Mulheres selvagens

Foto | Christopher Campbell

Estava dando a ré no meu carro quando uma mulher começou a bater no vidro:

Para, porra! Tu atropelou a minha mala.

Berrava, no estacionamento do colégio das crianças.

Desci em pânico, achei que tinha atropelado uma pessoa. Não. Era a mala mesmo, quase embaixo da roda traseira do meu carro. Me expliquem vocês como eu ia adivinhar que ela tinha “estacionado” a mala atrás do meu carro, para abrir o dela??

Pois a mulher estava fora de controle. Depois de gritar comigo, começou a chorar copiosamente, enquanto me contava todas as tragédias que haviam se abatido sobre ela, no último mês.

Na semana seguinte, estava na fila do supermercado, com umas três caixas de papelão, que havia conseguido a duras penas, quando uma senhora foi pegando uma delas e eu comecei a explicar que tinha demorado pra achar estas, que ia precisar, que estava me mudando, que se ela quisesse eu podia chamar o menino que empacotava…. não acabei de falar e a mulher já estava gritando:

Pode ficar com as tuas caixas. Fica com elas, sua egoísta!!

No fim do ano, fazendo compras no Sacolão, em Florianópolis, vejo um bolo de gente correndo pra fora, gritos de  excitação, era briga de mulher.

Na fila do caixa me contaram que duas mulheres haviam brigado por uma vaga no estacionamento. Na saída lá estava uma ruiva bonita, chorando, toda escabelada e cheia de arranhões. Logo chegou o namorado e um carro da polícia. Ainda pude ouvi-la tentando explicar o inexplicável, entre soluços e lágrimas.

Não vou engatar o papo fácil de que todas as mulheres são umas malucas.

Talvez até sejam. Mas cada um tem suas razões para ter um dia de fúria. E as mulheres, em particular, têm muitas.

Sou solidária. Fico pensando no tamanho do estresse de cada uma e no pior, a ressaca moral. Imagino essas criaturas, sentando na direção de seus carros, e pensando:

o que foi que eu fiz?

Eu entendo bem, porque já fiz dessas.

Nunca cheguei as vias de fato com ninguém, morro de medo. A certeza de que eu ia levar uma surra é o que me impede. Kkkkkk mentira! Violência física, decididamente, não é minha praia.

Num dia ruim, briguei com o motorista da van dos meus filhos e eles ficaram sem transporte. O que acabou sendo ótimo, mas na hora pareceu o fim do mundo. Outra vez, depois de bater boca com a vendedora, a caixa e a gerente, larguei uma calça no balcão da Zara e saí da loja, pisando firme. Fiquei uns seis meses sem voltar e quando a crise de abstinência se tornou insuportável, comprei uma capa e uma peruca loira pra entrar na loja disfarçada. Kkkkkkkk mentira!

Tenho uma amiga que foi obrigada a tirar o filho da aula de música, porque brigou com o financeiro e depois, descobriu que a culpa era dela. Outra que saiu do carro aos berros no meio de um posto de gasolina, brigando com a motorista de outro carro, que tinha interditado o trânsito para comprar um lanchinho, enquanto ela estava mega atrasada, sem gasolina e no limite da paciência.

Não é que eu, sendo maluca, só conheça gente desse tipo.

Conheço do outro, também. Gente que decide se separar da noite pro dia, em silêncio, sem ninguém saber, nem o marido. Gente que fica doente, se opera e só conta pra família, quando já está em casa. Gente que tem filho em segredo, vai para maternidade a pé e depois liga pro pai da criança. Tudo em silêncio, na mais adequada discrição.

Agora me digam vocês:

 não são estas mais malucas do que as outras?

Tem gente de todo tipo e alguns lidam muito bem com seus demônios, outros lidam muito mal. Incluo no último grupo as ruidosas brigonas e as sofredoras silenciosas.

O meu conselho era sempre o mesmo, num dia de estresse profundo não saia de casa pra não se meter em confusão. Mas ele não servia pras sofredoras silenciosas que, aparentemente, não reagem.

Lendo o Mulheres que correm com os lobos aprendi outro, mais útil, que divido com vocês.

Ao invés de ir jogando todo o lixo – tristeza, estresse, medo, raiva, frustração, cansaço – dentro de um quarto fechado, até o dia em que a porta escancara e sai tudo pra fora, de um jeito torto.

O melhor é a gente ir abrindo a porta aos poucos pra deixar as sombras saírem. O vento soprar e oxigenar o ambiente.

Parar antes de chegar no limite!

Expressar o que sente, dizer não, manifestar seus desejos e seus medos, viver seus lutos, chorar seus fracassos.

Sei bem como são corajosas essas mulheres.

Selvagens e saudáveis.

E o melhor: não vão pagar esse mico todo!

Beijo pra vocês.

Gabriela Sperb

Mãe e filha, mente inquieta. Mestre em direito do trabalho, já foi professora e advogada. Desde 2013, é a feliz proprietária do Um Blog Sobre o Tempo e atualmente trabalha como empresária.



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