É menino ou menina?

Foto | Annie Spratt

Essa é certamente uma das perguntas mais ouvidas pelos pais ao longo da gestação. A resposta determina os tipos (e cores) da maioria dos presentes e direciona também boa parte dos comentários e conselhos recebidos. A resposta “menino”, geralmente leva a presentes em tons de azul, brinquedos como carrinhos e comentários sobre futuras namoradas, enquanto a resposta “menina” provoca uma onda de presentes cor de rosa, bonecas, babados e exclamações como “será uma princesa!”.

Mas qual seria a efetiva diferença para os pais na criação dos filhos e filhas? E se pensássemos em criá-los da mesma maneira, independente do sexo? À primeira vista tal proposta pode soar estranha, pois estamos habituados a reconhecer certas atividades ou características como “de menino” ou “de menina”, após um exercício de reflexão, porém, é possível perceber que grande parte de tais diferenças não é efetivamente biológica e sim cultural. A historiadora Joan Scott (1991) trabalha em seus estudos a ideia de que em geral as características consideradas como masculinas ou femininas não decorrem das diferenças físicas mas de construções culturais, sendo os aspectos biológicos utilizados como justificativa para tal diferenciação, ou seja, é a sociedade que define os papéis de meninos, meninas e, consequentemente, homens e mulheres, os espaços que devem ocupar, os comportamentos esperados e aceitos, assim como seus desvios, o que foge ao padrão e é, portanto, considerado anormal.

Afirmações como “meninos são mais exploradores”, “meninas são mais calmas”, “meninos devem brincar de luta, de carrinhos”, “meninas devem brincar de casinha, de bonecas”, “meninos não devem chorar” e outros similares são ouvidos, repetidos tantas vezes ao longo da vida, que são considerados verdadeiros sem maiores questionamentos e reproduzidos de geração em geração.

São os estereótipos de gênero que, aparentemente inofensivos, criam padrões, rótulos e expectativas que dirigem e limitam sobremaneira a atuação das crianças e, posteriormente, dos adultos que elas se tornarão, além de mecanismos, por vezes sutis, de sanções e recompensas para os que fogem ou se adequam a tais padrões, com vistas a reforçá-los e mantê-los.

Numa rápida visita a uma desde loja de brinquedos ou de roupas infantis é possível perceber que tais estereótipos são apresentados às crianças desde muito cedo, sendo os meninos claramente incentivados a se aventurar, com uma imensa variedade de brinquedos voltados à exploração, relacionados às mais diversas profissões, heróis prontos para salvar o mundo, roupas coloridas e confortáveis, enquanto as meninas são direcionadas a brincadeiras que remetem ao ambiente doméstico, como cozinhas, panelinhas, eletrodomésticos, casinhas e bonecas, em geral vestidas de rosa da cabeça aos pés, com roupas bem menos confortáveis  e que por vezes restringem movimentos e vêm acompanhadas de comentários como “você está de vestido, não pode pular assim”, “sente-se como uma mocinha”. Naturalizam-se então ideias como as de que tarefas domésticas e cuidado com filhos são responsabilidades femininas enquanto aos homens cabe o papel de provedor, de que homens devem ser fortes e não podem demonstrar medo ou fraqueza, ao passo que mulheres são frágeis e sentimentais, devendo ser recatadas e contidas, sendo desencorajadas a exercer atividades de liderança ou que demonstrem força, sob pena de perderem a feminilidade. É nítido que tais padrões são prejudiciais tanto para as mulheres quanto para os homens.

Abordar questões de gênero é, portanto, extremamente importante, porém não se trata de uma tarefa simples. Inicialmente em razão de o próprio termo “gênero” ser, com frequência, interpretado de maneira equivocada, como ocorre com outros termos e temas centrais no assunto, como “feminismo” e “feminista”, que são muitas vezes distorcidos e empregados de maneira pejorativa, sendo a eles atribuídos um peso negativo que leva a uma injustificada rejeição.

O gênero é utilizado atualmente como uma categoria de análise que considera as construções culturais a partir das diferenças biológicas entre os sexos. Ele revela que as características tradicionalmente atribuídas aos homens e às mulheres como naturais, decorrentes das diferenças anatômicas e hormonais, na verdade, decorrem da combinação de diversos fatores como a estrutura social, política, valores morais e crenças religiosas que, em conjunto, estabelecem e propagam modelos de masculinidade e feminilidade.

O feminismo, por sua vez, trata da busca pela igualdade de direitos entre homens e mulheres, apenas pelo fato de serem pessoas que, portanto, devem ter oportunidades iguais independente do sexo, de modo que feminista é simplesmente a pessoa que defende que todos os indivíduos são igualmente sujeitos de direitos.

Chimamanda Ngozi Adichie (2014, 2017) ressalta a necessidade do reconhecimento da opressão e exclusão historicamente sofridas pelas mulheres, frisando que a repetição de certas situações faz com que elas, por mais injustas que sejam, parecem naturais e a desigualdade passe despercebida. Ela exemplifica que o fato de repetidamente vermos apenas homens em cargos de chefia faz com que consideremos normal não haver mulheres em tais posições. A autora enfoca ainda a atuação da família e da sociedade na reprodução ou ruptura com os estereótipos de gênero e a importância da educação pautada na igualdade entre homens e mulheres.

Cláudia Vianna e Daniela Finco (2009), realizaram uma pesquisa em um estabelecimento de educação infantil, e observaram que as expectativas são diferenciadas e que determinadas habilidades e comportamentos são incentivados ou desencorajados tratando-se de meninos ou de meninas. Concluíram que pequenos gestos e práticas cotidianas contribuem para o reforço dos modelos de masculinidade e feminilidade vigentes e também para a perpetuação de desigualdades de gênero, já que o acesso às variadas dimensões da cultura infantil é controlado de acordo com o sexo, mas que as crianças pequenas ainda não possuem certos preconceitos e em geral enxergam com naturalidade atitudes fora dos padrões impostos, de modo que a educação a eles dirigida é determinante para a limitação ou ampliação de suas aspirações e papéis na vida adulta.

Podemos concluir, assim, que compreender que os padrões de comportamento não são determinados biologicamente (e assim imutáveis), mas sim construídos e reforçados por fatores culturais, portanto variáveis, nos permite perceber que não nascemos pré programados a agir de acordo com os modelos vigentes, mas fomos ensinados a segui-los. Possibilita também o entendimento de que as crianças aprendem com os ensinamentos e, principalmente, com os exemplos dos adultos a seu redor, de modo que podemos, e mais que isso, devemos, enxergar nossos filhos e filhas como indivíduos, com suas vocações, interesses e habilidades próprios, respeitá-los e incentivá-los em suas escolhas.

É para tanto, de extrema importância o exercício diário de observar nossas próprias atitudes e repensá-las de modo a ultrapassar as ideias que limitam e oprimem as crianças simplesmente para que se adequem a um padrão, muitas vezes em detrimento de sua própria felicidade. Desconstruindo preconceitos nas pequenas ações, como por exemplo não rotular brinquedos e brincadeiras como “de menino” ou “de menina”, podemos colaborar para a diminuição da desigualdade de gênero e para propiciar a nossas crianças um futuro de mais igualdade, oportunidades e realização pessoal.

Sugestão de leitura:

Chimamanda Ngozi Adichie proporciona em suas obras, em especial: Para educar crianças feministas – um manifesto e Sejamos todos feministas, uma leitura rápida e extremamente esclarecedora.

Nayara Pasti

Mãe da pequetita Valentina, filha da maravilhosa Francismar e neta da incrível Zizinha. Mulher buscando compreender melhor a si mesma, as pessoas e o mundo. Feminista, nerd, devoradora de livros, alucinada por cachorros, movida a música e completamente apaixonada pela dança. Advogada e mestre em Sociologia Política, mas que vem se descobrindo mesmo na maternidade, no flamenco e na escrita.



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