Comprei brincos novos

Foto | Ewelina Karezona Karbowiak

Consegui o emprego dos sonhos. Eu era qualificada e estava louca para colocar em prática tudo o que eu tinha aprendido. Não tardou, no entanto, pra eu perceber que o ambiente de trabalho não era lá muito acolhedor. Grande parte dos meus colegas e superiores era homem e eu logo comecei a ouvir comentários sexistas.

Começou com um “como você está bonita hoje”. Em outra ocasião, eu estava com uma calça folgada, camisa preta abotoada até o pescoço e um batom de um tom de rosa um pouco mais escuro do que de costume. Ouvi de um superior que eu estava “dressed to kill”. Também tive que ouvir que era bem melhor ficar olhando para a minha cara do que para a “cara feia” de um colega homem durante determinada reunião. Era pra achar isso bom? Ah, tá.

Não muito depois disso, decidi não mais usar saia ou vestido porque sempre acabava tendo que ouvir algum comentário sobre minha aparência. Simplesmente risquei esses itens do meu armário de trabalho. Passei a vestir camisas, calças sociais soltas e brincos fixos bem discretos na orelha.

Comecei a me questionar. Será que eu não estava me vestindo de forma adequada para trabalhar? Por que minha aparência era alvo de conversas? Estaria eu ficando louca ao me sentir desconfortável com aqueles “elogios”? O ambiente de trabalho é um local adequado pra esse tipo de comentário? Era pedir muito que apenas meu trabalho estivesse em pauta? O que eu vivi é algum tipo de assédio? Parecia tão “brando”, comparado a tantas histórias terríveis que ouvimos por aí.

Mas aquelas situações me feriam, me constrangiam. Fui me fechando, aos poucos, para o mundo. Fui mais e mais me escondendo embaixo de roupas largas e “masculinas”, esqueci que saias e vestidos existiam, usava o mínimo de maquiagem e tentava  passar furtivamente pelos corredores para que não fosse vista.

De acordo com Thaís Dumêt, oficial-técnica da Organização Internacional do Trabalho, assédio sexual no trabalho é “todo ato, gesto e insinuação de natureza sexual que constrange e intimida outra pessoa”. Esse vídeo traz diversos relatos de assédio no ambiente de trabalho e mostra como esse é um crime rotineiramente silenciado. Então eu vivi sim um tipo de assédio – hoje eu posso nomear, com todas as letras. E infelizmente não estou sozinha. O Locomotiva Instituto de Pesquisa identificou que 31% das mulheres entrevistadas em 2016 haviam sofrido alguma forma de assédio no trabalho por parte de um superior. A brilhante campanha Chega de Fiu Fiu, lançada em 2013, ajudou a descortinar essa triste realidade.

Hoje não trabalho mais lá. De uns tempos pra cá, percebi que estava na hora de fazer as pazes com as saias e os vestidos. Não tem nada de errado com minha aparência. Comprei até uns brincos novos, grandes! Dia desses encontrei uma saia de um comprimento que nunca havia usado antes (midi) que é até meio rodada, linda! E me sinto ótima ao vesti-la. Devagarinho, estou aceitando colocar pra fora uma certa feminilidade que tinha ficado guardada a sete chaves como forma de proteção. Talvez agora eu consiga me defender mais desse tipo de comentário. Tomara.

Você já passou por algo parecido? Quer dividir sua experiência com a gente?

Nicole Spohr

Fundadora e editora do FF, mãe do Guto e pesquisadora. Andou meio mundo pra fazer uma tese de doutorado que valesse a pena, mas foi a maternidade que virou sua vida de cabeça pra baixo. Entendeu que mulheres, juntas, têm muita força. E que podem transformar o mundo. Acredita que vale a pena batalhar por crianças feministas e por direitos humanos.



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