele.

Durante o processo, acho que a culpa é minha, que sou uma fraude, mesmo tendo uma formação mais elevada. “Mas como posso competir com o discurso de um homem do mercado?” Alunas mulheres (que este professor se referia como “grupo das sapatas”) começam a trocar mensagens no whatsapp com outros colegas e dizem que o professor está fazendo mansplaining* comigo. Todos têm medo do professor, inclusive eu. Professor me chama para um café e me conta das conversas, faz uma mea culpa pois, creio eu, tem receio que a circunstância possa ser levada para a coordenação ou ouvidoria da instituição. Diz que se sente sobrecarregado, que precisa da minha participação em sala de aula. “Mas como, se ele não deixa?” Peço reunião particular com a coordenadora. “Não quero mais trabalhar com esse homem”! Ouço a resposta que é uma situação complicada. Nada acontece, nada muda. 

 Reflexões um ano depois 

Por razões que fogem do meu controle, não precisei mais lecionar ao lado do professor mansplaining. Ele está deletado das minhas redes sociais e, thank God, nunca mais tive notícias de sua pessoa. Mas as marcas ficam, estão lá, na ansiedade e mal estar que sinto ao lembrar o inferno que era trabalhar ao lado dele. Penso que deveria ter agido diferente, mostrado mais segurança, domínio, atitude. O tempo todo nos passam a mensagem que somos seres autônomos e livres e que a possibilidade de mudança está dentro de nós, mas não é bem assim. 

Tenho buscado compreender aquilo que pesquisadores chamam de structural sexism (machismo estrutural), que possui em sua definição os modos como a organização de uma sociedade, e mais especificamente suas instituições, subordinam indivíduos e grupos baseados em sua classificação de gênero. Através dessa abordagem é possível compreender que as diferenças entre homens e mulheres começam desde o acesso às escolas, tempo de estudos, entrada no mercado de trabalho, salários, expectativas de profissões e papéis, etc. Lendo sobre o assunto, aprendi que a naturalização de comportamentos machistas e de outras práticas discriminatórias podem ser compreendidas em princípios antigos da filosofia.

Em entrevista, Márcia Tiburi esclarece que essas práticas “orientam o pensamento em geral, nosso modo de ver o mundo, a moral, a sensibilidade, a ação. É o princípio pelo qual eu detenho a verdade e o outro não. Por esse princípio, não é preciso abrir espaço para o outro. Na filosofia, chamamos de princípio de identidade. Ele aniquila o outro, ou constrói o outro para aniquilá-lo”.

Ou seja, se retorno para o episódio que relatei acima, percebo que a resposta não está em “preciso mostrar domínio”, mas “preciso compreender que existe um machismo estrutural que naturaliza certas práticas, inclusive faz eu pensar que a resposta é que deveria mostrar domínio, porém um caminho mais verdadeiro seria que ambos, homens e mulheres, refletissem juntos porque a voz de um tem mais peso que a voz do outro”.

Só o fato de realizar o exercício de relatar o ocorrido, refletindo, já me ajudou bastante. Que esse exercício se espalhe, para que todas sintam que não são culpadas de nada. 

*Quando um homem dedica seu tempo para explicar algo óbvio a uma mulher, de forma didática, como se ela não fosse capaz de entender. O termo é uma junção de “man” (homem) e “explaining” (explicar). Em atos de mansplaining, um homem acha que sabe mais sobre um tópico do que uma mulher.

Frida anônina é uma mulher comum como eu e você que decidiu abrir seu coração e contar alguma coisa importante que viveu.



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