Desculpa, mãe

foto | Marina Papaspirou

Oi mãe,

Espero que esta carta encontre você num dia tranquilo, muito embora eu imagine que é difícil isso acontecer com uma mãe de cinco filhos e mãe-avó de uma filha-neta. 

Por algum motivo, escrever é mais fácil que falar. E lá vai textão!

Escrevo porque preciso me desculpar. Preciso me desculpar por ter te culpado. Preciso me desculpar por ter feito o que todo mundo faz com toda e qualquer mãe o tempo todo: julga e culpa. Está na hora de nos desculparmos, de tirarmos esse peso uma da outra. Ninguém vai nos ajudar, se nós mães não nos ajudarmos. Ninguém! Ninguém vê! Ninguém que não seja mãe, sente! Penso.

Já te julguei por ter tido tantos filhos, sem que os desejasse de fato e te julguei mais ainda por ter revelado isso. Até que entendi que vivemos em uma sociedade patriarcal e a sua voz não foi ouvida. Você queria dois filhos, talvez nenhum; meu pai, queria muitos. Hoje te acho corajosa, porque dizer que não nos desejou não faz você nos amar menos, só é uma verdade que você teve coragem de dizer. Hoje tenho certeza que é uma verdade que muita gente não revela.

Hoje entendo que o trabalho de uma mãe é duro demais e, se você não pôde escolher entre ser ou não ser mãe, ele se tornou insuportável… E se você tem, ao mesmo tempo, duas adolescentes e três bebês em casa, exclusivamente sob seus cuidados (já que pai tem sido historicamente item decorativo nessas questões), esse trabalho é insano. 

Já te julguei por me fazer cuidar dos meus irmãos, quando ainda era uma criança. Criança não trabalha! Criança cuidando de criança? Um absurdo! Eu dizia… Até que entendi: eu e minha irmã éramos as mais velhas e éramos mulheres. Com quem mais você poderia contar? Entendi você e não o resto do universo, nesse ponto…

Já te julguei por não ser presente na minha vida, por não acompanhar minha adolescência, por não me ajudar com os perrengues dessa fase.  Até que me dei conta que você estava lá o tempo todo, você e ninguém mais. Tenho certeza que fez o que pode. O que deu… 

Já te julguei quando escolhi fazer um parto normal e você não me apoiou. Até que você me contou que havia sofrido violência obstétrica quando eu nasci. Depois disso, encarou mais dois partos e duas cesáreas. Que força!

Já te julguei quando você me desencorajou a amamentar, dizendo que a fórmula era mais prática.  Até que comecei a amamentar – com ajuda do meu parceiro e de uma consultora de amamentação – e vi que, realmente, é uma das tarefas mais difíceis da maternidade, da vida. Então entendi que, no seu lugar, sem ajuda nenhuma, eu também não encorajaria ninguém.

Mais de uma vez, você disse que quando eu fosse mãe te entenderia. Acho que isso aconteceu.

Hoje sei que a maternidade é o mais insano dos trabalhos porque em vez de oferecer ajuda, as pessoas julgam, em vez de dividir as tarefas, muitas vezes o marido é mais uma delas. É insano porque não há intervalos para refeições, por longos períodos nem intervalo pra dormir há, não dá pra ir embora e voltar no dia seguinte, não há férias, não há remuneração, não dá pra pedir demissão. Não há reconhecimento. É invisível! E trabalhando nesse ritmo, ainda querem que você seja um céu de ternura, aconchego e calor, como diz aquela música. Ah, e querem você linda também! É insano.

Se já te culpei tanto, hoje quem pede desculpas sou eu. Desculpa, mãe?  Peço desculpas porque não quero mais essa culpa pra mim, nem pra você. Peço desculpas porque um dia minha filha vai olhar pra minha trajetória, vai olhar pra dela e vai olhar pra sua. Não quero culpa, não quero essa culpa pra mim, nem pra ela, nem pra você. Que em vez de julgamentos e culpas, tenhamos mais empatia e sororidade. Desejo que minha filha julgue menos e que não demore, tanto quanto eu demorei, pra ter conversas como essa com a mãe dela.

Se já te culpei tanto, hoje quem pede desculpas sou eu porque te amo. Te amo pela força que tens. Por ter sido de alguma forma e apesar de tudo, a primeira feminista que eu conheci. Talvez você não saiba, mas foi. Você sempre me ensinou a buscar minha independência, ensinou que eu poderia ser o que eu quisesse ser. Gratidão!

Hoje entendo que o trabalho de uma mãe é duro demais, é por vezes insuportável, é insano. O remédio para essa loucura toda? Amor e empatia. Acredito.

Frida anônina é uma mulher comum como eu e você que decidiu abrir seu coração e contar alguma coisa importante que viveu.



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