A beleza de cada ciclo

Foto | Velizar Ivanov

No último post, falei um pouco sobre como fiz as pazes com a minha menstruação. A parte “técnica”, digamos, estava resolvida, mas e a emocional? Durante um tempo, por recomendação de uma frida querida, utilizei uma Mandala Lunar, que é uma espécie de diário feminino onde anotamos os sintomas físicos e emocionais de cada dia do ciclo. A Mandala traz também sugestões de exercícios, meditações e outras formas de se autoconhecer. Preenchi por um tempo e foi excelente para associar determinados padrões de sentimentos com momentos do meu ciclo menstrual. Hoje em dia anoto as principais informações do em um aplicativo de celular chamado Flo. Ele me ajuda a saber em que estágio do ciclo estou, a saber a intensidade e duração de cada etapa, etc. Estou curtindo bastante.

Mas a grande revelação sobre meu ciclo menstrual veio recentemente. Nas minhas pesquisas sobre o tema, acabei cruzando com o livro Lua Vermelha, de Miranda Gray. A autora, que também é artista, professora, terapeuta e criadora da famosa Bênção do Útero, defende que a vida moderna fez com que muitas mulheres se desconectassem de seus corpos e ciclos naturais. O trabalho e os afazeres cotidianos muitas vezes não nos permitem mais vivenciar plenamente cada etapa. As explicações dela vão muito na linha do se conhecer, se observar, se proteger quando necessário. E ela acredita que podemos ser muito mais produtivas ao reconhecermos as energias de cada etapa do ciclo. Não é à toa que o subtítulo do livro dela é: As energias criativas do ciclo menstrual como fonte de empoderamento sexual, espiritual e emocional. Com base em Miranda, as quatro etapas do ciclo, cuja duração e intensidade variam de mulher para mulher, seriam mais ou menos assim:

FASE DA BRUXA ANCIÃ (MENSTRUAÇÃO) É o começo do ciclo, um tempo de retiro, quietude, gestação, tempo de escutar o próprio corpo. É o inverno do ciclo. Algumas mulheres podem experimentar um sentimento de aceitação e pertencimento ao todo. O corpo geralmente tem menos energia, fica mais pesado, seios e ventre podem ficar inchados. Muitas mulheres sentem vontade de dormir mais, então pode ser prudente reduzir o ritmo, fazer apenas as atividades indispensáveis. As coisas mundanas costumam ficar menos importantes e socializar pode ser desnecessário. O raciocínio fica lentro e podem surgir pensamentos caóticos e intuitivos. Porém, pode valer à pena anotar os insights que surgem para que sejam desenvolvidos mais a frente. As emoções vêm à tona com facilidade e convém deixar chorar. A energia sexual se intensifica. Pode haver uma sensação de vazio ou perda e a extrema sensibilidade empática pode tornar o mundo difícil de suportar. Pode valer à pena procurar um tempo para ficar sozinha e relaxar. Menstruar “mentalmente” significa recolher-se do mundo.

FASE DA DONZELA (PERÍODO PRÉ-OVULAÇÃO) É o tempo de expressar as ideias que surgiram na fase da Bruxa Anciã, trazer o subconsciente à luz. É a primavera do ciclo. O tempo de luto acabou, portanto pode ser uma boa hora para regenerar a vida, com força e confiança renovadas. As energias são dinâmicas e focadas em novos objetivos. Pode ser uma boa fase para começar novos projetos ou continuar os que estão em andamento. É comum que a mulher sinta alegria de viver, disposição, energia e confiança em suas capacidades. O dinamismo mental e físico costuma tornar o pensamento claro e analítico. Comunicação e sociabilidade são intensificadas. Pode ser uma boa oportunidade para examinar finanças, casa, relacionamentos e objetivos. A sexualidade é extrovertida, direcionada ao flerte e à diversão.

FASE DA MÃE (OVULAÇÃO) É um tempo de doação de seu amor e capacidades. É o verão do ciclo. Muitas mulheres, nessa fase, reconhecem a conexão com a Terra. É comum sentir força e energia radiantes e sentimentos de contentamento e completude. Costuma ser uma fase de energias criativas, amor e harmonia profundas. Autoconfiança e o amor próprio em abundância podem permitir apoiar e encorajar outras pessoas. Geralmente há forte impulso sexual e pode surgir um profundo amor pelo/a parceiro/a, uma vontade de doar-se por completo.

FASE DA FEITICEIRA (PRÉ-MENSTRUAÇÃO) Nesta fase, as energias são novamente orientadas para o interior. É o outono do ciclo. Há menos força e disposição e a mulher pode se sentir mais agitada e cansada. Costuma crescer uma vontade de interagir e aprender com o interior. O cansaço e a sensibilidade emocional costumam aumentar, enquanto que a concentração e o pensamento diminuem. Quanto à sexualidade, a mulher pode sentir-se sensual, erótica e um pouco “bruxa”. Pode ser importante buscar uma forma de expressão criativa, estando preparada para destruir tudo se sentir vontade. Pode ser que a mulher diga a verdade sem pensar, que fale sem consideração pelos outros. É comum tornar-se menos sociável e pouco disposta a doar seu tempo aos outros. É comum surgirem energias destrutivas nessa fase, que podem ser usadas para levar embora o velho e indesejável. A morte do velho é necessária para o nascimento do novo. É assim que se encerra mais um ciclo pessoal.

Miranda ainda defende que as fases do ciclo feminino são fortemente influenciadas pelas fases da lua. Em suma, as fases pré-menstrual e menstrução são, de maneira geral, orientadas para o interior da mulher (outono e inverno do ciclo, fases da feiticeira e da bruxa anciã, respectivamente), enquanto que a pré-ovulação e a ovulação são fases mais dinâmicas e orientadas para o exterior (privamera e verão do ciclo, fases da donzela e da mãe, respectivamente). Esses aspectos estão sintetizados na figura abaixo. Uma amiga me contou dia desses que quando se sente meio perdida em relação aos seus sentimentos, corre para assistir esse vídeo, em espanhol, que explica as fases do ciclo. Rapidamente, ela se entende e se reconecta.

Fases do ciclo menstrual | Lua Vermelha | Miranda Gray

E quem não menstrua? Miranda diz que é como se estas mulheres já tivessem absorvido uma sabedoria enorme, que aprenderam pouco a pouco, ao longo de sua vida menstrual. E que agora seguem as fases da lua (espie a figura acima). Para muitas mulheres, talvez nada disso faça sentido. E tudo bem. Mas outras podem se identificar com as sensações e emoções descritas por Miranda, como foi o meu caso. Entender que durante metade do mês eu sou mais produtiva, otimista e dinâmica ajudou a acalmar meu coração e aceitar a outra metade em que estou mais quieta, pensativa e intuitiva. Hoje me sinto mais preparada para organizar minha vida pessoal e profissional respeitando estas tendências. Valeu, Miranda!

Nicole Spohr

Fundadora e editora do FF, mãe do Guto e pesquisadora. Andou meio mundo pra fazer uma tese de doutorado que valesse a pena, mas foi a maternidade que virou sua vida de cabeça pra baixo. Entendeu que mulheres, juntas, têm muita força. E que podem transformar o mundo. Acredita que vale a pena batalhar por crianças feministas e por direitos humanos.



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