Batalhas íntimas

Foto | Ryan Moreno

Batalhas íntimas. Guerras travadas no âmbito doméstico. Na casa da vizinha. Na nossa casa. Esse é o mote do documentário dirigido pela mexicana Lucía Gaja. Cinco histórias de cinco mulheres. Impossível não sair tocada (assista ao trailer – em espanhol – abaixo):

O amor não pode doer. 

Essa foi a fala de uma das vítimas de violência doméstica. A americana apanhou diversas vezes enquanto criança e cresceu acreditando que aquilo era normal. Foi abusada sexualmente pelo marido, inclusive na frente dos filhos. Foi espancada e ameaçada de morte.

Outra mulher, após o casamento, passou a ter todos os seus passos vigiados. Não podia sair de casa sem avisar o marido, deixou de fazer as coisas que gostava e era constantemente agredida psicologicamente. Ele dizia que ela era uma puta e que não prestava para nada.

Outra vítima, cansada de ser maltratada pelo marido, decide se divorciar. Ao separar a papelada, foi “descoberta”. Ele, um bombeiro, ateia fogo ao corpo dela. Resultado: 3 meses desacordada em um hospital e 38 cirurgias de reconstrução. Segundo os médicos, ao dar entrada no hospital com as queimaduras, das costelas ao seu pescoço, havia um “buraco”. Quanto ao marido, este teve uma pena leve, pois o ocorrido foi considerado um “acidente doméstico”.

Uma quarta vítima conta que não via saída para a situação de violência constante que ela e três filhos estavam submetidos. Então, naquele dia, ela disse que eles poderiam colocar a casa abaixo se quisessem. Abriu todas as saídas de gás, fechou as janelas e foi deitar-se para esperar a morte. Naquele momento, matar os três filhos e suicidar-se parecia mais leve do que a vida que estava levando ao lado do marido violento.

Como dar um fim à violência que sofrem? Tomar a decisão de afastar-se do agressor é muito, muito difícil. Sem uma rede de apoio, é praticamente impossível. Existem casas que dão suporte para mulheres que precisam de abrigo para si e para seus filhos. Muitas saem de casa só com a roupa do corpo, em direção a suas atividades rotineiras para não levantar suspeitas. E nunca mais voltam pra casa. E depois, o que acontece? Longos processos na justiça, viver escondida, medo de ser morta, anos reconstruindo a vida e a auto-estima, culpando-se pela violência que sofreram e que submeteram seus filhos.

Essas são algumas das batalhas íntimas travadas ao redor do mundo todos os dias. A violência contra a mulher não escolhe região, cor, classe ou idade. Afeta a todas nós. E o pior é que às vezes levamos anos pra perceber que estamos em um relacionamento abusivo. Porque fomos ensinadas que amor e dor podem andar juntos. Nesse vídeo, Jout Jout nos dá uma aula sobre como identificar que estamos em um relacionamento violento:

Agora, vamos pensar: que mundo é esse em que a própria casa é o lugar mais perigoso do mundo? Até quando seremos ofendidas, espancadas, estupradas, queimadas e mortas por aqueles que deveriam nos amar?

Não, o amor não pode doer e ponto.

Nicole Spohr

Fundadora e editora do FF, mãe do Guto e pesquisadora. Andou meio mundo pra fazer uma tese de doutorado que valesse a pena, mas foi a maternidade que virou sua vida de cabeça pra baixo. Entendeu que mulheres, juntas, têm muita força. E que podem transformar o mundo. Acredita que vale a pena batalhar por crianças feministas e por direitos humanos.



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