O dilema da tese e do bebê

Foto | arquivo pessoal

Muitos me consideraram louca desde o começo. Engravidar com uma tese de doutorado pra terminar? Como assim? A questão é que escolher ter um filho é uma decisão muito íntima. O melhor momento, o melhor contexto…  E pra mim estava tudo perfeito para gerar um filho.

Durante a gravidez, consegui manter meu ritmo normal de trabalho. Só no último mês, com aquele barrigão, é que as coisas não renderam muito. Guto nasceu no dia 31 de outubro de 2015. Parto lindo, tudo certo, mas a amamentação levou exatos dois meses pra engrenar. Contei essa história aqui.

Superado esse perrengue, na primeira semana de janeiro de 2016 – meu filho com dois meses de vida – eu voltei a trabalhar. Eu tinha até julho do mesmo ano pra terminar minha tese. Tentei vários arranjos, até definir o seguinte: ficava com ele o dia todo, sem pensar na tese, e à noite, depois que ele dormia, eu trabalhava, das 20h às 23h. Nos finais de semana, ia das 9h às 15h mais ou menos. E assim as coisas foram caminhando.

Fechar uma tese é sempre um processo difícil. Tem gente que diz que a tese só acaba quando termina o tempo. Pode ser. Como colocar fim em um trabalho de quatro anos e meio? Como organizar os dados de modo a contar o que eu vi durante a pesquisa de campo? Que contribuição eu trouxe para meu campo de estudo? O que eu concluo, então?

Fácil, não foi. Em vários dias, achei que fosse pirar e que nunca conseguiria terminar. Mas aí meu “turno” de estudos do dia acabava, eu tinha meu bebê fofo pra amamentar e ninar por horas a fio até o turno seguinte… E esses momentos com ele aliviavam a minha tensão de terminar a tese. Naquelas horas, eu era mãe em tempo integral. E quando eu começava a cansar daquela vida de mamá, sling e fraldas, eu tinha minha tese pra me conectar de volta no mundo. E assim, apesar de cansativo, eu acabei encontrando um equilíbrio. O Guto me salvava da tese e a tese me salvava do Guto.

A vida é mesmo muito louca às vezes. Certos desafios se colocam no nosso caminho e parece que não vamos conseguir ultrapassá-los. Mas aí descobrimos que temos uma força muito maior do que imaginávamos. A maternidade foi assim pra mim. E o doutorado também. Estou certa de que o fim da tese foi diferente pelo fato de eu ser mãe. Foi melhor ou pior? Não saberia dizer. Mas meu filho despertou em mim uma vontade ainda maior de fazer algo que valesse à pena. E ele reforça isso em mim a cada dia, até hoje.

Então, no dia 15 de julho de 2016, eu defendi minha tese de doutorado e fui aprovada! E o melhor de tudo? Meu bebê-delícia estava do lado de fora da sala me esperando para me amar…

Nicole Spohr

Fundadora e editora do FF, mãe do Guto e pesquisadora. Andou meio mundo pra fazer uma tese de doutorado que valesse a pena, mas foi a maternidade que virou sua vida de cabeça pra baixo. Entendeu que mulheres, juntas, têm muita força. E que podem transformar o mundo. Acredita que vale a pena batalhar por crianças feministas e por direitos humanos.



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