Para entender o legado da escravidão

Yaa Gyasi | Foto | Michael Lionstar

Sabe aqueles livros impossíveis de parar de ler? O caminho de casa, de Yaa Gyasi, é desses. Os capítulos passam voando, você quer ler mais e mais e mais e, quando acaba, dá um aperto no peito. O romance é fabuloso porque consegue mostrar, a partir de uma narrativa poderosa, como a escravidão impactou a vida de milhares de pessoas negras ao redor do mundo nos dias de hoje. A obra, de autoria de Yaa Gyasi, uma ganense de 27 que foi criada nos Estados Unidos, rapidamente ficou entre os mais vendidos do The New York Times, foi incluída na prestigiosa lista dos 100 livros notáveis de 2016 do mesmo jornal e ganhou o prêmio PEN/Hemingway de melhor romance de estreia. Leia aqui uma entrevista com a escritora. 

Entender a escravidão muito me interessa. Durante meu curso de doutorado, estudei pós-colonialismo, que é uma abordagem teórica que se debruça exatamente sobre isso: entender o legado do colonialismo no mundo de hoje – e, no caso da Administração, minha área – como isso afeta as organizações modernas. Pesquisei muita coisa sobre escravidão e colonialismo para escrever minha tese. Li livros que me davam vontade de chorar por dias – como Pele negra, máscaras brancas do argelino Frantz Fanon. Me debrucei sobre volumes gigantes que mostravam os pormenores da exploração marítima e dos “negócios” empreendidos nas colônias. Estudei como o discurso – entendido aqui como um conjunto de enunciados, podendo ser escritos ou falados – era construído por uma elite europeia representando pessoas negras como selvagens, bestiais e carentes de civilização. E quem seriam os iluminados a convertê-las aos bons modos e ao cristianismo? Eu europeus brancos, claro. 

Foram anos nesse processo de desconstrução da história que eu aprendi na escola (a começar pelo odioso “descobrimento do Brasil” que deixa claro que a perspectiva histórica é eurocêntrica) e reconstrução de uma série de narrativas alternativas, que foram apagadas, menosprezadas e silenciadas no que conhecemos como história oficial. Foi triste constatar que a própria ciência (ou pseudociência), especialmente a antropologia, contribuiu enormemente para a construção da ideia de que o povo negro é inferior ao branco. Muitas vezes era difícil explicar pras pessoas o que eu estudava, o que aquilo tinha a ver com Administração (pode ser que esteja mais pra Ciência Política mesmo) e porque eu ficava tão brava quando as pessoas não entendiam a herança do colonialismo do mundo atual. “Ah, isso já passou”, muitos me diziam.

Pois bem. O caminho de casa é a pérola que permite entender esse legado de forma simples e direta. A escrita de Yaa flui maravilhosamente, é bela. O romance trata de duas irmãs, naturais de Gana, que se separam no século XVIII: uma é vendida como escrava e enviada para os Estados Unidos e a outra permanece na terra natal. Cada capítulo narra a vida de um descendente das irmãs e assim sucessivamente até chegarmos nos dias de hoje. Vale demais a leitura! Quisera eu ter tido a oportunidade de ler esse livro lá no começo do doutorado!

Nicole Spohr

Fundadora e editora do FF, mãe do Guto e pesquisadora. Andou meio mundo pra fazer uma tese de doutorado que valesse a pena, mas foi a maternidade que virou sua vida de cabeça pra baixo. Entendeu que mulheres, juntas, têm muita força. E que podem transformar o mundo. Acredita que vale a pena batalhar por crianças feministas e por direitos humanos.



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