Nem machismo, nem feminismo?

Foto | Matheus Ferrero

Esta é uma sentença comumente proferida por mulheres e homens que não querem se envolver com as demandas da agenda feminista atual. Ou ainda pelos que acham que o feminismo não é (mais) necessário. Mas será que essa ideia faz sentido?

Vamos por partes. O que é machismo? Machismo é um sistema de opressão que coloca tudo que é masculino como superior ao feminino. Machismo é um modo de ver e viver o mundo em que os homens detêm direitos e oportunidades que as mulheres não têm. Machismo é homem ganhando mais do que mulher para desempenhar a mesma função. Machismo é impedir as mulheres de escolherem livremente quantos filhos querem ter (incluindo nenhum) e que profissão querem seguir. Machismo é o que está por trás de uma cultura que naturaliza a violência contra a mulher, seja ela psicológica, física, patrimonial ou sexual. Machismo é o que permite que a cada 11 minutos uma mulher seja estuprada no Brasil. Eu poderia ficar o dia todo descrevendo o que é machismo, mas acho que deu pra entender né?

Então a parte do “nem machismo”, estamos de acordo? Ninguém quer ou deveria querer o machismo. Nem mesmo os homens. Beleza? Mas e o “nem feminismo”?

Vamos de novo ao beabá da coisa. O que é feminismo? Feminismo é um movimento que luta pela igualdade de direitos e oportunidades entre homens e mulheres. Feminismo é não encerrar as mulheres à maternidade e ao lar, caso elas não queiram. Feminismo é permitir que mulheres sejam parlamentares, astronautas ou bombeiras. Feminismo é dividir igualmente com os companheiros as tarefas domésticas e o cuidado com os filhos. Feminismo é uma ampliação dos papeis de gênero para que homens possam chorar e ser sensíveis, caso queiram, e para que mulheres possam ser duronas e fortes, caso o desejem. Feminismo é uma luta pelo fim da violência contra a mulher. Feminismo é viver em um mundo em que não são necessárias delegacias da mulher ou casas para receber mulheres que fogem de seus companheiros agressores. Feminismo é um sistema milagroso em que meninas não precisam ter medo de andar na rua à noite.

Se não ficou claro ainda, deixa eu parafrasear Margaret Atwood sobre o estágio do mundo em que vivemos:

Homens têm medo de que as mulheres vão rir deles. Mulheres têm medo de que os homens vão matá-las.

Então será que a parte do “nem feminismo” faz sentido? Minha sensação é que muitas pessoas ainda confundem essa palavra e acham que feminismo é uma espécie de supremacia feminina. Que as mulheres vão assumir a presidência de todos os países e de todas as corporações do mundo e que os homens vão viver sob chibatadas para nos servirem sexualmente. Gente, não é isso. E, só pra constar: a supremacia das mulheres sobre os homens tem até nome, é o femismo. E isso não é feminismo.

Então dá próxima vez que você ouvir essa frase, não deixe passar em branco, não perca a chance de explicar que feminismo é sobre igualdade. Apenas isso.

Nem machismo, nem feminismo? Feminismo sim. meu amor!

Nicole Spohr

Fundadora e editora do FF, mãe do Guto e pesquisadora. Andou meio mundo pra fazer uma tese de doutorado que valesse a pena, mas foi a maternidade que virou sua vida de cabeça pra baixo. Entendeu que mulheres, juntas, têm muita força. E que podem transformar o mundo. Acredita que vale a pena batalhar por crianças feministas e por direitos humanos.



2 Comentários

  1. Felipe Figueiredo
    28/07/2018 / 13:59

    Sra. Nicole, se feminismo é igualdade de direitos entre homens e mulheres como estais tratando acima, porque ao invés deste nome não utilizar um neutro que represente respeito e bom-senso?

    • FALAFRIDA
      FALAFRIDA
      30/07/2018 / 09:43

      Olá Felipe! Em primeiro lugar, lamento informar, mas neutralidade não existe. Podemos (e devemos) persegui-la, mas, de fato, ela não existe. Tudo que acontece é político, histórico e localizado geograficamente. Nada está “à margem”, entende? A escolha de uma palavra para caracterizar um movimento, por exemplo, é algo que aconteceu em um determinado ano de determinada década (o que já diz muito sobre o panorama histórico), bem como em um determinado lugar (Estados Unidos, Gana, Israel, – porque isso traz contexto) e por determinada pessoa (homem, mulher, de determinada idade, raça, etc). Tudo que acontece tem alguma motivação, seja ela política, econômica ou social. Dito isso, encontrar uma palavra “neutra” para um movimento que busca nomear e denunciar violências perpetradas historicamente contra as mulheres é algo no mínimo problemático. E nem poderia ser diferente, não acha?
      O feminismo busca justamente descortinar opressões que as mulheres do mundo todo vêm sofrendo sistematicamente por séculos – muitas vezes dentro de suas casas. Falamos de FEMinismo porque o mundo ainda é, em larga medida, um mundo MACHista, um mundo dos homens. São eles que detêm o poder político e econômico na maioria dos países do globo. O feminismo não é um movimento que busca trazer conforto; ao contrário, ele precisa desestabilizar, incomodar – para que haja mudança social. No Brasil, a cada 11 minutos, uma mulher sofre violência sexual. No mundo todo, mulheres vêm tendo seus direitos básicos violados, vem sendo traficadas, estupradas e assassinadas em massa há séculos. Ontem mesmo saiu na mídia o caso de uma mulher que foi jogada da sacada pelo próprio marido! Por tudo isso, respeito e bom senso é o que nós mulheres merecemos e lutamos através deste movimento chamado feminismo. Para entender mais, sugiro a leitura destes dois artigos que já saíram no Fala Frida: https://falafrida.com.br/2017/06/05/e-voce-e-feminista/ e https://falafrida.com.br/2018/06/28/o-que-a-caca-as-bruxas-tem-a-ver-comigo-e-contigo/.
      Um abraço!

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