Engomando toalhinhas

Sou a filha caçula. Tenho dois irmãos.

Família de origem italiana, com mãe brava e pai bonzinho.

Talvez a vida tenha levado minha mãe a ser tão dura. Os conflitos com os filhos, muitas vezes inexistentes, foram todos resolvidos com base na surra. Como fui a terceira, apanhei menos (ela foi se suavizando com o tempo), mas com certeza fui a criança mais cheia de responsabilidades no serviço doméstico. Aos meninos cabiam as brincadeiras, as traquinagens, as aprontações. A mim? A louça limpa para ser enxuta, o esfregão depois do chão encerado (demorou para aparecer a tal da enceradeira!), a roupa seca e limpa para ser dobrada e a espera da maldita sexta-feira, dia obrigatório da limpeza geral. Neste dia, tinha que fazer a goma de maisena com água quente, e engomar as infinitas toalhinhas que enfeitavam os móveis e suportavam os bibelôs de porcelana e os vasos com flores artificiais.

Os móveis deveriam ser limpos e depois lustrados com lustra-móveis.

Foto | Fabiana E. Agnelo

Minha mãe sempre cozinhou muito bem e apesar da comida simples que era feita no dia da limpeza, guardo seu gosto com saudades na memória. Era uma mistura requentada de arroz com feijão do dia anterior, com ovo frito é só! Mas era tão bom!  Quando eu elogiava, ela dizia que é porque eu estava com fome, e estava mesmo! Era muito trabalho para uma menina tão pequena!

Com seis anos eu já sabia bordar. Pra quem não acredita, tenho ainda uma toalhinha (que ódio tenho de toalhinhas!) para mostrar.

Acima da necessidade que tenho de contar esta história, vai aqui um desabafo e uma queixa, de uma agora senhora, que gostaria de ter brincado mais com seus irmãos mas que precisava ajudar muito a mãe, só porque era menina.

Izilda Bitencourt

64 anos, professora, metida a costureira, bordadeira, crocheteira e cozinheira. Aprendiz das relações humanas.



4 Comentários

  1. Nicole
    Nicole
    24/11/2017 / 09:24

    Texto lindo e emocionante! Obrigada, Zizou!

    • Renata
      26/11/2017 / 00:33

      Da para sentir toda a sua emoção. Escreve lindamente.
      Beijos, Izilda.

  2. Teresa
    24/11/2017 / 23:25

    Muito lindo. Foi assim a fui criada.

  3. Maria de Fátima Navarro Lins Paul
    Maria de Fátima Navarro Lins Paul
    28/11/2017 / 07:56

    Izilda, querida! Temos tanto em comum, não é mesmo? Mas nessas lembranças, levo uma vantagem: sou única filha mulher com três irmãos. E minha mãe dividia os trabalhos vde casa por todos nós. Com a ressalva que encerrar a casa e passar o esfregão, que nós chamávamos de vassourão, era tarefa deles. Mamãe sempre foi defensora de causas feministas.
    Adorei teu texto!

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