Relato de uma mãe sem filho

Foto | Jordan Bauer

Vou começar respondendo a uma pergunta: não, eu não sou mãe, como tantas outras fridas que escrevem por aqui. Mas espero ser. Mesmo (ainda) não sendo mãe, eu me permiti escrever neste espaço sobre minha experiência com a maternidade ou com a gestação, talvez o segundo seja melhor. Logo vão entender!

No ano de 2015, eu vivi duas experiências de vida e de morte, ambas com uma brevidade de espantar. Passei por dois abortos espontâneos, ou melhor, um aborto espontâneo e um aborto retido, como a medicina costuma chamar cada um dos casos. Foram duas experiências diferentes, ambas doloridas, que deixaram marcas, claro. Mas que me ajudaram a captar melhor a mensagem dessa decisão, dessa escolha que é querer ser mãe. Parece estranho, mas sim, elas me ajudaram a compreender o meu próprio desejo de ser mãe.

Eu me permiti e senti a necessidade de compartilhar o que vivi porque, ao passar por essas experiências, nunca antes imaginadas – pois é, não controlamos tudo como queremos acreditar –, eu me dei conta de que essa é uma realidade comum para muitas mulheres. Depois de ter relatado o que aconteceu comigo para algumas amigas e outras pessoas próximas, num espaço de tempo não tão longo assim, recebi mensagens ou fui o ombro de amigo de outras mulheres que me contaram muito afetuosamente que algo parecido havia ocorrido com elas e conversamos sobre. Então percebi que o fim de uma gestação repentinamente é mais comum do que eu mesma podia imaginar. Claro, os médicos dizem isso quando dão seu diagnóstico e relatam pra você o que aconteceu, mas você parece não acreditar muito e diz: “é só uma maneira de me consolar e tentar me acalmar”. Na sua cabeça, o que vem é: “Por que comigo?” ou “Por que só comigo? Eu conheço mais mulheres grávidas e com filhos pequenos saudáveis do que mulheres que perderam suas gestações”. Mas a questão é: ocorre muito e não se divulga por vários motivos, sobre os quais prefiro não me alongar aqui. Vou preferir tratar da minha experiência sobre a perda e o que eu fiz com ela.

Meu primeiro aborto ocorreu no mês de maio de 2015. Eu estava com pouco mais de cinco semanas de gestação. Faria o ultrassom na quinta feira daquela semana para precisar a idade gestacional, quando, na terça-feira no final da tarde, comecei a sentir cólica abdominal e visualizei um pequeno corrimento com cor avermelhada. Assustada, relatei ao meu marido e fomos juntos ao hospital para uma avaliação. No ultrassom feito no atendimento, veio a notícia de que o saco gestacional havia diminuído de tamanho em relação ao exame anterior. Aquele não era um bom sinal. A recomendação foi ficar em repouso e aguardar o que aconteceria. Minha médica indicou a ingestão de progesterona e assim segui por quinze dias até novo exame, que constatou nenhuma evolução. Para fim de história, após essa verificação, parei de tomar o hormônio indicado e, cerca de cinco ou seis dias após, tive um sangramento: era um aborto espontâneo. Naquela situação, o melhor dos cenários: nada de procedimento cirúrgico para limpeza. Sim, havia acabado. Foi tudo muito rápido! Em menos de um mês, três exames indicaram: você está grávida, a gravidez corre risco e a gravidez acabou. Rápido e simples assim. Por incrível que pareça, acho que a rapidez me ajudou a processar tudo: “Aconteceu. Tudo bem. Bola pra frente”. Uma nota: meu marido ficou mais abalado do que eu.

De todo modo, seguimos nossa vida. Em nossos planos, aquele era o momento para engravidarmos (baita ousadia!). Passaram-se alguns meses. Não havíamos planejado, mas, no início de agosto, constatei que estava grávida novamente. Ficamos felizes!!! Mas logo a história se repetiria. Já no primeiro ultrassom, verificou-se que o saco gestacional estava com formas irregulares. Progesterona de novo! Era preciso aguardar para saber como se daria a evolução. Foi um pouco mais longo. Cheguei às 10 semanas, mas nada de bom cenário. Diagnóstico: gravidez anembrionária. Aborto retido. Baque. Mas vamos lá one more time. Parei novamente de tomar a progesterona e agendamos a curetagem. Tudo sob controle. Nada disso! Se a primeira vez foi rápida e quase indolor, a segunda foi traumática.

Dois dias antes da data agendada para a curetagem, tive uma hemorragia fortíssima. Comecei a sentir dor às 4h da manhã. Meu marido saiu às 4h30 de casa para uma viagem de trabalho. Quarenta minutos depois, liguei pedindo que voltasse pra casa. Não tinha condição nenhuma de ficar sozinha nem de ir ao hospital por conta própria. Perdi muito sangue em pouquíssimo tempo. Tanto que desmaiei três vezes em menos de uma hora. Para minha sorte, João chegou pouco antes de meu primeiro desmaio. E segurou as pontas. Me reanimou todas as vezes. Saí de casa de ambulância. No hospital, já medicada e sendo muito bem atendida (os anjos estavam comigo!), desmaiei uma quarta vez. Foi punk! No final, fiz uma curetagem às pressas para estabilizar o quadro. Fiquei no hospital aquele dia todo. Saí de noite, com João indo me buscar. Só eu e ele, mais ninguém. Meus pais souberam apenas no outro dia. Era um momento nosso, de reunirmos forças para superar tudo aquilo. Diferente da primeira vez, em que eu (acho!) fui a força dele; dessa vez, ele foi a minha força. E ficamos bem. Estamos bem e queremos tentar de novo agora, depois de dois anos passados.

O que aprendemos com isso? Especialmente o que eu aprendi? Não era a hora! É muito claro isso pra mim. Nosso corpo é sábio e a gente, mulher, é muito forte! É preciso ter paciência e coragem pra entender. Repito: não controlamos tudo, como acreditamos. Eu disse antes que João e eu estávamos certos de que aquele era o melhor momento para ter um filho. Eu havia feito um planejamento pensando no lado profissional. Ou seja, eu tinha achado um espaço na minha agenda (santa inocência!). Mas vem o mundo e os acontecimentos e os sentimentos e tudo mais para dizer: “a vida não é assim!”. Ser mãe ou decidir ser mãe, no meu caso, é algo muito maior.

Nesses dois anos depois das perdas, passei por muita coisa importante em outras esferas da vida, o que inclui trabalho, relações familiares, autoconhecimento. A terapia me ajudou e muito nesse processo! Com ela, me dei conta de que precisava enfrentar outras questões… talvez outros fantasmas. Tenho um uma história familiar em que, em alguns momentos, a notícia de uma gravidez estava imersa numa zona caótica. Precisava lidar com isso. Precisei lidar com minha própria ideia de quem eu era como mulher e o de que eu acreditava ser naquele momento. Deu certo! Entendi, claramente, que antes de ser mãe, precisava daquele acerto de contas comigo e com a minha história. Foi mais difícil e intenso do que aquele trauma do segundo aborto. Mas foi excelente! Continua sendo… Nossa luta não para.

Estou pronta para ser mãe? Certamente não. Sei que a gente nunca está e que a gente vai aprendendo-fazendo-sendo. Mas algo é certo: estou DISPONÍVEL para.  Sem medo de tentar de novo. Mas e se acontecer novamente? É o risco. Também estou disponível para isso. Não importa. Isso é também já aprender a ser mãe. Esse é o meu recado.

Falei que conversei com outras mulheres que passaram por experiências parecidas com a minha. Para muita delas, ainda abaladas com a negação do corpo para a vida nova, pairava o medo de tentar de novo e a insegurança. Nada mais natural! Mas proponho pensar o seguinte: a gente é muito forte e nossa natureza é sábia. Se querer ser mãe, seja lá como for, cada uma a seu jeito e com sua história, é uma decisão de alma e coração, a nossa fragilidade se transforma em força. Força para o que der e vier. Vamos lá superar medos?

Geovana Soncin

Filha, esposa, aspirante a mãe, mulher em constante busca de equilíbrio no dia-a- dia para viver uma vida que vale a pena. Brasileira de natureza e parisiense de coração. Dona de uma fé que a mantém de pé. Linguista, pesquisadora e apaixonada pela linguagem. Com seu trabalho acadêmico, já fez algumas andanças por aí e descobriu que o essencial da vida se encontra na relação que construímos com o(s) outro(s) ao longo da nossa história. Amante de música, canta e toca violão nas horas vagas.



5 Comentários

  1. Gabriela
    Gabriela
    23/01/2018 / 13:59

    Fica firme! A minha história, como de tantas outras mulheres , é parecida com a tua. Quatro abortos, frustração, dor e impotência, ao fim de tudo, 02 filhos incríveis e super saudáveis. Boa sorte!!

  2. Geovana
    Geovana
    Autor
    30/01/2018 / 07:51

    Obrigada, Gabriela. É muito bom trocar experiências e receber energias positivas de quem já passou por experiências como as nossas. Tenho fé de que tudo vai dar certo na hora certa. Grande beijo!

  3. Luciana de Andrade Alho
    02/05/2018 / 23:16

    Oi Geovana!Escrevi no google: mãe sem filho e achei seu relato, parabéns por expor sua dor, por dividir, afinal como vc mesma disse: No momento da notícia a pergunta é:: Por que comigo?Ou:: Só comigo? Sou mãe sem minha bebe..Espero também em breve compartilhar disso para que mais mulheres saibam que não estão sozinhas em suas tristezas.Grande beijo!Paz e luz em seus caminhos!

    • FALAFRIDA
      FALAFRIDA
      03/05/2018 / 10:09

      Oi Luciana! Obrigada por seu comentário e por dividir um pouquinho da sua história com a gente. Ficaremos imensamente felizes em publicar seu relato. Quando quiser, envie para [email protected]. Beijos pra você!

    • Geovana
      Geovana
      Autor
      03/05/2018 / 12:25

      OI, Luciana.

      Obrigada por fazer sua voz se juntar à minha e à voz de tantas outras mulheres; Desejo também paz e luz nos seus caminhos e, sempre muita força. Esse espaço é exatamente pra isso: nos fortalecer ao compartilharmos nossas histórias. Seja bem vinda ao Falafrida. Grande beijo pra você.

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