Quero ter um filho vegetariano

Foto | Dan Gold

Em um dos primeiros posts que escrevi, falei que ser mãe é uma oportunidade de mudar tudo. Tudo aquilo que não nos agrada, que já vinha nos incomodando há um tempo… Pode ser algo que decidimos transformar na nossa vida por amor ao ser que colocamos no mundo ou para estar mais de acordo com a nova pessoa que nos tornamos neste processo.

Hoje vou falar um pouco sobre como a maternidade me levou a virar vegetariana. Tudo começou com uma conversa sobre como ensinar nossos filhos a cuidar do meio ambiente. Num desses papos, uma amiga me explicou que diminuir o consumo de carne causava muito mais impacto positivo do que tomar um banho rápido ou apagar todas as luzes da casa. Fiquei intrigada e decidi pesquisar. Assisti ao documentário Cowspiracy (tem no Netflix) e aí minhas pesquisas sobre o assunto não pararam mais. Então por que faz sentido pra mim ser vegetariana?

O  meio ambiente agradece A pecuária é altamente prejudicial ao meio ambiente. A criação de gado para consumo é hoje a principal razão para o desmatamento da Amazônia. Além disso, para produzir um quilo de bife, a quantidade de água necessária é enorme, algo como 15 mil litros segundo a Superinteressante. Comer um hamburguer significa um gasto de água equivalente a dois meses de banho. DOIS MESES. É bastante coisa. Esse vídeo do Greg News esclarece, de forma bem humorada, muitas das questões relacionadas à carne e o meio ambiente. O pum da vaca também produz uma quantidade absurda de metano, o que impacta mais no efeito estufa do que os transportes no caso do Brasil (novamente segundo a Superinteressante).

Você fica mais saudável A segunda razão que me convenceu a virar vegetariana foi a saúde. Comer carne significa que estamos colocando um bicho morto dentro do nosso corpo. Sei que isso soa macabro – porque é mesmo. O estômago humano precisa de quase o dobro de ácido para digerir uma quantidade de carne, em comparação com um pão. Outro aspecto é que o consumo de derivados de animais está ligado às doenças que mais matam na atualidade: diabetes, infarto, obesidade, colesterol, pressão alta e problemas do coração. Países cuja população come mais carne sofrem mais com esses problemas. O documentário What the Health, do mesmo autor do Cowspiracy, traz muita informação sobre isso. Também tem o Food Matters, Food Choices e Live and Let Live, todos no Netflix.

Desnaturalizando a crueldade Se diminuir ou eliminar o consumo de carne faz bem para o planeta e para nossa saúde, acabei percebendo que também faz bem para alma. Não comer animais também é uma questão moral. Muitos de nós estão acostumados a comer bichos desde a infância e acabamos aprendendo que é assim mesmo e que toda a crueldade envolvida em assassinar e esquartejar outros seres para comer é algo aceitável. Mas não precisa ser, se você não quiser. Muitas crianças, ao entenderem que aquele “bifinho” no prato vem da vaca que ela tanto gosta ou que para aquele “franguinho” estar no ensopado, foi preciso matar a galinha, entram em crises existenciais como esse menino aqui. E com razão, a meu ver. Você pode argumentar que a evolução da humanidade só foi possível porque o ser humano passou a comer carne e que isso foi importante. Ok, pode até ser. Mas nós não estamos mais na Idade da Pedra e hoje a ciência mostra que é perfeitamente possível viver com saúde sem consumir animais. Aqui a Monja Coen fala lindamente sobre escolhas alimentares. Pense no seu gato ou cachorro de estimação. Agora pense se, de uma hora pra outra, passássemos a fazer churrasco deles. Não seria cruel demais? Então o que as pobres vacas, galinhas, patos, ovelhas e porcos têm de diferente destes animais que gostamos tanto de amar e proteger?

Foram essas as três razões principais que me fizeram repensar o que coloco no meu prato. Refleti muito sobre o que eu estaria ensinando ao meu filho através da comida. Reduzir ou eliminar o consumo de carne tem um impacto tremendo no meio ambiente, na saúde e na construção de um mundo mais amoroso com todos os seres. Se foi difícil? Acho que o mais complicado foi quebrar todos esses paradigmas na minha cabeça, já que venho de uma família gaúcha e carnívora. E este processo continua em curso. Eu comecei adotando a Segunda sem carne. Depois virei vegetariana durante a semana. Depois ficou esquisito comer carne até no final de semana, passei a comer só peixe, depois não mais… Enfim, tem sido um processo gradual e respeitoso comigo mesma. Meu marido, por exemplo, é vegetariano só dentro de casa… rs

Mas vou comer o que? Bem, virar vegetariano envolve reformular seu prato de comida. Se você já come leguminosas com frequência (diferentes tipos de feijões, lentilha, grão de bico, ervilha), provavelmente não terá que adicionar nada na sua dieta. Gosto muito desse canal no Youtube do Dr. Eric (também tem livros sobre o assunto), onde ele explica os pormenores da alimentação sem carne. Mas em resumo, se um adulto comer uma concha de feijão no almoço, ele vai ter consumido a quantidade necessária de proteínas para aquele dia. Se você tiver uma dieta variada, não precisa adicionar mais nada. O único nutriente que uma dieta vegetariana pode não suprir de forma satisfatória é a vitamina B12. Mas isso depende se você consome laticínios e ovos e também depende do modo que seu corpo metaboliza a vitamina, que é algo muito variável. Exames de sangue periódicos e o acompanhamento de um profissional são suficientes para saber se está tudo certo com seus nutrientes. Vale lembrar que acompanhamento nutricional não é só pra quem é vegetariano. Tem muita gente que come carne e que está cheia de deficiências nutricionais. O que acontece é que muitas pessoas simplesmente não fazem um acompanhamento adequado e quem resolve mudar a dieta passa a prestar mais atenção nesses assuntos.

Muitos me perguntam sobre a questão do prazer e da vida socialao se tornar vegetariano. E eu sempre respondo que existe um mundo maravilhoso de delícias vegetarianas (algumas opções de receitas aqui, aqui, aqui e aqui). Nunca deixei de encontrar amigos por causa das minhas escolhas alimentares. Claro que não é fácil ser a única vegariana em um churrasco, mas assim como você tem todo o direito de não gostar de pimentão (ninguém vai te obrigar a comer ou fazer cara feia se você não quiser, né?), você pode não gostar mais de carne. E logo as pessoas se acostumam e respeitam sua decisão. Não comer carne envolve um outro tipo de prazer, que, além do gosto da comida, é estar em paz com o fato de que nenhum ser teve que morrer para te satisfazer, que você não está contribuindo para a degradação do meio ambiente e que você ainda está fortalecendo sua saúde. Tudo isso me dá muito prazer. E leveza.

No título desse texto, falo que eu desejo ter um filho vegetariano. Sim, porque a decisão será dele. Ao longo do tempo e na medida em que ele tiver maturidade pra entender, vou explicar todas as questões que apontei nesse texto. Porém, se qualquer dia desses ele quiser provar um pedaço de picanha, eu vou deixar. E ele vai escolher o que fazer em relação a isso. Mas como ele tem só 2 anos, eu ainda consigo controlar bastante o que ele come, seja em casa ou na escola. Esse é o exemplo que eu quero ser pra ele.

Nicole Spohr

Fundadora e editora do FF, mãe do Guto e pesquisadora. Andou meio mundo pra fazer uma tese de doutorado que valesse a pena, mas foi a maternidade que virou sua vida de cabeça pra baixo. Entendeu que mulheres, juntas, têm muita força. E que podem transformar o mundo. Acredita que vale a pena batalhar por crianças feministas e por direitos humanos.



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