Dois partos, a mesma alegria… e mães diferentes II

Foto | Janko Ferlic

Quando eu esperava meu segundo filho, torci muito para que ele nascesse de parto normal. Tudo caminhava bem, mas no finzinho apareceu no ultrassom um cordão umbilical enrolado no pescoço duas vezes. A cicatriz da cesárea anterior estava no limite e o médico não achou seguro arriscar. Que dirá eu. Sou adepta do parto humanizado, li livros e incomodei meu obstetra com uma chuva de perguntas durante os nove meses. Mas na hora H, me mantive conservadora. A viver um parto como eu sonhei, colocando em risco minha vida e a do meu filho, prefiro um parto padrão. Pasteurizado, cirúrgico, invasivo, dolorido, com uma recuperação mais difícil e tudo o mais. A prioridade naquele momento era o Dan – que ainda nem esse nome tinha –, não meus sonhos.

Dessa vez também não consegui descansar como gostaria, antes do dia D. Fiquei pensando que, se por um lado isso é luxo de poucas, por outro cabe a nós priorizar esse tipo de coisa e blindar esse momento sagrado. Marcamos para uma segunda-feira cedo, na sala “aquário”. Meus pais, minha sogra e uma amiga assistiram tudo. Eu achei que não ia gostar, mas foi bom tê-los participando desse momento. A segunda gravidez tinha sido mais cansativa… No final, tudo era esforço e desconforto. Me lembro do alívio quando pensei que os incômodos iam acabar e finalmente eu conheceria o rostinho dele. Os procedimentos não eram novidade e a ansiedade estava mais controlada. Adriano também já estava craque em ver sangue e não me preocupou. Fui para o hospital rezando e recebendo as boas energias dos amigos, em mensagens e telefonemas.

Quando cheguei, preenchi a papelada. Tirei as últimas fotos da barriga, eu sabia que teria saudade. Na verdade, já a estava sentindo. Se, por um lado, a gravidez sobrecarrega o corpo da gente e traz azia, dor nas pernas, dor nas costas e outras coisas mais, por outro é o momento mais bonito da vida de uma mulher. Pelo menos foi da minha. Eu me sentia plena, viva, sentia que um milagre acontecia aqui dentro. Era como se Deus tivesse passado na minha casa e me abençoado, tocado a minha cabeça com as mãos de Pai. As pessoas na rua sorriam pra mim, eu chamava votos e desejos do bem. E sabia que o que estava por vir também era, sim, lindo, mas ainda mais desgastante e, por que não dizer, pesado. Então eternizar a barriga foi um jeito de guardar essa emoção que eu sentia.

Na sala de parto, tudo como sempre. A equipe me tratando com o maior carinho, meu marido do meu lado… E nós loucos pra ver como era o Dan. Rezei de novo, pra dar tudo certo. E de novo deu: ele chegou bem, passava bem e eu também. No segundo parto, é sempre uma preocupação extra a gente não ter nada. Porque você já tem ideia do que seria deixar um filho pequeno nesse mundo, sem a sua presença. E isso dá um medo enorme! Então nos próximos vinte anos estou proibida de morrer, preciso cuidar desses filhotes.

Quando vi o Dan pela primeira vez, senti uma emoção diferente. Eu já não era a Cris insegura de antes. E já sabia o que significa ser mãe. Já tinha ideia de como a minha vida ia mudar, a partir dali. O colocaram no meu peito e pude lhe fazer um cafuné. Ele não era carequinha. Era pequenino e meio cabeludo. Ficamos ali agarradinhos, até que o levaram de mim, enquanto outra vez os médicos iam me costurar e fechar minha barriga. O estrago é grande e isso demora, mas eu pedi insistentemente que não o deixassem longe tanto tempo, como foi no caso do Theo. E quando fui para a sala de recuperação, lá estava ele, me esperando, com olhinhos abertos e curiosos que me fitavam sem parar. Era como se dissesse: ah, então você é assim aí do lado de fora? Pedi à enfermeira que me ajudasse a amamentar, ela o colocou nos meus braços e ele demonstrou, já naquela hora, que seria bom de garfo. Depois foi posto de novo no bercinho ao meu lado, mas não parava de me olhar. Olhava no fundo dos meus olhos, me descobrindo. E ficamos ali juntinhos, não sei por quanto tempo, só trocando olhares e carinhos. Eu agradecia a Deus sem parar por essa bênção na minha vida. E prometia a ele que seria uma mãe nota dez.

No quarto, as visitas não incomodaram como da primeira vez. Nem a dor dos pontos. A coceira também não veio… Passamos a noite com ele, uma lei impedia que o deixasse no berçário. Mas agora eu nem queria isso mais. Sabia que podia até errar, mas que seria melhor pra ele estar comigo. No dia seguinte o irmãozinho veio conhecê-lo, e foi uma alegria ver a família toda junto. Saí do hospital. Quando fui pra casa, tinha a exata ideia do desafio que me esperava pela frente. Mas agora me sentia mais capaz de enfrentá-lo. Eu tinha me transformado numa leoa. Sabia trocar fralda, sabia amamentar, sabia dar banho, dar bronca, dar colo e sabia o mais importante: sabia que ninguém sabe ser mãe. Ser mãe é uma coisa que a gente aprende dia após dia, sem parar e até morrer. Então eu não tinha a pretensão de conhecer ou dominar isso, apenas a humilde disposição de tentar. E como é bom tentar com o Theo e o Dan.

Cris Ituassu

Casada com o Adriano, com que teve o Theo e o Dan. Maravilhada com muita coisa, inconformada com tantas outras. Adora gente e todas as complicações daí decorrentes. Acredita que qualquer mudança só pode acontecer pelo afeto, e nada como a arte pra tocar os corações. Então escreve de vez em quando, na expectativa de por pra fora angústias ou esperanças e, quem sabe, tocar alguém.



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