Precisamos questionar o machismo da linguagem

Foto | Alexis Brown

Que vivemos em uma sociedade patriarcal, não é novidade pra ninguém. E que isso afeta negativamente a vida de metade da população mundial, também. O que é mais difícil de enxergar é que o machismo está nas instituições, na linguagem, nas entrelinhas. A culpa não é da língua em si, mas sim do uso que fazemos dela, de acordo com o Manual para uso não sexista da linguagem do Governo do Estado do Rio Grande do Sul. A língua é o reflexo dos nossos valores, da nossa visão de mundo. Por isso é tão importante refletirmos sobre o que falamos para as crianças. Pra começar, que tal espiarmos os verbetes homem e mulher do Dicionário Aurélio?


Homem 

1. Qualquer indivíduo pertencente à espécie animal que apresenta o maior grau de complexidade na escala evolutiva; o ser humano. 2. A espécie humana; a humanidade. 3. O ser humano, com sua dualidade de corpo e de espírito, e as virtudes e fraquezas decorrentes desse estado; mortal: 4. Ser humano do sexo masculino; varão. 5. Esse mesmo ser humano na idade adulta; homem-feito. 6. Restr. Adolescente que atingiu a virilidade. 7. Homem (4) dotado das chamadas qualidades viris, como coragem, força, vigor sexual, etc.; macho. 

Mulher 

1. O ser humano do sexo feminino. 2. Esse mesmo ser humano considerado como parcela da humanidade. 3. A mulher (1) na idade adulta. 4. Restr. Adolescente do sexo feminino que atingiu a puberdade; moça. 5. Mulher (1) dotada das chamadas qualidades e sentimentos femininos (carinho, compreensão, dedicação ao lar e à família, intuição). 6. A mulher (1) considerada como parceira sexual do homem. 7. Cônjuge do sexo feminino; a mulher (1) em relação ao marido; esposa. 8. Amante, companheira, concubina.


 

A partir da leitura, rapidamente percebemos que a mulher é o outro do homem:

A mulher é o ser que não é homem.  Ou seja, é uma criatura que existe em relação ao homem.

A mulher é “parceira sexual, cônjuge, esposa, amante, companheira, concubina”. De quem? Do homem, claro. Só a título de comparação: por acaso o Aurélio considera que o homem é “parceiro sexual, cônjuge, esposo, amante, companheiro, concubino” da mulher? Não! Talvez porque ele “apresent[e] o maior grau de complexidade na escala evolutiva” (ao contrário da mulher né?). Enquanto o homem é simplesmente “o ser humano”, a mulher “é o ser humano do sexo feminino”.

Notem também que as expectativas de gênero estão muito presentes nas definições acima. Considera-se homem aquele “dotado das chamadas qualidades viris, como coragem, força, vigor sexual”. Já a mulher é aquele ser que possui qualidades e sentimentos femininos como “carinho, compreensão, dedicação ao lar e à família, intuição”. Mas e a criatura do sexo masculino compreensiva e dedicada ao lar é o que então, seu Aurélio? E quanto ao ser do sexo feminino que é forte e corajoso? Seriam aberrações da natureza?

Uma leitura que me marcou muito recentemente foi o livro Diferentes, não desiguais. Logo na introdução, os autores e autoras questionam o uso da “forma masculina como sinônimo do que é ‘neutro’ ou ‘universal’”. Se você ainda acha que “o homem” é sinônimo de ser humano ou da humanidade, não se iluda: quando alguém fala sobre “os homens”, não dá pra saber se de fato as mulheres estão incluídas. E isso contribui para a desigualdade. A proposta dos autores e autoras é que, ao invés de falar “os alunos” ou “os professores”, são preferíveis termos como “os alunos e as alunas” e “as professoras e os professores”.

Você pode pensar que dá muito mais trabalho fazer isso. Concordo. Mas mudar o mundo dá trabalho mesmo. 

O que chamamos de uso sexista da linguagem ocorre não só nas conversas informais como também nos documentos oficiais. As leis também refletem essa hierarquia entre homens e mulheres. Maria Berenice Dias, advogada especializada em Direito da Família, destaca que a mulher só conquistou a condição de cidadã no Brasil em 1932, quando passou a votar. Porém, foi somente em 1962, com o Estatuto da Mulher Casada, que sua vontade passou a não depender mais da autorização do marido. Isso significa que, até então, ao se casar, a mulher perdia sua plena capacidade perante ao Estado. Outro exemplo do machismo nas leis é que o estupro marital só foi reconhecido como crime no Brasil a partir de 2009 (Lei 10.015). No resto do mundo, apenas 52 países o consideram crime. Isso reflete uma visão de que os maridos têm direito aos corpos de suas esposas, independente da vontade delas. Vale lembrar que sexo sem consentimento é estupro, independente do fato de a vítima ser casada com o agressor. 

Bora começar a revolução mudando o jeito que a gente fala?

Nicole Spohr

Fundadora e editora do FF, mãe do Guto e pesquisadora. Andou meio mundo pra fazer uma tese de doutorado que valesse a pena, mas foi a maternidade que virou sua vida de cabeça pra baixo. Entendeu que mulheres, juntas, têm muita força. E que podem transformar o mundo. Acredita que vale a pena batalhar por crianças feministas e por direitos humanos.



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