Dois partos, a mesma alegria… e mães diferentes I

Foto | Julie Johnson

Quando eu esperava meu primeiro filho, o dia em que agendaram a chegada dele foi esperado com muita ansiedade. Theo estava pélvico e isso acabou me levando a uma cesárea. Era sexta-feira e eu marquei para que tudo acontecesse à tarde, estava fugindo de visitas porque ouvia falar do desconforto que vinha depois – achei que poderiam atrapalhar.

Na véspera eu queria ter ficado quieta, sossegada, numa espécie de concentração para o grande momento. Mas não deu, os compromissos eram muitos, eu não soube fugir deles nem imaginava o que estava por vir. Na data certa, acordei cedinho e tomei um café da manhã caprichado com meu marido, na nossa padaria favorita. Jejum nunca foi meu forte e eu não poderia comer mais nada até depois da cirurgia. Ainda fui ao banco, fiz supermercado, resolvi um monte de coisas do trabalho. Estava me sentindo muito bem. Após um banho, rumamos para o hospital. Entre mensagens de whatsapp que me desejavam uma boa hora, eu imaginava como seria o rostinho dele. Chegando lá, tudo era novidade. Eu não conseguia pensar direito em muita coisa, só imaginava se ia dar tudo certo. Rezei, e deu.

Bati papo com os médicos na sala de parto e fiquei de olho no pai do Theo. Adriano e hospital são coisas que não combinam, eu tinha medo que ele passasse mal. Pedi à equipe que prestasse atenção nele, que se saiu muito bem. Limpa daqui, soro dali… Uma força na barriga e senti que ele não estava mais dentro de mim. Tinha ouvido dizer que o bebê não chora logo que nasce,  então eu não estranhei, fiquei apenas esperando pra ouvir a vozinha dele pela primeira vez. E era uma lindeza só! A voz, porque o Theo parecia um velhinho de tão enrugado… Um bocão enorme e um olho esperto procurando entender o que se passava ao seu redor. Era também a cara do pai!

A enfermeira o colocou no meu colo, eu consegui fazer um chameguinho nele e agradecer a Deus: é meu filho, passa bem, que felicidade! Curti alguns minutos – rápidos, mas curti – com ele bem do meu ladinho, aconchegado no meu peito. Depois foi me dando um enjôo, achei que minha pressão ia cair e nos separamos. As enfermeiras foram cuidar dele, que agora era acompanhado pelos olhos atentos e carinhosos do Adriano. E os médicos foram cuidar de mim, costurando tudo o que tinha sido cortado para ele vir ao mundo.

Foram três longas horas – acho que as mais longas da minha vida. Não havia quarto disponível. Theo ficou naquela incubadora, longe de mim mas sempre debaixo do olhar do pai, e minha família me aguardando chegar. Enquanto isso, eu descansava na sala de recuperação esperando passar o efeito da anestesia. Conversei com uma moça que havia perdido o bebê e feito curetagem. Pensei: que insensibilidade colocarem a gente junto. É triste saber que a sua alegria remete alguém a momentos de tanta dor, como esse deve ter sido. Depois de um tempo, me chamaram e eu podia ir, enfim, encontrar meu bebezinho.

Chegando no quarto, muitos olhares… Minha mãe me esperava junto a outros parentes e amigos queridos. O Theo veio com o Adriano, e ali ficamos juntinhos para eu amamentar pela primeira vez. Ele pegou o peito sem maiores problemas, e isso foi um alívio. Eu tinha medo de dar tudo errado. As visitas chegaram mesmo assim, não adiantou marcar à tarde. A anestesia foi passando e tudo doía muito, nunca pensei que pessoas tão queridas podiam incomodar desse jeito. E me deu uma coceira enorme, reação à anestesia – coçava da ponta do dedo do pé até a língua. Quando todos foram embora, o Theo ficou só mais um pouquinho e foi dormir no berçário. Naquela época, podia. Eu era tão inexperiente com criança e me achava tão incompetente pra isso que pensei serem as enfermeiras as melhores companhias pra ele, naquela hora. Tinha medo dele fazer cocô, tinha medo dele ter cólica, tinha medo dele chorar e eu também. Aproveitei pra descansar, o quanto a dor dos pontos e a coceira permitiram.

No dia seguinte, o médico apareceu para me ver. Me autorizou a tomar um banho e tirar a sonda. Eu não queria banho nenhum, queria é ficar quieta. Doía para respirar. Mas ok, tomei o banho e de fato me senti melhor. Theozinho passou o dia com a gente, recebi mais visitas. Ele era um milagre e estava ali, do meu lado. Lembrancinha, amamentar, trocar fralda, servir cafezinho. Mais uma noite no hospital e tive alta. Quando saí, me preocupei com as fotos. Queria uma lembrança daquele momento. Bobagem, ele nunca sairia da minha cabeça, com ou sem registro. E fui pra casa para cuidar dele, ainda meio anestesiada com tanta emoção ao mesmo tempo, sem ter a menor noção do que isso significaria.

Como pode uma pessoinha que chega tão pequena conquistar tanto espaço, tomar conta da vida da gente, mudar tudo pelo avesso? Em poucos anos de Theo, aprendi mais do que em muitos sem ele. Hoje sei que, naquele 22 de junho de 2012, nascia ele e nascia outra Cris. Muito, mas muito melhor que a de antes. Graças ao Theo.

Cris Ituassu

Casada com o Adriano, com que teve o Theo e o Dan. Maravilhada com muita coisa, inconformada com tantas outras. Adora gente e todas as complicações daí decorrentes. Acredita que qualquer mudança só pode acontecer pelo afeto, e nada como a arte pra tocar os corações. Então escreve de vez em quando, na expectativa de por pra fora angústias ou esperanças e, quem sabe, tocar alguém.



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