Sorrisos e sobremesas

Foto | Nancy Newton

Desde que o meu pai faleceu, há quase vinte anos, eu fiz muita força pra manter a família unida.

Minha mãe foi saindo de cena e por essa e outras razões, eu fui ocupando um espaço que nem sei se era meu.

Assim seguiram-se natais, páscoas, dias dos pais, das mães, festas de despedidas e boas vindas e até um casamento. A minha casa foi recebendo a família, os amigos da família, os amigos dos amigos…

Eu ficava cansada, mas também, ficava feliz porque estava sempre rodeada de gente.

Isso mudou. A mudança iniciou quando eu me mudei. E essa foi umas das razões que me fez sentir só.

Comecei a me sentir assim, uns três meses depois de ter trazido minha mãe pra cá. Quando a gente perde um familiar numa doença longa, sofre vários pequenos lutos, tenho experiência no assunto. E essa não é exatamente uma razão pra se gabar. Um dia vou escrever sobre isso.

Passei por um pequeno luto,  era como se a minha mãe já tivesse morrido. Ia visitá-la mais vezes e continuava com saudades. E quem já perdeu alguém, sabe como é: os defeitos da minha mãe sumiram e a minha culpa cresceu na mesma proporção. Parecia que ela tinha desaparecido pros outros, também, o que confirmava a minha condição de órfã. E eu ficava furiosa com o mundo! E ficava triste e ficava com saudades e ficava furiosa, de novo. Santa Cris, que me acolheu, me ouviu e me consolou.

A minha irmã foi embora duas vezes naquele ano. Na primeira vez, eu tava com tanto medo de ficar mal, que viajei no dia seguinte. Fiquei bem, fugi do luto. Ufa!

Ocorre que, como sempre acontece quando a gente não vive o luto, ele voltou. Quando ela veio e foi embora a segunda vez, era definitivo. Era assim que ia ser. Eu ia ver o Thomas crescer de longe, falar com ela pelo telefone, pelo Skype e vê-los quando fosse possível. Sem nenhuma perspectiva pro próximo ano. Então eu fiquei mal, muito mal. Mais uma vez, a Cris abriu os braços pra mim.

Aí  chegou o maldito dezembro e todas as suas comemorações. E ninguém pode ficar triste, sem graves acusações  de ser dramático demais, sofredor demais, chato demais, estraga prazeres demais. Todo mundo precisa estar feliz em todos os ambientes, inclusive e muito especialmente, nos virtuais. E eu fiz o que esperavam de mim, liguei no automático e mandei ver. Sorrisos e sobremesas.

Meu irmão e minha cunhada foram super carinhosos, receptivos, queridos. O Natal na minha sogra, como sempre, foi super animado. Todavia uma única frase da minha irmã, ao telefone na manhã seguinte, foi suficiente pra me fazer chorar  por duas horas.

Chorar de raiva, de solidão, de tristeza e de saudades. Saudades do meu pai, da minha mãe, da minha casa, da minha irmã, da minha família, dos muitos natais. Chorei pelos meus pequenos e grandes lutos.

Um ciclo se encerrou. Não  foi exatamente a minha ficha que caiu. Foi uma moeda gigante, lançada do espaço sideral, que atravessou a estratosfera e caiu em cima da minha cabeça. Me derrubou.

É o que acontece quando as pessoas morrem, se separam, se mudam, ou, simplesmente, mudam. Muitos de vocês, queridos leitores, já passaram por situações bem parecidas. A boa notícia é que a gente sobrevive.

Se é ruim? Na hora é. Mas pode ser bom um dia. Pode ser diferente. Pode ser melhor.

Esse post é pra Cris, que de algum canto desse mundo me lê. Que também perdeu alguém que amava muito. Que já caiu e levantou. E que está tentando um jeito diferente de fazer as coisas.

Reclamar da solidão, quando se tem uma Cris por perto é ser mesmo, muito dramática!!!!

Beijo pra vocês!!

Gabriela Sperb

Mãe e filha, mente inquieta. Mestre em direito do trabalho, já foi professora e advogada. Desde 2013, é a feliz proprietária do Um Blog Sobre o Tempo e atualmente trabalha como empresária.



Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.