Virginia Woolf: uma breve biografia

Virginia Woolf

Virginia nasceu em Londres em 25 de janeiro de 1882. Era o fim da era vitoriana, período caracterizado pelo reinado da rainha Victoria, que durou quase 64 anos – o segundo mais longo do Reino Unido – de 1837 até sua morte, em 1901. Foi uma época de grande prosperidade para a Inglaterra, graças à expansão imperial que ocorreu nos quatro cantos do mundo. A população do país quase duplicou e a ciência avançou a passos largos. Em termos de costumes, a sociedade era extremamente puritana e valorizava a moralidade e a disciplina. Os homens dominavam os espaços públicos e às mulheres, restava a submissão, a dedicação ao lar e a educação dos filhos. A castidade era uma virtude a ser protegida. Qualquer tipo de insatisfação feminina era considerado um distúrbio de ansiedade a ser tratado com medicamentos, psicanálise e outros tantos métodos atualmente considerados controversos, para se dizer o mínimo.

Julia Jackson, mãe de Virginia, era viúva e mãe de 3 filhos, George, Stella e Gerald, quando conheceu Leslie Stephen, também viúvo e pai de uma filha, Laura. Juntos, tiveram Vanessa, Thoby, Virginia e Adrian. A filha mais jovem dos Stephen foi educada por seu pai e por professores particulares. Leslie Stephen era escritor e filósofo e possuía uma vasta biblioteca à qual Virginia, suas irmãs e irmãos costumavam fazer uso com toda liberdade.

Em 1895, aos 13 anos, Virginia viu sua mãe adoecer e, sem mais, simplesmente morrer. Sobre essa fase da vida, Virginia conta na página 47:

Sua morte foi o pior desastre que podia ter acontecido; foi como se, num dia cristalino de primavera, as nuvens se tivessem de súbito juntado, imobilizado e enegrecido; o vento uivava e todas as criaturas da terra gemiam ou vagueavam, procurando em vão.

E acrescenta: “O lugar que [Julia] ocupava na família era tal que sua morte não só apartou da nossa vista a figura central, como acarretou mudanças tão significativas nos relacionamentos que, durante bastante tempo, a vida nos pareceu incrivelmente estranha” (p. 55). No período que se seguiu à morte da mãe, Stella, então irmã mais velha, viu-se impelida a assumir parte do papel materno, situação que amenizou o luto de todos, em especial do pai de Virginia. No entanto, cerca de dois anos depois, outra morte atravessou o lar dos Stephen: dessa vez foi Stella, que partiu em 1897, aos 28 anos, vítima de uma peritonite, apenas 3 meses depois de seu casamento:

A sua morte […] inaugurou um período de melancolia oriental (p. 49).

Ainda na juventude, Virginia perdeu o pai em 1904 e o irmão Thoby em 1906, de quem era muito próxima. No ano seguinte, Vanessa casou-se com Clive Bell e aos 15 anos Virginia viu-se, de certo modo, sozinha no mundo.

A relação com o pai foi carregada de ambiguidade. Por um lado, partilhava o gosto pela leitura e pela escrita e costumava sentir um “orgulho pretensioso […] quando ele soltava uma exclamação de surpresa e satisfação ao descobrir que [ela] lia um livro que nenhuma criança da [sua] idade entenderia” (p. 136). Por outro, Virginia dizia que “mesmo agora [aos 48 anos] não consigo encontrar nada para dizer a respeito do comportamento dele, a não ser que era brutal. Se, no lugar de palavras, tivesse usado um chicote, a brutalidade não teria sido maior” (p. 174). Além disso, “ [..] o abismo entre nós foi cavado pela diferença de idades que nos separava. Duas épocas diferentes confrontavam-se na sala de estar de Hyde Park Gate [era comum dar nomes às casas na Inglaterra]. A era vitoriana e a era eduardiana [o rei Edward sucedeu a rainha Victoria no trono da Inglaterra]. Não éramos seus filhos; éramos seus netos. Deveria ter havido uma geração entre nós para amortecer o contato” (p. 176).

Com os irmãos George e Gerald, a relação tampouco fora mais tranquila. Tanto Virginia quanto Vanessa relataram os abusos sofridos:

 Certa vez, quando eu era muito pequena, Gerald Duckworth [meio-irmão de Virginia] pegou-me ao colo, sentou-me nele e começou a explorar meu corpo. Recordo a sensação transmitida pela sua mão deslocando-se por baixo da minha roupa, avançando firme e perseverantemente para baixo, descendo cada vez mais. Recordo o meu desejo de que parasse com aquilo; o modo como me retesei e contorci quando a mão dele se aproximou das minhas partes íntimas. Todavia, ele não parou. Explorou minhas partes íntimas também. Lembro-me de que isso me ofendeu, de não ter gostado: qual é a palavra certa para descrever um sentimento tão atônito e complexo? Deve ter sido forte, uma vez que ainda o recordo (p. 82-83).

Entre suas irmãs, sempre se sentiu muito ligada a Vanessa. Partiu dela a ideia de mudarem de casa após a morte do pai. Era o ano de 1905 e essa mudança inaugurou uma nova fase na vida de todos. Foi na casa de Bloomsbury que iniciaram reuniões com amigos em que discutiam os temas mais diversos – filosofia, literatura, arte, sexo: “naquele mundo povoado por homens, entrando e saindo naquela casa enorme de inúmeras divisões, formamos o nosso núcleo privado. Vejo-o como um pequeno centro sensível de vida intensa; de solidariedade instantânea” (p. 172).

Mais a frente, esse coletivo passou a ser chamado de Grupo de Bloomsbury. Alguns dos participantes eram nomes como Saxon Sydney-Turner, David Herbert LawrenceLytton StracheyLeonard Woolf, pintores como Mark Gertler, Duncan GrantRoger Fry, críticos como Clive Bell e Desmond MacCarthy e cientistas como John Maynard Keynes e Bertrand Russell. Foi numa destas reuniões que Virginia conheceu Leonard, um funcionário do governo britânico a serviço do colonialismo no Ceilão, que veio a tornar-se seu marido e parceiro na vida. Casaram-se em 1912 e não tiveram filhas ou filhos. Leonard sempre lia os textos de Virginia e a acompanhava em seus interesses. Foi um grande companheiro durante os inúmeros períodos em que Virginia se encontrou adoentada, em meio a ataques de pânico e crises de ansiedade.

Sobre a relação com a irmã Vanessa, Virginia recorda:

Exploradoras e revolucionárias, como ambas éramos por natureza, vivíamos sob a influência de uma sociedade uns cinquenta anos mais velha do que nós. Foi este fato curioso que tornou a nossa luta tão amarga e tão violenta. É que a sociedade na qual vivíamos era ainda a sociedade vitoriana. O meu pai era um vitoriano típico. George e Gerald [irmãos de Virginia] eram vitorianos aquiescentes e aprobativos. Assim sendo, tínhamos duas guerras para travar, uma contra eles individualmente e a outra contra eles socialmente. Nós vivíamos, digamos, em 1910; eles, em 1860 (p. 176).

No cotidiano, essas influências tinham um contorno particular:

Das dez a uma da tarde, a sociedade vitoriana não exercia sobre nós nenhuma pressão em especial. […]. Durante três horas, vivíamos num mundo que ainda hoje habitamos, pois, neste momento (novembro de 1940), ela está a pintar em Charleston e eu estou a escrever aqui, no meu escritório, no jardim de Monks House.  […] A sociedade vitoriana começava a exercer a sua pressão por volta das quatro e meia. Em primeiro lugar, tínhamos de estar em casa; uma de nós, sem dúvida, preferencialmente as duas; porque havia que servir o chá ao meu pai. […] era necessário estar presente, uma vez que o meu pai não iria servir o chá para si mesmo na sociedade daquele tempo (p. 178).

Desde muito pequena, Virginia tinha o hábito de ler e escrever. “Havia muito para aprender, livros para ler, e o sucesso e a felicidade deviam aí ser alcançados sem deslealdade” (p. 57). E esse era um hábito que custava muito pouco (lápis, papel, uma mesa e um pouco de silêncio), portanto, ela nunca foi muito importunada por fazê-lo. Apesar disso, Virginia ressentiu-se durante toda a vida por não ter tido a oportunidade de frequentar a universidade, tal qual seus irmãos. Foi somente em 1915, aos 33 anos, que Virginia teve seu primeiro livro publicado. Mesmo tendo trabalhado como jornalista a partir de 1900, nada se comparava a colocar um livro no mundo. Porém, as semanas que se seguiam às publicações de seus escritos sempre foram um tormento para ela – provavelmente até o fim de sua vida.

Em 1917, Virginia e Leonard abriram uma editora, a Hogarth Press. Logo transformou-se num negócio e passou a publicar livros do Grupo Bloomsbury, entre outros, como T. S. Eliot. Virginia, por sua vez, tornou-se uma das escritoras mais importantes do século XX. Seu trabalho foi uma constante ruptura com a moral vitoriana na qual foi criada. Escreveu inúmeros romances e discutiu com muito empenho a condição feminina. Falou de sexo, trabalho, dinheiro e papeis de gênero – mesmo sem usar estas palavras. A atualidade de suas reflexões é impressionante. E ainda hoje não conseguimos superar muitas das contradições apontadas por Virginia.

A sua morte foi, sem dúvida, um momento trágico. Era 1941 e Virginia somava angústias e inquietações. Seu último livro, a biografia de Roger Fry, havia sido recebido com frieza pela crítica e sentia-se deprimida. Sob suas cabeças, “a batalha estava no auge” e a guerra “aproximava-se de suas casas”. O destino era incerto e, sobre ele, Virginia declarou: “se formos derrotados – como quer que resolvamos esse problema, e uma das soluções é aparentemente o suicídio (assim decidimos entre nós há três noites, em Londres), escrever livros torna-se uma possibilidade duvidosa” (p. 122).

Ao decidir pelo suicídio, fez questão de deixar uma carta ao marido Leonard:

Querido,
Tenho certeza de que enlouquecerei novamente. Sinto que não podemos passar por outro daqueles tempos terríveis. E, desta vez, não vou me recuperar. Começo a escutar vozes e não consigo me concentrar. Por isso estou fazendo o que me parece ser a melhor coisa a fazer. Você tem me dado a maior felicidade possível. Você tem sido, em todos os aspectos, tudo o que alguém poderia ser. Não acho que duas pessoas poderiam ter sido mais felizes, até a chegada dessa terrível doença. Não consigo mais lutar. Sei que estou estragando a sua vida, que sem mim você poderia trabalhar. E você vai, eu sei. Veja que nem sequer consigo escrever isso apropriadamente. Não consigo ler. O que quero dizer é que devo toda a felicidade da minha vida a você. Você tem sido inteiramente paciente comigo e incrivelmente bom. Quero dizer que – todo mundo sabe disso – se alguém pudesse me salvar teria sido você. Tudo se foi para mim, menos a certeza da sua bondade. Não posso continuar a estragar a sua vida. Não creio que duas pessoas poderiam ter sido mais felizes do que nós.

V.

*  As citações deste texto referem-se ao livro Momentos de Vida, uma coletânea que reúne cinco textos autobiográficos de Virginia Woolf.

** Este texto foi escrito a quatro mãos, por Nicole Spohr e Bianca Spohr.


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