O parto dos sonhos

Foto | Alex Pasarelu

Quem me acompanha por aqui e leu o relato do parto do meu primeiro filho, sabe que não foi o parto dos sonhos. Demorou muito, teve que ser feito uso do vácuo extrator, tive muito sangramento, precisei de transfusão e o pós-parto não foi dos melhores. Mesmo assim, fiquei muito feliz por ter conseguido ter parto normal e, apesar de tudo, não via a hora de passar por outra experiência dessas.

Com Bernardo a caminho, continuei com o mesmo obstetra de antes, Dr. Fernando Pupin, que atua com parto humanizado aqui em Florianópolis, e me acalmava pensar que no segundo filho tudo poderia ser mais rápido e fácil. Eu só desejava entrar em trabalho de parto naturalmente de novo porque pra mim é muito importante esperar o tempo que “eles” decidem vir pra cá e eu queria muito escutar os sinais e sentir a sua chegada.

Não sei porque, tinha a impressão de que o Bernardo podia vir antes, mas não ocorreu (o que foi bom, pois só terminei de arrumar o quarto, as roupas e as malas com 38 semanas). Quando fechou as 38 semanas, já fiquei mais ansiosa aguardando os sinais.

Com o Gabriel, o início do trabalho de parto começou com um leve sangramento e uma cólica bem fraca como se fosse cólica menstrual. Eu imaginava algo semelhante… Mas uns dias passaram e nada. Às vezes, eu sentia uma dorzinha e ficava imaginando se já era o começo, mas não. Completei 38 semanas na sexta, dia 23 de setembro. Eu até planejava começar a fazer caminhadas para estimular o trabalho de parto, mas como tinha coisas para arrumar em casa ainda, não consegui. Eu ia começar a andar na quinta, mas nem precisou.

Na quarta-feira, dia 28 de setembro, eu estava com 38 semanas e 5 dias, o mesmo tempo com que eu tive o Gabriel há dois anos. E isso já foi uma coincidência boa do destino. Neste dia, minha sogra nos chamou para jantar na sua casa. Para não irmos com dois carros, uma vez que o Eduardo (meu marido) já estava na casa dela, ela passou em minha casa lá pelas 17h para me pegar e já fomos pegar o Gabriel na escola. Eu levei a comida e o pijama do Gabriel para dar a janta e o banho lá e já trazê-lo pronto para casa, como sempre faço quando vou pra casa de conhecidos de noite para não sair tanto da rotina. Já tínhamos combinado que o Gabriel ficaria na minha sogra quando fôssemos para a maternidade, só não imaginávamos que ele já ficaria por lá nesta noite.

Chegamos na minha sogra, fiquei brincando com o Gabriel e fui dar a jantinha dele lá pelas 19h. Foi quando comecei a sentir uma cólica mais forte. Não queria demonstrar que estava sentindo, pois não sabia se eram as contrações mesmo, então quando comecei a sentir eu fui para o escritório em que meu marido estava e disse que estava começando a sentir algo. Ele não achou que já era o trabalho de parto. Eu mesma também não tinha certeza. As contrações continuaram em intervalos já menores de 10 minutos e eu fiquei me “escondendo” no escritório quando elas vinham, pois não queria alarmar meus sogros por não ter certeza do que estava acontecendo ainda.

Nos sentamos para jantar e aí não consegui mais segurar a dor dos meus sogros e disse que estava sentindo as contrações e achava que estava em trabalho de parto. Eu não tinha certeza de que elas iam continuar e só queria ir pra casa e entrar no chuveiro para aliviar e confirmar se as contrações não iam parar mesmo.

Mesmo com contrações já aparecendo em intervalo de cinco minutos, eu achei que ainda ia demorar… Então acompanhei minha sogra a dar banho no Gabriel, colocamos o seu pijama e decidimos que ele já ficaria na casa dela. Me despedi dele ouvindo ele chorar me chamando (meu coração já ficou dividido nesta hora).

Eu e meu marido fomos pra casa lá pelas 21h e meu sogro também passou em casa para pegar a malinha do Gabriel que já estava pronta e separada. Entrei no chuveiro e as contrações não pararam e continuaram vindo com menos de cinco minutos e fortes. Na verdade, num aplicativo que estávamos usando para fazer o controle das contrações, eu estava classificando a dor como média porque achava que ia demorar mais e podia ficar pior. Mas elas já estavam num nível bem forte quando lembro o começo do trabalho de parto do Gabriel.

Nesta hora, já tínhamos enviado mensagem pro obstetra e pra doula Luana Costa que ia nos acompanhar. Fiquei uns 20 minutos no chuveiro e a dor só aumentava. Resolvi sair do chuveiro para fazer (acreditem! Rs) piastra no cabelo. Parece futilidade, mas eu queria me sentir bonita durante este momento e estar com o cabelo arrumado me faria bem. Consegui entre uma contração e outra me arrumar. Dr. Fernando me ligou e disse para irmos pra maternidade, pois achava que ia evoluir rápido.

Moramos a menos de 10 minutos da maternidade então ainda me dei o tempo de passar uma base no rosto e um rímel (momento futilidade 2), me trocar e ficar apressando meu marido para irmos – sim, porque ele estava (acreditem número 2) fazendo contas do condomínio enquanto se alternava durante as contrações para me fazer massagem nas costas e aliviar a dor. Ele também não estava achando que o negócio estava bem adiantado… Lembro de uma hora até me irritar e falar pra ele: ” temos que ir pra maternidade AGORA!”

Fomos para a maternidade e chegamos lá às 22h30. Desci do carro e já encontrei o Dr. Fernando na porta, chegando junto com a gente. Só isso já era um sinal de que tudo seria perfeito. Enquanto o Eduardo cuidava da papelada de internação, já entrei na sala do plantão, do lado da recepção mesmo, pro Dr. Fernando me examinar. Estava esperando ouvir um número de dilatação que me faria pensar em quanto tempo ainda iria demorar e em quanta dor eu ainda teria que sentir. Mas pasmem: dilatação total! Dr. Fernando já subiu comigo pra sala de parto que estava vazia e me esperando e saiu avisando a equipe que seria rápido.

Começaram a encher a banheira. Eu tinha planejado desta vez entrar na banheira se desse (para aliviar a dor) e não tomar analgesia (que achei que tinha me atrapalhado da primeira vez). Confesso que com a dor cheguei a pensar em pedir analgesia de novo, mas como já cheguei com dilatação total não teve nem como. Foi o destino me ajudando a ter o parto que eu sonhava, porque talvez, se desse, eu teria cedido novamente à dor.

A banheira demorou a ficar pronta, pois além de encher tinha que esquentar a água para a chegada do bebê. Enquanto isso, estava tendo as contrações fortes e a cada contração me jogava nos braços do Eduardo e ele fazia uma massagem nas minhas costas (e eu pedia que fizesse com força para aliviar a dor, o que me rendeu uma baita dor nas costas nos primeiros dias após o nascimento rsrs).

Cheguei com a bolsa íntegra, mas em uma das contrações finais do expulsivo, ela estourou. Enfim, a banheira ficou pronta e eu estava entrando quando o Dr. Fernando pediu para eu só esperar ele escutar o bebê mais uma vez antes de eu entrar na água.

Foi aí que veio “A” contração. Não deu tempo de entrar na banheira. Fiquei em pé, apoiada de frente pra maca, e fiz uma força que veio e que não consegui segurar. Junto com ela, uma dor que eu não sabia se continuava fazendo força pra parar ou se parava de fazer força para diminuir. Mas não tive como segurar, a vontade de empurrar era muito forte. Senti o Bernardo passando por mim e a sensação era que eu estava sendo rasgada. Lembro de gritar isso e o Dr. Fernando dizer que era isso mesmo, que ele estava vindo. Ouvi o Pupin dizer para o Eduardo o pegar e assim foi. Em menos de um minuto, Bernardo saiu de mim, foi pego pelo pai e veio direto para o meu colo.

Foi mágico! Foi incrível! Foi um sonho! No auge da dor, não achei que conseguiria. Mas lembrava sempre de uma entrevista que tinha visto do Pupin antes mesmo de ser paciente dele em que ele dizia que nós, mulheres, tínhamos que acreditar na nossa capacidade de parir. Eu me agarrei nisso e me joguei com tudo no processo deixando vir a dor, gritando sem me segurar e sentindo a adrenalina e meu filho passando por mim.

Eram 23h10 quando Bernardo veio pro meu colo, apenas 40 minutos após chegarmos na maternidade. Nem eu e muito menos o Eduardo achávamos que ia ser tão rápido. Eu sonhava com um parto assim, mas nem acreditei quando aconteceu. A dor faz parte, mas logo nos esquecemos diante de tantos outros sentimentos que aparecem junto

Fiquei com o Bernardo no colo até o cordão parar de pulsar. Foi o Eduardo novamente que cortou o cordão. Aí, na mesma sala em que estávamos, o Bernardo foi examinado pelo pediatra sob nossos olhos para depois voltar para o meu colo. Desta vez, não levei nenhum ponto.

E aí foi só curtir o sonho realizado. Tomei uma coca-cola para comemorar (que eu não sentia o gosto há três meses por causa da diabetes gestacional e quase nunca tomo também por uma questão de saúde e não de vontade rs), avisamos nossa família e amigos, dei de mamar para o Bernardo ainda na primeira hora, tomei banho (sem desmaios desta vez) e fomos para o quarto.

Difícil foi dormir depois de tanta adrenalina (Pra mim, né? Porque quem conhece meu marido sabe que dormir nunca é um problema pra ele rsrs). É incrível a sensação de quando estamos de fato vivendo um sonho e temos essa consciência.

Só tenho a agradecer ao cara lá de cima por me mandar outro anjo e me permitir passar por uma experiência mais positiva desta vez. Agradeço ao meu marido pelo apoio, junto comigo a cada contração e sempre. Um super obrigada novamente ao nosso obstetra Fernando Pupin pela parceria, pelo respeito, pela tranquilidade e pela diversão. Também agradeço à enfermeira Luana Costa, doula que nos acompanhou (quase que nem deu tempo de ela chegar na maternidade rs) e me ajudou no início da amamentação.

Fiquei muito feliz de tudo acontecer como eu sonhava e por eu passar por esta vida com a vivência de um parto natural que eu tanto desejei. Cada mulher escolhe o tipo de parto que quer e nem sempre sai como o planejado. Mas desta vez saiu muito melhor do que imaginei.

Estou transbordando de gratidão, felicidade e amor por tudo que estamos vivendo. Lógico que, no puerpério, nem tudo são flores. Mas ter um parto natural está tornando a minha recuperação bem mais fácil e ter um parto como eu queria me deixou emocionalmente mais tranquila para encarar esta nova rotina – cansativa e desafiadora sim, mas cheia de carinho e alegria acima de tudo. <3

Marcela Lin

Mãe do Gabriel e do Bernardo e colaboradora do FF. Sempre estudou muito para ter uma carreira de sucesso até que virou mãe e percebeu que seus filhos foram, são e serão a sua melhor produção. Ama ser mãe e estar com seus pequenos, mas gosta também de trabalhar fora e de ter tempo pra si. Já nasceu mãe por duas vezes e continua renascendo a cada nova etapa e aprendizado.



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