Padecendo no paraíso

Foto | Delfi de la Rua

Não curto escrever sobre maternidade e filhos. Sempre acho meus textos sobre o assunto meio pretensiosos. Como todas as mães, sempre exagero na admiração pela minha prole, até os defeitos me divertem, mas acho que pras outras pessoas é um pouco chato. As crianças são sempre interessantes pra quem as ama loucamente.

Ocorre que uma das fridas pediu pra eu escrever. Me disse que as leitoras do Fala Frida têm filhos pequenos e que seria um alento ouvir uma mãe com filhos mais velhos.

Recusei de cara porque sei que não posso oferecer nenhum consolo pra quem enfrenta o desafio de criar outro ser humano. Tenho dentro de casa um dos exemplares da espécie humana mais difíceis de lidar. Um adolescente sem nenhum juízo que quer voar, praticamente reprovado no oitavo ano, é uma criatura doce, carinhosa e sedutora. Amo-o de um jeito que me emociona, me arrebata, mas fazer dele um sujeito legal suga todas as minhas energias e todo o meu dinheiro, queima os meus neurônios e leva os meus nervos ao limite.

Sou uma pessoa naturalmente exagerada, mas criar filhos não é moleza. Então resolvi escrever, vamos chorar abraçadas!

A maternidade, como tudo na vida que a gente quer fazer direito, exige muita entrega, estudo, planejamento, organização e amor.

E, como a própria vida, alguma coisa sempre sai dos trilhos, o inesperado nos surpreende, os planos não dão certo. Não importa o quanto a gente se preparou, a coisa tem vida própria, literalmente. E tem um detalhe, pequeno detalhe: a gente não pode desistir, pedir demissão, se separar, encerrar a empresa, partir pra outra, o negócio é pra vida toda.

A maternidade vai nos dando uma lição atrás da outra, é um sacode sem fim, porque as coisas que a gente planejou, nunca saem, exatamente, como a gente planejou. Parto, amamentação, alimentação, desenvolvimento motor, alfabetização, relacionamentos, saúde e um sem fim de outras coisas dependem de inúmeras variáveis que a gente simplesmente não controla.

Não consegui ter nenhum parto normal, a amamentação foi um tormento, felizmente o desenvolvimento deles foi dentro do esperado, não tenho nenhum problema com a alimentação, mas crio dois seres humanos absolutamente diferentes, com demandas e características que me desafiam a todo instante.

Os primeiros três anos foram de muita ralação física e intelectual. Melhorou muito na fase que chamo de “fase de ouro da infância”, dos quatro até os nove, se o teu filho não tiver nenhum problema de saúde, dificuldade de aprendizado ou de interação social, você vai ter um pouco de tranquilidade. Mas quando chegar perto da adolescência você vai rachar a cabeça e, às vezes, o coração, para fazer dele uma pessoinha decente.

Tô aprendendo a ser mãe faz, quase, quatorze anos e, recentemente, tomei um sacode bonito. Daqueles que te deixam atordoada.

Olho pros meus filhos e os acho infinitamente mais bem preparados pra vida do que eu e meu marido, o pai deles, fomos. São mais inteligentes, mais bonitos, praticam esportes, fazem inglês desde os cinco anos, estudam num ótimo colégio, têm formação espiritual, viajam, conhecem o mundo bem além da nossa cidade, são feministas, politicamente corretos sem serem chatos, têm senso de humor, paladar apurado e, modéstia à parte, pais super interessados, que correm atrás, participam de tudo, estudam junto, dão afeto, estimulam.

Conclusão lógica pra mim, mãe aquariana: eles têm potencial transformador, podem contribuir pra que o mundo seja um lugar melhor, tem responsabilidade social, vão quebrar tudo, arrasar quarteirão, ahhh esses meus filhos incríveis!!

Só que não!!! De onde eu tirei toda essa bobagem? Eu que sou metida a ser a mais cool, relax na educação dos filhos, acho até que eles nem precisam fazer faculdade se não quiserem, agora inventei que as duas criaturas precisam salvar o planeta. Pirei, né? E o pior? Falei isso pra eles. Mais de uma vez.

E se o meu menino arranjar um emprego banal, tiver um vida comum, como a minha? E se a minha menina quiser casar cedo e ter filhos? Eles podem ser e fazer o que bem entenderem, eu não domino isso e todas as minhas expectativas vão pesar cruelmente sobre eles se eu não parar com essas maluquices.

Vocês já imaginaram o quanto vai doer se o meu filho rodar? Vai doer muito, porque eu inventei essa bobagem. Rodar não é nada demais. Acho até que pra ele vai ser uma oportunidade de amadurecimento e que talvez faça diferença para melhor na vida dele, no futuro.

Mas se a mãe acha que o cara vai ser o Obama, aí vai ficar mais difícil, né? Pra ele e pra mim. Nem preciso dizer que o mês de dezembro virá com fortes emoções.

Enfim, não tenho boas notícias. A maternidade é isso aí, aprender, aprender e aprender, não desistir, não desistir e não desistir. Que sorte a nossa, hein?

Beijo para vocês!


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