E eu me deixei levar

Foto | Jeremy Bishop

Meia hora depois de acordar, meus pensamentos pularam em cotidianeidades. Li um texto em que se comparavam relacionamentos com danças. Uma amiga escreveu que deixar ir é um ato de amor. Algo que penso comigo também.

Embaralhada nesses pensamentos, uma memória se sobressaiu. Essa noite eu sonhei que reencontrei duas meninas com quem eu já morei. Não somos amigas, nunca fomos, mas elas me tratavam como e eu me deixei levar. Fomos tirar fotos perto de um grande navio. Éramos quatro e para a foto ficar melhor elas abriram uma janela que havia entre o cais e o navio.

A janela me impressionou pela sua inesperada existência. Da janela algumas decidiram entrar no navio. Parecia um passo grande demais e descabido. O navio estava prestes a sair e eu, apesar de resistir, embarquei. As primeiras memórias eram de pessoas falando muitas línguas diferentes. Eu entendi algo em russo e respondi em francês. Falei francês e principalmente que não tinha muitas oportunidades para falar francês, infelizmente.

Eu estava absolutamente entusiasmada pela ideia de estar em um navio que apenas cortava o mar e seguia adiante em um rumo desconhecido.

Mas também era terrível o incômodo do não controle, de estar em uma situação absolutamente nova sem nenhum pertence. Sem roupas limpas para o dia seguinte. Sem meu passaporte ditando onde sou e não sou supostamente bem-vinda.

Eu era bem-vinda no navio e isso deveria me bastar.

Ligia Francisco

Mulher cis, branca, bissexual, linguísta, artista, brasileira, feminista, imigrante, entre muitas outras coisas. Gosta de palavras, flores, samba e pessoas.



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