O coletivo feminino

Foto | Bruna Tiussu

Em 2017, precisei me reinventar. A rotina já não me satisfazia e o mundo lá fora me chamava. No dia 10 de julho, entrei num avião rumo à África, para uma jornada de oito meses de trabalho voluntário. Levei comigo toda a expectativa de uma experiência transformadora. E os estereótipos que compartilhamos sobre esse lugar tão distante — física e intelectualmente. Porque eles são meio inerentes, é difícil deixá-los para trás.

Ao trabalhar em três países distintos, Gana, Uganda e Tanzânia, e visitar outros oito, posso dizer que encontrei mesmo muita coisa estereotipada: infraestrutura escassa, desigualdade social, machismo, entre outras. Mas também me surpreendi com um leque de características bastante desconhecidas sobre esse continente.

Uma delas — a mais forte delas, eu diria — diz respeito à bravura da mulher africana. Ouso dizer que são elas que movem suas nações, na luta diária pelo sustento de suas famílias. Cuidam da casa, carregam os filhos nas costas (literalmente), trabalham fora. 

Nos grandes mercados abertos das cidades, lá estão vendendo frutas, verduras, roupas, itens de higiene pessoal. Nas ruas, caminham entre os carros carregando nas cabeças bacias com estes e outros produtos, seja de dia, seja de noite. Nos vilarejos da zona rural, também comercializam as mercadorias que encontram ou fabricam, e ainda dão conta do roçado.

A mulher africana é várias mulheres numa só. E o que a ajuda nesta árdua realidade é a consciência do coletivo feminino. 

Apesar de desconhecer o termo, ela pratica o seu significado. A Mirian vende bananas para você, mas recomenda as laranjas da Regina. A Juliana leva comida para a Mary, pois a viu chegando tarde da noite em casa. A Fatty dá bronca nos filhos da Helina da mesma forma que dá nos seus. A Mabena oferece carvão para a Inchyla porque hoje ela não tem, e amanhã pode ser o contrário.

Aprendi demais com estes pequenos, porém tão significativos feitos de coletividade. Os maiores ensinamentos que recebi durante todo meu período na África vieram dessas mulheres. Não tenho dúvidas. Sobretudo das mais simples, que não têm a teoria, só a prática. Ainda que não saibam explicar o motivo, elas entenderam há muito, muito tempo que não conseguem sair do lugar sozinhas. Elas sabem que a “nossa classe” precisa dar as mãos. No mundo real, no dia a dia, na vida que se contrói nos mais singelos atos.

Bruna Tiussu

Jornalista, acredita que a informação é o ponto de partida para alcançarmos um mundo mais igualitário. Apaixonada por viagens, tem a ambição de abraçar o mundo todo. Abraçar, pois sabe que o melhor de cada lugar são mesmo as pessoas.



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