Educação fora da caixa

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Há alguns meses atrás a Nicole escreveu uma resenha sobre o livro Para educar crianças feministas da Chimamanda N. Adichie. Este singelo trabalho realizado pela escritora nigeriana a partir de uma carta recebida transformou-se numa poderosa ferramenta para pensarmos acerca da relação entre feminismo e educação. A reposta de Chimamanda originalmente dirigida a uma amiga que tinha uma filha, permite, conforme a lúcida ponderação de uma querida frida, ampliar as reflexões a fim de englobar as crianças de um modo geral e não apenas as meninas. Claro que, ainda assim, estamos longe de abarcar as diferentes experiências vividas pelas crianças e suas mães e pais, mas talvez exista aí algum tipo de aproximação. Possivelmente a ideia poderia ser resumida assim: pensar uma educação feminista é pensar um mundo mais igualitário e esse é um direito de todas as crianças.

Partimos da prerrogativa de que existem montes de coisas que você ensina para suas filhas e filhos; e que tem um outro monte de coisas que você não ensina. E além do que você diz, tem também o que você faz, ou seja, você é um modelo ambulante para as crianças que você cria. Vamos lá elencar alguns pontos norteadores?

Primeiramente || qualquer criança precisa aprender a importância do CUIDADO | cuidar de si mesmo | cuidar do outro | cuidar das suas coisas | cuidar do planeta | é desfrutar | é limpar | é fazer a manutenção | é observar | é perguntar | é doar | é estar junto | é mostrar isso especialmente aos meninos | é mostrar que cuidar tem valor | que cuidar gera amor | e que nada disso é atividade de menina | é uma ocupação humana necessária e cheia de sentido | e deve ser praticada por qualquer pessoa desde bem pequena |

Segundamente || CRIAR JUNTO | mães e pais não precisam ser um casal | mas não só podem como devem dividir a criação das suas filhas e filhos | o pai pode fazer tudo, exceto gestar, parir e amamentar | portanto, pai não “ajuda”, pai assume, pensa e faz junto | ao mesmo tempo | agora | tudo | tudinho | porque dizer que “pai ajuda” é uma outra maneira de dizer que cuidar é “coisa de menina” | mas pera lá | nem mãe nem pai merecem tanto ou tão pouco protagonismo | partilhar a criação de uma filha ou filho devia ser o óbvio do óbvio | simplesmente não devia ser necessário falar disso | mas esse mundão aí é machista pra xuxu | então minha gente | guarda a preguiça no bolso | levanta o popô do sofá | e deixa de enrolar | cansaço aqui é o capeta | detalhe: ensinar a importância do cuidado é entrar na dança meu povo | bora |

Terceiramente || ensinar sobre IGUALDADE e DIFERENÇA | todas as pessoas têm humanamente e teoricamente os mesmos direitos | dito isso, o resto é desigualdade | então tem gente por aí cheia de privilégios | e precisamos dar nomes | entender e respeitar | o ponto de partida quase nunca é igual | então comparar é falsidade | o que tem é história que precisa ser conhecida | gente desumanizada | diferença é algo comum, normal | ensine a sua filha a ter orgulho de ser mulher | e diga ao seu filho que as mulheres vem sendo oprimidas há séculos | há muito machismo | sexismo | e racismo | e no entanto | todos as pessoas têm o mesmo valor | mas é preciso lutar por isso | lutar pra valer |

Quartamente || AUTOCONHECIMENTO | ajude a sua filha e filho a desenvolver a sua individualidade | ensine a ver as partes bonitas de si e a respeitar suas limitações | ensine a ter orgulho da sua história e das suas origens | insista no desejo singular que se manifesta ali naquela pessoinha | não deixe que regras sociais “matem” essa criatividade primária que todo ser humano traz consigo | mostre que o valor supremo está na autenticidade | nada vale mais do que deixar o seu traço único no mundo | não importa nada o seu gênero | e sim você | mais de você | não se trata de agradar | papo furado que as meninas aprendem | é de honestidade que falamos aqui | de coragem | de respeito |

Quintamente || por favor não estimule a SEXUALIZAÇÃO precoce | crianças não namoram | meninos não são machos | meninas não são princesas | crianças são crianças | pessoas sem gênero | o resto é coisa da sua cabeça de adulto | crianças querem brincar | querem ter amigos | querem viver espontaneamente o momento presente | não tem futuro nem passado | portanto respeite essa fase preciosa da vida | that’s all folks | outra coisa é conversar sobre sexo | importante e fundamental | mas aí sua filha ou filho já cresceu | é adolescente | então fale sério | e honestamente | não tem erro | é construir confiança | diga ao seu filho que mulheres são seres humanos | não são objetos | elas dizem não quando não querem algo | e sim quando estão a fim | isso se chama consentimento | e mais | fazer sexo engravida | e isso é responsa partilhada | simples assim |

Sextamente || ensine as crianças o gosto pela LEITURA | é através dela que elas vão entender e questionar o mundo | porque problematizar a linguagem é fundamental, uma vez que ela carrega nossas crenças, preconceitos e pressupostos | escolha com carinho o que você vai dizer e o que não vai dizer às crianças | rejeite piadas machistas | refine sempre mais o seu jeito de falar | converse sempre | mas escute antes | e mais |

Setimamente || DÚVIDAS? | deixe sua filha e filho brincarem com o que quiserem | e mais | ofereça opções variadas de brinquedos | tem muita coisa legal por aí | pergunte-se: você ensinaria isso ao seu filho? Então não ensine a sua filha | as crianças querem ser crianças e só | quem complica são os adultos | nós |

Ultimando || ser feminista é o básico | é o que qualquer criança tem o direito de aprender | enquanto adulto | por favor | alimente seus sonhos por um mundo melhor | e seja parceiro | afinal a opressão das mulheres é apenas o começo |


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