Dinheiro e liberdade

Foto | Quentin Keller

Até que ponto o fato de as mulheres ganharem seu próprio dinheiro significa que elas têm liberdade? O que um salário garantido no fim do mês traz para as mulheres? Dignidade? Reconhecimento? Poder? Escolhas? Conforto?

Muitas perguntas, poucas respostas. Para ampliar esta reflexão, recorro a Virginia Woolf. É impressionante a atualidade de uma obra da escritora inglesa publicada em1929. Um ano antes, Virginia havia sido convidada para falar sobre mulheres e ficção. O resultado foi a publicação do livro Um teto todo seu. Após muito ponderar, ela defende que, para ter liberdade de falar o que quiser, é preciso que a mulher tenha um lugar para morar e uma renda anual mínima. Em outras palavras, é preciso estabilidade financeira para se ter liberdade de expressão. Nas palavras dela:

A mulher precisa ter dinheiro e um teto todo seu se pretende mesmo escrever ficção.

Virginia teve a sorte de ganhar uma herança de uma tia não muito próxima, que morreu enquanto cavalgava na Índia nos tempos do colonialismo britânico. Graças a ela, Virginia conta que um belo dia deu

ao garçom uma nota de dez xelins e ele saiu para buscar o troco. Havia outra nota de dez xelins em minha bolsa; reparei nela ali, pois esse é um fato que ainda me tira o fôlego: o poder de minha bolsa de gerar automaticamente notas de dez xelins. Abro-a e ali estão elas.

Que liberdade é essa que a multiplicação automática de notas dentro da bolsa traz para uma mulher? Não precisar continuar em uma relação abusiva por não ter como se sustentar é, certamente, uma vantagem. Quantas mulheres continuam acorrentadas a seus agressores, aceitando serem maltradas e violentadas por este deter a única fonte de renda da família?

Virginia comenta ainda que a estabilidade financeira deu a ela uma nova perspectiva em relação aos homens:

É impressionante […] a mudança de ânimo que uma renda fixa promove. Nenhuma força no mundo pode arrancar-me minhas quintentas libras [anuais]. Assim, cessam não apenas o esforço e o trabalho árduo, mas também o ódio e a amargura. Não preciso odiar homem algum: ele não pode ferir-me. Não preciso bajular homem algum: ele nada tem a dar-me. Assim, imperceptivelmente, descobri-me adotando uma nova atitude em relação em relação à outra metade da raça humana.

Então será que tendo uma renda própria não precisaremos mais depender de homem nenhum e a guerra entre os sexos chegará ao fim? Mas e quanto às mulheres que escolhem não ter uma renda para se dedicar a outras atividades, como um filho, o cuidado de alguém, um livro, uma pesquisa? Estarão elas automaticamente oprimidas por quem as sustenta? Creio que este também não é o caso. Ter dignigidade e ser respeitada em um relacionamento não deveria implicar em um contra-cheque igual ao do parceiro. Pois cada um contribui com o que pode em cada momento. Ou não?

O problema desta conjuntura, na minha visão, é que o trabalhar “dentro de casa” gera uma grande invisibilidade para este tipo de atividade. A sociedade não vê; portanto, não tem valor. Então, além de não ter uma renda por dedicar suas horas ao cuidado de um filho, por exemplo, aquela mulher provavelmente ficará sem dinheiro e sem reconhecimento. Duro, não? Seria o caso de a sociedade se organizar para pagar a estas mulheres por seu tempo dedicado ao cuidado da próxima geração? Muitos países já fazem isso, por meio de benefícios pagos aos cuidadores de crianças pequenas.

É, o assunto é espinhoso e estou longe de encontrar uma solução. E para você, qual é a relação entre dinheiro e liberdade?


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