Mãe, que saudades eu tenho de ti

foto | Marina Papaspirou

Oi mãezinha, que saudades eu tenho de ti!!

Houve um tempo, em que pensei que nunca ia me sentir assim. Já nem lembro mais quando as coisas começaram a ficar complicadas.

Depois de um infância cheia de liberdade, responsabilidade, algum afeto e muitas aventuras, vieram os anos difíceis da adolescência. Um pai que era, ao mesmo tempo, mediador e objeto de disputa. Nós duas discordando a respeito de quase tudo. A leonina dominadora e a aquariana rebelde.  Que dupla, hein?

Foi nessa época que eu comecei a nadar desesperadamente para me afastar de ti e, acho, tu ficou perdida, sem saber se me resgatava ou me deixava ir.  E eu fui, sustentando todas as coisas que tu tinhas me ensinado sobre ser adulta, ser independente, ganhar dinheiro e conquistar o respeito das pessoas.

Só que eu era jovem e confundi tudo. Achei que pra chegar nesse lugar, eu precisava ficar muito diferente de ti e do pai. Pra ter sucesso eu precisava me afastar desse modelo de gente esquisita, de pais não tão convencionais, da mãe excêntrica, do pai aventureiro, dessa gente diferente, festeira, alegre e receptiva que vocês eram. Quis ser o mais convencional, o mais bege, o mais careta possível. 

E eu teria me afastado mais, se o pai não tivesse morrido e se tu não tivesses adoecido, mas a vida me trouxe de volta, me jogou no meio do furacão. Nossa relação de mãe e filha virou de cabeça para baixo e, na maior parte da minha vida adulta, eu fui mais tua mãe do que tua filha e, não te perdoei por isso. 

Eu podia te perdoar pela infância diferente, pela liberdade que, às vezes, pareceu abandono, mas eu não queria te desculpar por te me deixado sozinha na vida adulta. E como uma criança, eu esperneie e resisti. Queria uma mãe que me ajudasse, não que precisasse ser ajudada. Queria os cuidados e o afeto!

E no meio da minha agonia não consegui ver as tuas dificuldades, não valorizei teus esforços, não enxerguei a tua doença, com a clareza que devia. Demorou tanto pra te perdoar que eu te perdi e, aí, foi difícil me perdoar!

Primeiro passei um longo tempo achando que não tinha sido amorosa o suficiente, achava que o meu senso de responsabilidade tinha me impedido de te abandonar, sem entender que foi o amor que me fez ficar. 

Enquanto as crianças eram pequenas e trabalhava como maluca, eu corria. Como eu corria! Pra resolver o problema do teu condomínio, achar o teu carro, te levar ao médico, comprar presente, te inscrever no 59º curso, porque tu precisas interagir, procurar os teus exames, ir ao banco, arrumar teu armário, achar alguém que me ajudasse a cuidar de ti, te levar para cortar o cabelo, cuidar de quem cuidava de ti, te resgatar de alguma confusão, te levar pra viajar. Foi bem difícil, mãe. Mas não era obrigação, era amor! 

Depois veio a culpa pela cegueira e incompreensão.  Onde estavam a empatia e a solidariedade que eu tinha aprendido, desde sempre, contigo? Por que eu demorei tanto pra entender o que estava acontecendo? E mesmo percebendo, por que continuei sendo tão dura? Porque eu sou humana, cheia de defeitos e queria ser filha! Fui me perdoando aos poucos.

Nunca tive dúvidas do teu perdão. Tu sempre me perdoou, tu perdoavas todo mundo. Esquecia, seguia em frente, nunca guardava rancor.

Quando eu, finalmente, consegui fazer as pazes contigo e comigo, tu floresceu pra mim! A tua humanidade me arrebatou e a saudade chegou com força.

Que mulher bacana tu eras, uma força da natureza, feminista, “prafrentex”, pra usar uma expressão bem tua. Que avó mais fofa e divertida tu fostes no pouco tempo que tivestes com os meus filhos. Que generosa, disposta e alegre, que criatura do bem!

Preciso te dizer que sou tua fã, tenho orgulho quando reconheço em mim, um traço teu. 

Por tua causa, sou a melhor pessoa que consigo ser. Lembro, mil vezes, de tu me ensinando que amar as pessoas é a coisa mais importante que existe e, repetindo até a exaustão, que a gente nunca pode ser indiferente ao sofrimento do outro. 

Faço muitas coisas que tu fazias e que, na época, me pareciam maluquices. Entendi que a autenticidade é a maior qualidade de um ser humano. Me tornei uma mulher diferente também, porque ser do meu jeito é o único jeito possível, foi tu que mostrou que vale ser assim.

Não podia deixar de te contar isso, mãe. Tô com saudades! Hoje eu fiz uma trança no teu cabelo, gostei de ver os fios brancos misturados aos castanhos, pensando que logo serão os meus que estarão assim, te enchi de beijos, levei um doce, fiz massagem, te abracei apertado. Mas tu não estavas ali, por isso a saudades que não tem fim.

Que bom que a gente fez as pazes.

Frida anônina é uma mulher comum como eu e você que decidiu abrir seu coração e contar alguma coisa importante que viveu.



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