O padrão de beleza chegou à vulva*

Algumas ilustrações do The Vulva Gallery

Nos últimos anos, vem aumentando no mundo todo a procura pela chamada cirurgia íntima. No Reino Unido, entre 2003 e 2013, a procura aumentou cinco vezes, o que levantou preocupações de muitos profissionais da saúde. Tristemente, o Brasil é o campeão mundial no número de procedimentos. Em geral, podem se submeter à cirurgia mulheres com mais de 18 anos, porém a BBC britânica relatou que meninas de 11 anos têm procurado o sistema de saúde público em busca do procedimento.

Para entender esse fenômeno preocupante, precisamos falar um pouco sobre anatomia feminina. A labioplastia, que é o tipo mais frequente de cirurgia íntima, consiste na redução dos pequenos lábios da vulva feminina. Também podemos dizer que labioplastia é o termo médico para o ato (cruel, segundo alguns) de cortar os pequenos lábios (lábios internos) das mulheres para que eles fiquem menores do que os grandes lábios (externos) – espie os desenhos que ilustram o post. Se você não está entendendo o que estou falando, assista ao vídeo abaixo, em que um cirurgião plástico brasileiro explica o que são pequenos lábios “normais” e pequenos lábios “hipertrofiados”. Trata-se de um homem que ganha dinheiro às custas da insatisfação de mulheres com sua anatomia íntima tida como “anormal”. A parte mais chocante para mim: o médico faz uma demonstração dos pequenos e grandes lábios em papel e, com a maior naturalidade, corta com uma tesoura o “excedente” e depois costura o que sobrou. Por favor, assista.

Agora vamos pensar um pouquinho: se você descrever esse procedimento para qualquer pessoa sem usar o a palavra labioplastia, vai ou não soar como mutilação genital? A diferença é que aqui são as próprias mutiladas que escolhem se submeter a tal violência. Em troca do que mesmo?

A grande questão que se coloca é: o que é uma vulva “normal”? Será que ter pequenos lábios grandes é um defeito anatômico? O ginecologista Nicolas Berreni esclarece que somente 20% das mulheres possuem pequenos lábios que não “ultrapassam” os grandes lábios. Ou seja, se este for o novo critério de beleza, então 80% das mulheres deveriam se submeter à cirurgia de correção oferecida pelo médico do vídeo. Belo mercado a ser explorado, não?

Entre as principais causas (ou desculpas) para a labioplastia, estão algum tipo de incômodo para usar biquíni ou roupas apertadas, praticar esportes ou prejuízo na vida sexual. Não estou dizendo que nenhuma mulher tenha razões suficientes para recorrer à cirurgia, mas me pergunto se esse foi o caso das mais de 15 mil brasileiras que o fizeram em 2014. Segundo a cirurgiã plástica Cíntia Mundin, as mulheres têm procurado o procedimento para aumentar a auto-estima. E muitas relatam “dores” quando a motivação é puramente estética.

“A aparência fica igual a de uma criança”.

Essa foi a conclusão de uma mulher de 21 anos que se submeteu à cirurgia, antes mesmo de ter sua primeira relação sexual. Mas por que as mulheres não gostam do que veem quando se olham no espelho? De onde vem o padrão de beleza da vulva? Muitos atribuem à popularização de filmes pornô (que em geral mostram vulvas com grandes lábios pequenos) e à prática de mandar imagens de nudez pelo telefone (o famoso “sexting”). Esse movimento, infelizmente, reflete uma onda de infantilização da genitália feminina (que inclui a retirada parcial ou total dos pêlos pubianos), bem como a busca por uma juventude eterna. Outro fato relevante é que poucas mulheres conhecem, de fato, sua genitália. Vergonha, falta de tempo ou interesse e uma criação com base religiosa podem estar entre as razões para essa falta de exploração da vulva feminina. Nesse vídeo, foram captadas as reações de mulheres ao verem suas vaginas pelo espelho, com calma, pela primeira vez (você só verá as reações, não as vaginas). Já os meninos, bem, estes são comumente incentivadas a mexer no pênis desde pequenos e educados a não ver nenhum problema em sentir prazer com isso.

E se, no lugar de pagar por cirurgias ou gastar energia definindo um padrão de beleza da vulva (ó céus, estamos mesmo falando sobre isso?), passarmos a celebrar a beleza da diversidade? É nesse espírito que surgiu o The Vulva Gallery, uma série de ilustrações de vulvas feita pela holandesa Hilde Atalanta. A ideia é educar sobre a variedade natural que existe em nossos corpos. Celebrar a beleza da diferença. E divulgar belíssimas histórias de mulheres que, com ajuda do projeto, fizeram as pazes com a estética de seus próprios corpos (incluindo as que escaparam a tempo de uma labioplastia, ufa!). A imagem que ilustra esse post é uma compilação de desenhos da autora. Siga aqui a página da galeria no Instagram e familiarize-se com a diversidade!

Termino este post com as palvras de Hilde:

“Todas as vulvas são perfeitas do que jeito que elas são. Porque diversidade é lindo”.  

* Vulva é toda a parte externa do genital feminino e envolve pêlos, grandes lábios, pequenos lábios, clitóris e também a vagina, que é o canal interno.

Nicole Spohr

Fundadora e editora do FF, mãe do Guto e pesquisadora. Andou meio mundo pra fazer uma tese de doutorado que valesse a pena, mas foi a maternidade que virou sua vida de cabeça pra baixo. Entendeu que mulheres, juntas, têm muita força. E que podem transformar o mundo. Acredita que vale a pena batalhar por crianças feministas e por direitos humanos.



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